Filme As Viagens de Gulliver Na foto:  Foto: Divulgação

Há meses somos bombardeados com sociologismo travestido de análise, fanfics políticos sobre manifestações de junho que tinham mais wishfull thinking que trabalho concreto com observação e trabalho analítico científico e tudo isso pra falar sobre um tal gigante que acordou.

De boa? A galera discute se o gigante acordou bêbado, ou se acordou tarde e voltou a dormir, etc, tudo isso pra discutir se as manifestações foram de esquerda ou direita.

O que eu pouco vejo é que ninguém coloca o fato de uma enorme massa foi às ruas e foi disposta a mudar, só que esse desejo de mudança difuso não tinha espectro ideológico definido e estava em disputa.

E o que se fez para essa disputa além de uma troca de sabotagens entre grupos, a velha busca da hegemonia, que chegou ao ponto de secundar a criminalização de lutadores feitas pela mídia?

Nada. Se fez o velho trabalho burocrático que tem menos de busca de convencimento e trabalho de base e mais, muito mais, de aparelhamento das manifestações, dos movimentos, dos atos, queriam o rótulo dos atos colados na testa, tudo em nome do projeto de hegemonia próprio a cada grupamento. Zero de entendimento das mudanças, zero de entendimento do fluxo de descontentamento, zero de discussão concreta e ampla de construção de base.

O discurso inteiro foi de tentar captar os ganhos sobre os atos para primaveras e insurgências, como se os atos fossem herdeiros do legado de campanhas eleitorais passadas, etc. E quando não foi isso foi de cagar regra sobre quem tinha o monopólio da compreensão da tática correta da insurreição. E, óbvio, na busca de dizer “Nós compreendemos a tática correta da insurreição!” não se teve nenhum escrúpulo pra jogar aos jacarés quem ousou ter outra dimensão tática e organizativa que não acreditava em primaveras.

No âmbito anarquista/autonomista a busca foi de organizar de outras formas algo que estava difuso, foi de buscar atuar nos atos, atuar no cenário onde se precisava atuar. Com todas as falhas e equívocos estavam presentes buscando manter a chama insurrecional acesa e não tentar captar sua luz para a bateria das organizações e para a institucionalidade.

A cereja do bolo foi após a morte de Santiago todos os grupamentos institucionalistas terem maior velocidade em secundar a mídia na crucificação de autonomistas/anarquistas do que a preocupação em entender o recrudescimento da violência policial, a tática de intimidação e repressão, a ideia do terror como meio de evitar contestação ao poder, o que significavam as marchas, o que significava o aparecimento da tática black bloc, quantos a praticavam, etc.

E ai? Qual o resultado disso? Bem, o resultado disso é que o gigante não voltou a dormir, estava e está acordado e pelo que parece não teve o desejo de mudança atraído para os que se diziam herdeiros de junho.

De norte a sul do país a esquerda institucional fez o possível e o impossível pra fazer a egípcia, para se descolar da insurreição que não fazia parte do script aceito pela mídia, pela classe média, em busca de evitar perder os votos tão caros de Caetano, Duvivier e Leandra Leal.

Anarquistas e autonomistas tiveram de lidar com seus próprios equívocos, com o ataque da mídia, da polícia, da esquerda partidária e de uma população que ouviu de trezentas fontes que reagir era baderna, vandalismo e, óbvio, diante de tantos flancos não conseguiu um avanço significativo em termos de número sobre o corpo do gigante, embora se tenha tido um crescimento de simpatizantes do anarquismo pouco visto em décadas.

Ao fim e ao cabo, o gigante realmente acordou e está seduzido pelo discurso da renovação nem tão nova assim, pouco afeito a qualquer rompimento e ignorando o fato de todos os principais candidatos serem versões do mesmo programa de alimentação do capital, com ou sem presença do estado, discurso ambiental de dúbio a devastador, atuação de omissa a conivente com os herdeiros da ditadura militar (Negando-se todos à revisão da lei da anistia), recuos consideráveis em DH e questão LGBT e um feroz programa de fomento ao agronegócio.

Enquanto isso a disposição da esquerda institucional vai pouco além de zero de qualquer inclinação a tratar a questão indígena, quilombola e de populações tradicionais a sério, idem ao meio ambiente e questões climáticas.

Ou seja, toda a gama de caminhos possíveis por parte da esquerda para encantar o gigante foram para a volumosa casa do caralho. O caminho que ela tinha por si mesma jogou fora e o caminho de qualquer polarização anticapitalista foi por ela sabotado em conjunção entre ferozmente ativa e omissa com a direita e a mídia. Enquanto isso os aparatos de reprodução ideológica nem ligavam, bastava que em algum momento, hoje ou em 2018, aparecesse um rostinho bem-acabado pra dourar o produto e representar um novo que encantasse o gigante e o levasse pela mão pra derrotar a burocracia petista que apesar de fazer o programa do capital a contento, não é puro sangue, não tem os economistas certos e ameaça o “imperialismo do bem” apoiado por jornais e revistas.

E o gigante não só acordou como se divide novamente entre apoiar o velho com medo e renovar por um novo sem novidade, parte minoritária dele não acredita em partido nenhum, mas a esquerda opta inteiramente por permanecer fazendo a egípcia da autocrítica sobre uma herança que achou que tinha e não tem.

Quem achava que ia levar o gigante pelas mãos e esperava uma herança, acabou duro, sem gigante, tratando questão política como quem administra quitanda, levando problemas e traições pessoais pro cenário ideológico e se omitindo da construção do salto-mortal programático que devia existir pra não perder a cômoda posição de líder paroquial.

E o planeta? E o mundo? E a revolução? Bem, o gigante poderia até gostar deles, mas foi educado pela TV. Os professores que diziam que iria educá-lo estavam mais preocupados em disputar o berço do gigante, que já sabia andar.

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p style=”text-align:justify;”>E o resultado é que o gigante acordou, aprendeu e andar e foi caminhar pela direita.

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