17jun2013 100-mil-pessoas RJ

Escrevi ontem uma reflexão no Facebook sobre a desqualificação da esquerda das manifestações de junho e a culpabilização delas pela eleição de Garotinho e Alckmin e a reproduzo abaixo com alguns complementos.

Desde 2002 o PT foi deixando um vasto latifúndio vago pra que uma esquerda ideológica o ocupasse. Nadinha dela ocupar. O que ocupou essa esquerda foi o discurso moralista, udenista, binário, anacrônico, estanque e monolítico. Apenas minoria dela entendeu a crise ecológica, a crise de representação, a crise da democracia, a fome de direitos, ninguém ouviu a periferia, ninguém falou com índio, ninguém foi quilombola, nadie.

Ano passado estourou um mar de manifestações que as pessoas, milhões delas, puseram na rua um grito, um urro, um abraço no “vamos à luta”. Ai a esquerda tentou domá-los com um discurso que tentava tornar esse mar de gente como parte dela, sem combinar com os russos.

E ai quando esse mar de gente não faz o que a esquerda manda ela faz o que? Desqualifica.

E ai, perdida sem entender que seu saldo organizativo foi menor do que o esperado, que o saldo organizativo foi menor que o da direita, que o saldo organizativo foi menor que o dos anarquistas e autonomistas, tornados símbolo dos atos pela mídia e com a cumplicidade desta mesma esquerda que claramente disse “temos de isolar os black bloc”, o que faz essa esquerda? Desqualifica o mesmo junho que reivindica.

Não, queridos o Meme sobre Garotinho não nasce fora dessa esquerda, nasce dela, do coração dela e sua arrogância e soberba, sua distância física das periferias, da mente das periferias, dos corações das periferias, da compreensão das periferias, da arquitetura das periferias, da música, da dança, da fome, do medo das periferias.

O meme sobre Garotinho é um atestado de que pra essa esquerda o popular que não seja lido em teses e livros é um popular não palatável, não domado e que é um popular que não se deseja.

Essa esquerda que ia mudar o mundo agora assiste a tudo com medo, no muro.

E do muro finge não ver que não se mexe pra além dos centros urbanos, para além do discurso fossilista, para além das periferias dos próprios centros urbanos. O centro desta esquerda dista tanto da periferia quanto o centro do poder dista das bases.

Raros são os candidatos vinculados a algum tipo de luta social das periferias, vindo de lá, moradores delas. Raros são os índios, raros são os quilombolas e quando existem não estão em geral ali defendendo um programa amplamente abraçado pelo partido. O Quilombola representa o quilombo pro partido que não vai ao quilombo a não ser como uma espécie de abraço pontual na causa, uma espécie de apoio moral antes de ao ser abordado sobre a questão indígena fatalmente tentar vinculá-la a um ataque a Bancos.

A esquerda também financeiriza tudo, torna tudo chão de fábrica, viés de fábrica, cultura de fábrica.

A esquerda ocidentaliza tudo.

Sim a esquerda tá mais próxima das ruas e dos índios, quilombolas, LGBT, mulheres do que a direita, mas ela os vê como um alvo, uma cultura que dista dela e que precisa defender, não imerge nela, não mergulha, não supera a lógica do progresso, o ethos ocidentalizador, a hierarquia disciplinada do operariado na linha de produção, a hierarquia cultural do ocidente sobre o oriente.

E por isso a esquerda enxerga o outro que não entende como alguém que deve ser tutelado por sua descoberta da verdade, por seu destino manifesto, pelo seu legado da luz iluminista que guiará todos pela mão.

Isso não é restrito aos marxistas, muito pelo contrário, é fácil de encontrar em toda a esquerda e anarquistas filhos das ideologias contestatórias do século XIX. Isso é fruto de um ethos ocidentalizante que traz na pregação da razão como libertadora, mas uma razão europeia, centrada no contexto das ideologias estruturalistas que a tudo explicam.

A questão é que quando o resultado do jogo e diferente do que se sonhava então se torna quem não seguiu a luz como anátema, como tolo, como culpabilizado pelo resultado final e jamais, mas jamais mesmo a ideia tática de intervenção no real é a culpada.

É culpa da população se a esquerda ficou mais preocupada e reeleger seus parlamentares e eleger novos do que ir fazer trabalho de base nas periferias? É culpa dos índios se a esquerda opta por um discurso de ignorá-los salvo em pouquíssimas intervenções pontuais e em especial no campo eleitoral?

Ah, mas parlamentar A e B foi lá, ok, mas que partido vai ele inteiro lá o tempo inteiro organizando um diálogo, etc? Falta perna? Pombas, mas essa perna jamais fata pra se organizar no centro, só na periferia?

Quantos candidatos da zona oeste do Rio de Janeiro estão concorrendo sendo priorizados? Quantos trabalhos de base na periferia recebem atenção e investimento? Pergunta no Alemão ou em Realengo e a resposta não vai ser muito amena pro lado dos partidos da esquerda.

A periferia quando se organiza, se organiza não com a ajuda dos partidos, Não recebe atenção, nem peso, nem força, nem prioridade, a não ser que algo surja com potencial eleitoral endossado por alguém do centro.

E ai a culpa do potencial eleitoral sonhado a partir da última festa da democracia não é alcançado e se culpa o eleitorado? Amiguinhos, sorry, mas vocês estão fazendo isso errado.

E ai a critica é sempre vista como mágoa de cabocla, como coisa de cristão novo e jamais se entende porque se vota cada vez menos pela esquerda, por que quem tem senso crítico e olha o cenário opta por outros meios de militância e vê menos o voto como saída, porque se é pra apostar em novos caminhos de burocratização tipo PT pra que apostar?

Ah, mas nem todo mundo é calhorda. Sem dúvida, mas as máquinas que entram na pista de corrida tendem a fazer o mesmo circuito muda-se aqui e ali a tática pra chegada na linha fina, mas pra ter carro as paulatinas concessões não costumam ser diferentes.

Não é nem marxista nem critico entender que um grupo minoritário tenha poder e meios de mudar um quadro complexo de burocratização que vai do método de debate ao método de busca de voto e priorização tática. Pode vir a ter? Opa, claro que sim, mas pra isso tem de ir além da crítica periférica ao método.

A ideia da aposta ano a ano, eleição a eleição na lógica da esperança que um dia um grupo mais esclarecido mudará os rumos de um ethos estabelecido de progressismo desenvolvimentista ocidentalizante, tutelador, avesso a horizontalidades é uma lógica quase teológica da exigência de fé.

Ah, mas abraçar o niilismo ou a anarquia é utópico e não tem nenhum tipo de garantia que será melhor. Ah, com certeza, mas a diferença e que o objetivo estratégico da anarquia passa menos pela etapa, pela lógica do ganho paulatino e pelo vir a ser do que a metodologia clássica dos vários vieses do marxismo político. Sem contar na variedade de grupos e organizações e diversidades táticas, estratégicas e interpretativas. Em resumo, não existe na anarquia uma ordem ideológica fechada com regras rígidas e rituais que se pretendem horizontais e democráticos, mas são só simulacros.

Isso resolve o problema e salva das contradições? Jamais. Há problemas nos diversos anarquismos, muto sectarismo e muito autoritarismo, autoritarismo similar a tantos outros existentes nos partidos. Não mais nem menos autoritários ou dogmáticos.

Outra coisa que não resolve o problema é a continuidade de ausência de autocrítica coletiva de quem se pretende coletivamente participante de uma tradição que chega a Marx e tem muito mais unicidade que os muitos anarquismos e não fala nada sobre a incompetência em se construir de junho pra cá e mais grave, da lógica de criar um muro entre a esquerda, black blocs, anarquistas e autonomistas ajudando a mídia e a sociedade a criminalizá-los como causa da violência policial.

Nem precisa ir longe para pescar a insistência, os candidatos do PSOL e do PSTU à presidência mantém a criminalização política aos black blocs em seus discursos de campanha, a exceção é o discurso de Mauro Iasi do PCB.

A atuação de todos em relação à prisão de anarquistas e autonomistas na copa foi de omissa a constrangedora. O esforço maior era o de ajudar na penumbra, tentando evitar que os jornais manchassem as imagens de bons moços dos principais candidatos ao parlamento e a governadores e presidência.

O argumento é que autonomistas e anarquistas “nada constroem” e não são “nossos aliados” ou seja, pra defender um lutador de perseguição pelo estado, publicamente e com coragem ele deve ser aliado no sindicato? Não basta estar na rua, ele deve ser da mesma chapa? Serião que o senso ético e de entendimento da construção coletiva do pano de fundo de uma suposta revolução que todos perseguem vai de vala por questões paroquiais? E ainda querem coletivamente dizer “Pra que tudo isso se vamos eleger Garotinho?” Sem perceber a própria culpa nisso?

Uma esquerda que trata a si mesma com a lógica da disputa paroquial, que se digladia por migalhas de aparatos exclui lutadores anticapitalistas do raio da solidariedade militante por não se alinharem no mesmo campo nos sindicatos, grêmios, Ca, etc, merece a confiança de quem vota para tirar Garotinho?

Uma esquerda que opta conscientemente por se omitir geograficamente da ocupação de espaços, de destinação de recursos militantes, mesmo sendo capaz de girar militante do Rio Grande do Sul pro Ceará pra disputar diretório, merece a confiança de quem vota pra evitar Garotinho?

O que preocupa é menos um ataque a essa esquerda e mais explicitar a ausência de entendimento por ela mesma da dimensão histórica de sua própria incompetência e em enxergar estrategicamente o mundo, as manifestações, o discurso, etc.

Essa esquerda que é incapaz de assumir um discurso ambiental já produzido em seu interior pra prender no produtivismo mais anacrônico possível e uma esquerda incapaz de uma análise marxista da conjuntura atual. Uma esquerda que ignora a questão climática é de uma miopia transgressora.

Enquanto isso os caóticos anarquistas fazem lentamente um trabalho que já menciona a questão climática desde 2008 e tenta construir com muito menos gente intervenção militante na questão ambiental, nas periferias, etc, mas em vez de serem vistos como exemplo são escanteados e criminalizados por tabela pela mídia e pela omissão partidária.

Mas tá tudo bem, sempre se pode culpar a população.

<

p style=”text-align:justify;”>Mas tá tudo bem, sempre se pode culpar a população.

 

Anúncios

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s