RayadoChillanChileAnarquista

A opção pelo não voto é algo substancialmente tido por boa parte da esquerda partidária como um crime inafiançável contra seu programa de disputa que combina taticamente e estrategicamente (com graduação pontual entre um e outro de partido e grupamentos para outros) a institucionalidade como palco de intervenção.

A opção pelo voto é algo substancialmente tido por boa parte de anarquistas como um crime inafiançável contra a luta pela abolição do estado, dado que endossa o sistema eleitoral e o próprio estado ao fazer parte da renovação de seus quadros sem nenhum tipo de alteração estrutural e abolição do maior inimigo do anarquismo, o estado.

Neste âmbito de disputa qualquer opção que não seja uma ponta ou outra do espectro político da decisão é em geral sectariamente visto como anátema.

E ai reside o problema básico de boa parte da disputa politica cotidiana, agravada por um mar de deformação teórica produzida por todos os movimentos na esquerda partidária ou no cotidiano anarquista, que induz ao pensamento dogmático e ao binarismo, à ausência de uma interpretação da realidade complexa com a necessária tranquilidade para abordar a questão para além da repetição de fórmulas sem reflexão.

Votar ou não votar são opções que fazem parte de uma estrutura de formação política e variado grau de conscientização que precisam de mais que citações de Lênin ou Proudhon para serem julgadas.

Vota-se ou não se vota com ou sem consciência. Votar por um suposto credo na mudança ou não votar baseado apenas em “Não sustente parasitas” é muito pouco.

Nenhum voto vai superar o sistema, nenhum não voto ou voto nulo idem. E por isso entendo que a ideia do voto nulo tenha de ser mais problematizada que apenas a oposição entre votar e lutar. Há quem vote e lute e quem não vote e não lute.

A ideia do voto deve, ou deveria, ser combatida com a conscientização sobre a necessidade de atuar no cotidiano não como oposto do voto, mas como substituto dele, sem, no entanto, qualificar quem vota como imbecil ou traidor. A questão não é um a um, não é pessoal, é coletiva. E sim a opção pela servidão voluntária é libertariamente aceita como decisão pessoal. Deve ser respeitada e compreendida, assim como deve ser alvo de diálogo se se quer convencer a mudar de ideia e opção.

A ideia do voto também tem de parar de ser uma renovação do sebastianismo conservador que coloca quem não entra em seu campo de influência como portador de demência senil.

O sistema eleitoral é sim parte do estado, é todo construído de forma a de qualquer meio, votando, não votando ou se abstendo, se endossar seu funcionamento, seja com o ato de votar nulo ou votar, seja com o pagamento de multa pela abstenção. Votar é sim endossar o estado e sim é abrir mão do poder pessoal para delegá-lo a outrem.

Não votar é se negar a isso, abster-se idem. São atos políticos conscientes de quem se nega a delegar seu poder a outrem, seja este outro um grupo ou uma pessoa.

Quem vota abre mão de seu poder em nome de um grupo, de um programa ou de uma pessoa que considera iluminada. Todas essas opções são conscientes. São inclusive pragmáticas.

Quem não vota, nega-se a votar ou vota nulo, opta de forma consciente por um combate direto ao sistema, uma ação direta de negação direta e também simbólica ao sistema e inclui sim todos como frutos do mesmo.

E todos são frutos do mesmo sistema, seja a direita mais fétida ou a esquerda mais fofa. Com muita gradação há quem na esquerda seja representante de novas ideias e busca de maior horizontalidade, que entendo como uma minoria, e quem só tem uma gradação maior ou menor de cooptação pelo estado e pela burocracia, que considero a absoluta maioria. E a minoria não só é calada pela maioria, como invisibilizada, tudo com muitos procedimentos que parecem com democracia interna.

Minha posição pessoal foi por anos a ideia da compreensão do ato de votar exatamente como a exposta acima, só que de conscientemente abrir mão do poder pessoal em nome de um processo de delegação que entendia como construtor tático de um determinado projeto. Jamais abri mão da consciência adquirida pela leitura de Malatesta do papel do voto como abertura de mão do poder individual em prol de um suposto bem maior ou causa maior que não tinha garantia nenhuma de se realizar de acordo com o que eu pensava ou com os projetos que defendia. Minha formação marxista e posteriormente trotskista jamais apagaram a primeira leitura política anarquista.

A questão é que, sim, havia uma relação contraditória entre autoengano pessoal e relações políticos pessoais de confiança que traduziam uma vontade de programaticamente construir caminhos por dentro de um estado que é notório cooptador e solapador da vontade popular e de lutadores. Só que isso a meu ver não é mais um caminho.

Não vou citar trezentos autores, duzentos megas de leitura política para justificar uma posição, mas preciso identificar na falência do modelo partidário pra mim (ele não faliu pra todos e tampouco faliu pra muitos apenas agora) a decisão de votar nulo e entender que sim, anarquistas estão certos quando se negam ao voto ( a não ser em situações-limite como em disputa entre concretamente fascistas contra democratas como alguns defendem, eu sou um deles).

A tradição de participação dita democrática tem o fenômeno da burocratização e cooptação como exemplos gritantes de como o estado não dá mole e pega um, pega geral.

A esquerda tem uma tradição que começa na social-democracia alemã e no Brasil dá um salto-mortal com malabares no PT pra cair no colo da exemplificação eloquente de como o aparato do estado é alimentado pela ilusão de sua ocupação como meio de transformação que em tese faria uma luta anti-hegemônica revolucionária. Essa tradição contínua a pegar no PSOL, no PSTU e no PCB em maior ou menor grau na sua relação com o estado, com mandatos com sindicatos, DAs, CAs, DCEs, movimentos autonomistas, anarquistas e grupamentos não-partidários. A ideia de uma necessária adequação para a conquista de aparatos e entrada na institucionalidade é quase uma doença degenerativa na esquerda que se identifica como marxista-leninista.

Tudo o que foge da compreensão dessa esquerda é tachado de inimigo, de adversário, de porra-louca, é desprezado, ignorado, é solenemente tido como tolo e incapaz de produzir análises e interferências no real. Isso quando não é criminalizado, secundarizado, omitido, invisibilizado.

Essa tradição pra mim cometeu seu harakiri quando por opção abandonou até a falácia do programa.

Quando a defesa de um programa que se diz de ruptura ignora toda contribuição radical em nome de um discurso amestrado, burocratizado, ela opta conscientemente por calar toda a necessária radicalização do discurso e o que o torna contra hegemônico. E quando tudo isso é feito em nome de um galgar na aprovação popular é porque a opção não é transformar, mas se adequar. E ai se tudo é feito em nome da adequação a gente não precisa criar corvos para furar nossos olhos já furados.

A questão ambiental é eloquentemente tratada por todos como secundária, como se a crise ecológica e climática que está ai gritante fosse apenas um passeio de leiteiro numa tarde de verão. A opção pelas candidaturas a presidente que deveriam ser contra-hegemônicas foi entre a deliberada omissão e o não tomar conhecimento sobre a questão climática, passando pelo pior que é ter programa pra combater mudanças climáticas e cagar pra ele.

Poderia listar uma longa lista de invisibilizados, mas fico com algumas questões: Fala-se de LGBT com foco em gays e lésbicas, pra que falar em trans? Fala-se de indígena como se fala de vic vaporub em propaganda, de leve sem nenhuma profundidade e cuidado, índio se vira com demarcação e foda-se o resto; Quilombola nem mencionado é; ribeirinhos, atingidos por barragens, bobagem; Matriz energética? Um mantra bonito repetido sem nenhuma menção a como mudá-las.

E isso entre os três candidatos em tese contra hegemônicos, os três cavaleiros da Friboi são tão esperançosos e renovadores quanto cair de avião.

Nesse meio tempo ouvi e li que anarquistas são sectários e que produzem uma negação do poder que é truculenta e ofensiva. Da minha experiência cotidiana eu não identifico ninguém, nenhum grupamento, com o monopólio do sectarismo e da truculência. O que há em grupamentos e coletivos anarquistas não é mais sectário ou truculento que dentro de partidos como o PSOL. O mais sectário que encontrei no meio anarquista lembra um gatinho perto de determinados amigos da ala majoritária do PSOL. A diferença é que os amigos da ala majoritária do PSOL fraudam plenárias, contratam capangas e os anarquistas mais truculentos que conheci só me xingaram. Ah, alguns tentaram bater em companheiros da esquerda partidária? Desvios como os que levaram a setores usarem seguranças pra bater em quem fiscalizava plenária.

E temos de considerar o histórico das relações entre socialistas partidários e anarquistas pra entender que essa relação belicosa não foi produzida com versos e flores vindos dos comunistas.

Neste meio tempo aprendi outras formas de diálogo entre ecologia e ação direta, entre os mais variados meios de construção de política paraestatal e extra partido. E meu voto não vai engordar meios de inviabilização da pauta ambiental em nome da repetição de um programa arcaico, reforçador da lógica produtivista, que trata meio ambiente como tão secundário que sequer como forma de aprendizado e contribuição para uma revisão da percepção global da política serve.

Meu voto não vai mais endossar uma lógica de estado produtivista, progressista, antiecológica e avessa à liberdade individual e sobrevivência da vida na terra. O estado é assim, os partidos e lutadores no interior da institucionalidade o reforçam cotidianamente ao manterem a lógica de progresso, de desenvolvimento econômico e não ecológico, a ideia de combate aos bancos e ao mercado financeiro como se fossem setores separados da indústria petroquímica e do agronegócio.

Às raras e gratificantes exceções que militam nos partidos eu mando um abraço e mantenho o óbvio diálogo. Até pelo óbvio diálogo que existe entre o municipalismo libertário da minha principal referência anarquista hoje (Murray Bookchin) e o planejamento democrático ecossocialista de Michel Lowy e Daniel Tanuro. Só que esse diálogo diverge ao tratar o estado como passível de ser ator no planejamento democrático sem ser vetor de hierarquização e autoritarismo, sem ser escravo da demanda econômica majoritária, da macroeconomia do progresso.

Quanto às chances de anarquistas ou socialistas construírem a revolução, eu não tenho como afirmar que os grupamentos que reforçam e endossam um estado que pretendem derrubar tenham mais chances de fazê-lo do que quem constrói resistência fora do estado e do sistema eleitoral.

No mais as trincheiras da luta são as ruas, são os bairros, são as cidades, e quem tá na luta que seja reconhecido por seus atos como lutador.

Nas urnas meu voto é nulo.

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