anarquismo e marxismo

Fui questionado sobre a relação entre anarquismo e voto. Como você se reivindica anarquista e vota?

Algumas formas de resposta:

1. Não acredito nem na forma partido e nem na eleição como estratégia, mas acredito no voto como ferramenta de intervenção tática. Ajuda no processo de pressionar, ajuda no processo paulatino de conquistas de direitos e avanços sociais. Não é panaceia, mas é ferramenta.
2. Me reivindico anarquista verde, e no fundo não tenho nenhum problema em misturar o que acho importante das mais variadas correntes políticas, do anarco primitivismo ao trotkismo da quarta internacional e reconheço em todos contribuições importantes e lutadores importantes, não me vejo sendo sectário com ninguém, exceto com o que considero direita.
3. Acho que os muitos anarquismos não precisam ter a lógica de tribo fechada ou gueto como assessório. O sujeito não precisa estar confinado ideologicamente à produção assumidamente anarquista. Estou muito impactado pela leitura do Bookchin, como sou do Thompsom, do Lowy, do Tanuro e fiquei do Trotski, acho que de tudo isso tem como fazer samba e música boa, não preciso jogar fora uma contribuição teórica por ela não se alinhar com uma escola teórica da luta social.
4. Não me reivindico ecossocialista mais, não por aversão ao ecossocialismo, mas por seu caráter extremamente vinculado à forma partido e organização vertical. Entendi que o processo ecossocialista sendo extremamente vinculado á institucionalidade tem os limites das organizações verticais, porém sua produção teórica, acusada por muitos de “reformistas” procedem em diversos momentos, especialmente por colocar o planejamento democrático, a construção horizontal do processo decisório, a ideia de que é fundamental um programa de transição energética e econômica como fundamentais para a transformação social e radical superação sistêmica.
5. O sistema não vai mudar pela força da crítica, as organizações anarquistas precisam ir além da negação do sistema e soluções paliativas em experiências no plano micro. É preciso articular ações coletivas macro com estas micro soluções postas em prática como em comunidades de permacultura, etc. É preciso articular o micro com o macro, as comunidades com intervenções na institucionalidade, isso não significa atuar em partidos, mas atuar na rua se articulando com todas as outras formas de organização que lutam com o fim de transformar radicalmente o sistema.
6. A excelente crítica à civilização do anarco primitivismo não pode ser ignorada pela esquerda socialista partidária, ignorá-la é esquecer as raízes que fundamentam a lógica do progresso e a ideia de produtivismo e crescimento à revelia das capacidades do meio ambiente de lidar com o uso de recursos naturais para alimentar a economia.
7. O processo de organização social não precisa ser especificamente partidário. Partidos não são nem a única saída e a meu ver nem a melhor. A ideia de uma multiplicidade de organizações sociais organizadas de forma descentralizada e horizontal em grandes fóruns a mim parece ser a melhor forma de organização de um processo revolucionário, sem o controle centralizado de um partido ou de um estado.
8. O processo crítico de formulação teórica de transformações sociais não pode prescindir de uma organização tática e estratégica que contemple soluções práticas em pequena, média e larga escala. Estamos falando de processos que incluem tecnologia, geração de energia e que vai além da produção de tecnologia de ponta. Dizer que se vai acabar com a mineração esquece o alcance da necessidade de minerais na existência da população, limitar a critica à tecnologia à sua supressão é reduzir a tecnologia à fetichização que a transformou em mais do que ferramenta. É a inversão do fetiche da ferramenta e ao negar a ferramenta não se trabalha pra transformação do fetiche e sua eliminação.
9. O processo de organização em direções e não em conselhos horizontais acaba por criar um processo de profissionalização da militância e especialização que deforma em vez de formar. Acaba-se reproduzindo no interior das organizações (especialmente as partidárias, mas não só) a organização em classe ou castas do sistema e da sociedade. Processo revolucionário nenhum se dá ou dará sem a subversão das hierarquizações.
10. Anarquismo verde, anarco primitivismo e ecossocialismo são hoje as formas de teorização das transformações sociais que trabalham com a ideia de descentralização dos processos decisórios, de horizontalidade das decisões sobre o cotidiano da produção de energia, da economia e da gestão da sociedade, além disso trabalham com a crítica sistêmica e civilizacional, algo fundamental para confrontar o processo de construção da mentalidade predatória do meio ambiente, opô-los como antípodas ou quem é mais revolucionário ou reformista que o outro não soluciona a crise ecológica e nem a necessária unidade na luta.

Não precisa votar, nem negar o voto, o que é fundamental é o entendimento libertário que não existe pedigree teórico ou limitação ideológica presa em castas, guetos ou nichos. É preciso que antes de mais nada encaremos que a tarefa de transformação social, teórica e prática necessita de uma vigorosa ausência de sectarismo e conjunção de ferramental que permita a ousadia de pensar a transformação.

É nesse sentido que é preciso ser mais Groucho-marxista e permitir anarco-trotkismos, anarquizando o rótulo presente como avatar nas mentes lutadores e permitir a permeabilidade do pensamento para inter influências. Precisamos de mais polifonia e menos unissonia. 

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p style=”text-align:justify;”>Permitindo isso é possível que a música da revolução nos permita dançar e rir e não apenas marchar vigorosa e disciplinadamente.

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