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Eu tenho bloqueio mental, sério, um grave bloqueio mental com argumentos e com quem consegue discutir vida em um amontoado de células. Minha crença é contra, mas minha crença se baseia em conhecimento anterior à ciência, testes, mais testes, evidências, pesquisa, etc.

Pior, nego se baseia num livro escrito há milênios e pior ainda, em um livro cuja interpretação da Igreja aprovava o aborto até poucos séculos atrás.

E piora, quem é Kardecista e contra o aborto se baseia na opinião de um suposto espírito que supostamente ditou o conhecimento a um suposto médium.

Não, eu não duvido da existência de espíritos, nem nada disso, mas o suporte lógico de quem é contra o aborto e a legalização é baseado em nada.

O consenso científico sobre o limite do aborto, até 12 semanas, é sustentado por experimentação repetida, comprovada e sob julgamento da comunidade científica a partir de procedimentos mínimos comprováveis de terem sido feitos e passíveis de reprodução por outro.

E isso é reproduzido milhares de vezes, não são fenômenos isolados, não são um médium que recebe o apoio de centenas e até milhares de pessoas que jamais tentaram dialogar com o mesmo espírito que ele e comprovar este diálogo, que permanece sendo parte dos mistérios aceitos tacitamente como válidos pelos seguidores de determinado credo.

Respeito o conceito dos mistérios de cada fé, o que não respeito é que o conceito de mistérios de cada fé e da origem misteriosa do conhecimento da fé se sobreponha a uma imensa gama de conceitos científicos comprovados, estabelecidos como conhecimento a partir da comprovação pela comunidade científica não pela aceitação de mistérios, mas pela reprodução de experiências que tiveram o mesmo resultado da experiência original e que sim foi objeto de tentativa de refutação e negação.

Além do mais sua fé, nossa fé, a fé de quem quer que seja, não tem direito nenhum a se impor como lei a outrem. A fé é direito seu, enfie ele onde você quiser, mas a concepção dela sobre direito dos outros é irrelevante e é mais irrelevante ainda quando se baseia em uma gama de categorias de pensamento incapazes de resistir a qualquer observação científica séria por mais de cinco minutos.

A ciência erra? Ô se erra, mas ela erra e é exposta porque está sujeita a controle por seus pares e fora da comunidade científica, que tem de publicizar as descobertas e manter procedimentos verificáveis.

A fé se dispõe a isso? Não, jamais. E pior quando se tenta expor a fé a critérios de verificação não raro quem o tenta acaba sendo atacado como um intolerante e em um debate receber uma série de ad hominem e construção retórica rebaixada, que parte de sofismas para se apresentar como lógica.

E por que isso? Porque o conceito de verdade que embasa a argumentação da fé é misterioso e incapaz de ser exposto a um processo de verificação que garanta sua vericidade, por isso os argumentos não podem ir além do direito individual à fé, ao auto engano, ao estabelecimento da suspensão da descrença.

E sim, sou extremamente impaciente com isso. Tenho fé nos Orixás, acredito neles e tenho provas individuais de sua existência, jamais poderia provar pra outro a existência deles, mas acredito neles, e mesmo isso não me leva a levar a sério proibições religiosas da minha fé sobre ato A, B ou C, minha proibição aceita são a dos limites éticos e limites científicos dos atos.

Estes limites estão intimamente interligados e são coirmãos na lógica da sociabilidade, da ideia de convivência libertária, etc. O limite ético do aborto está na relação entre quem tem ou não vida e que vida se pretende manter viva ou não. Não consigo compreender quem entende que um feto sem terminações nervosas e comprovação de consciência tem mais direito à vida que uma mulher adulta plenamente consciente. O limite científico do aborto é o que comprova a existência de vida em um feto, a ciência diz que ela pode ser identificada a partir do desenvolvimento de um sistema nervoso central e a partir dai da dor, da consciência, da formação do indivíduo. Fora disso é aposta.

Juntando o limite científico e o ético é possível definir quem é contrário ao aborto, e sim falo do ato e da legalização, exacerba o direito de sua fé, exacerba o limite ético do julgamento do outro e a partir do julgamento, que sempre é uma reprodução da lógica de controle e do cerceamento social, oprime. Oprime e atua como extensão social da punição de quem faz ou deseja fazer o aborto por ter feito sexo sem o intuito de engravidar e ter filhos.

Por que digo isso? Porque o julgamento do aborto não é sobre a vida, é sobre o uso da mulher de seu corpo, e o fato de o sexo para as mulheres conter o risco da gravidez.

Ou seja, a gravidez é algo que a mulher é obrigada a manter por ser, segundo a fé, sua obrigação e sua “dádiva”. Com isso a mulher fazer sexo e engravidar dá a ela a obrigação de manter esta gravidez, dane-se a vontade dela. O ato sexual não foi pra isso? Dane-se ela, ela engravidou e isso é sagrado, é um dever que ela sofra nove meses com isso!

Os limites ético e científico do aborto são irrelevantes pra quem é contra o ato e sua legalização, porque o que tá em julgamento aqui não é o ato do aborto é o rompimento da obrigação imposta à mulher de uma castidade que jamais tente ter prazer dado que o sexo para ela é algo a ser feito apenas para a obtenção da gravidez e se ela foi ter prazer e por acaso engravidou que carregue consigo a gravidez que é ao fim e ao cabo a única função que interessa que a mulher tenha.

Esse é o cerne da negação do aborto, é controle sobre a mulher, satanizada desde Adão, e sobre a função única dela: Ter filhos. E esse cerne é um cerne religioso, teológico e de ética teológica, não precisa e nem quer comprovação científica ou debate científico e nem controle público sobre como se constroem as bases lógicas de seu argumento.

Por isso que minha aversão a quem se põe contra o aborto é uma aversão ética e política, por que quem nega o aborto e sua legalização é um militante da conservação, do status quo e da opressão sobre a mulher. Não há meio termo aqui, toda lógica ética envolvida a negação do aborto é uma lógica de opressão, anticientífica, anti cidadã, antiliberdade.

Toda essa estrutura é uma estrutura construída para dinamitar o ganho de direitos e de liberdade das mulheres sobre seus corpos, o ganho de direitos e de debate cívico sobre eles.

O debate sobre o aborto é antes de tudo um debate sobre liberdade e uma liberdade isonômica, quem é contra o aborto é contra direitos que não sejam contemplados na sua fé em Deus e em seus privilégios e portanto é meu inimigo.

 

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