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Quando dei vazão a minha crítica à forma partido, me cansando dos jogos, mentiras e videotape do PSOL, das tramas e subtramas do cotidiano partidário, li e reli bobagens, críticas sinceras, boas interações, etc e tals.

Metade do processo crítico foi a análise que a reação dos membros do partido à afirmação que o PSOL não é uma alternativa pela esquerda era exagerada, era uma reação que cobrava da esquerda como um todo, e de quem ainda não se vê como tal, um conhecimento e uma sublimação dos problemas da legenda que beirava a suspensão da descrença. Suspensão da descrença é o efeito produzido por filmes e HQs de ficção e super herói ao suspender qualquer descrença no que se lê e vê na tela ou página de quadrinhos, por isso gente voando é algo que se entende e se respeita, o importante é a trama.

Eu tinha exatamente a mesma reação e cobrava da academia, da esquerda, do padeiro e do guarda-noturno que conhecessem os meandros das disputas intestinas do partido e fizesse uma taxionomia cuidadosa de quem é quem antes de taxar o partido como um todo disso ou daquilo.

O problema é que isso é exigir de quem observa de fora algo que o interior do partido não produz, ou seja, exigir de quem tá de fora um cuidado com a análise da imagem de um partido que pouco cuida dela ou analisa o exterior antes de tomar atitudes internas que deflagram guerras cotidianas que expõe a todos. E não funciona, caras pálidas!

A inexistência no PSOL de um partido concretamente construído, com unidade, de um partido com um programa, com uma cara, com uma linha, com uma juventude, uma política sindical e ambiental é que faz dele uma não alternativa cheia de boas intenções e quadros.

Há quadros e produção de programa ambiental, de software livre, de gênero, LGBT, de despenalização, mas isso morre no interior de uma frente partidária composta de micropartidos organizados em correntes e que não respondem coletivamente a nada.

Há dentro do mesmo partido quem defenda o fim dos combustíveis fósseis e quem faça o elogio do pré-sal com financiador do estado para uma espécie de reprodução do modelo chavista de desenvolvimento. Há quem defenda participação no Foro de São Paulo e há quem negue com todas as letras isso.

Há quem se jogue na construção de uma política pró-LGBT de fôlego e quem construa candidaturas de pastores ligados a Malafaia. Há quem defenda doação de pessoas físicas e quem pegue dinheiro com empreiteiras e supermercados e pior, há quem defenda doação de pessoas físicas e pegue dinheiro com empreiteiras e empresas sem assumir isso e permanecendo na defesa da doação por pessoas físicas.

Há ainda quem afirme que o PSOL é necessário porque a classe precisa de um partido e este partido é o PSOL. OK, mas me desculpem se isso parece não muito além de autoproclamação soberba e arrogante que esqueceu de combinar com os russos.

O problema disso tudo é que no fim das contas a militância do PSOL cobra do mundo que tenha uma paciência eterna com os eternos impasses da legenda e sua incapacidade de construção de consensos. Pior, isso se reflete na inexistência de um programa, um programa real, que reflita uma realidade para além de guinadas conjunturais, um programa máximo e um programa mínimo que reflita um consenso entre correntes em seu diálogo com a realidade.

Ou seja, o PSOL não é alternativa para a esquerda por negar-se a ser.

O PSOL tem todo o potencial, mas não dialoga com a esquerda, não constrói um programa com a esquerda, não aglutina a esquerda. O PSOL tá na universidade em diversos postos, do alunato ao funcionário e professor, o que o PSOL faz para que a universidade veja nele uma alternativa e seja uma universidade de esquerda? A resposta tá no fato da universidade estar a esquerda do PSOL em inúmeros aspectos e parte dela ter optado por organizações autônomas aos partidos.

A universidade grita contra o aquecimento global e o PSOL só responde ao grito com uma minoria isolada e isolada pelas maiores correntes, que tratam a questão como tangencial, assim como tratam a questão ambiental, indígena, quilombola, das populações tradicionais como um todo.

Essa minoria que responde ao grito é tida pelo partido como ele mesmo, mas o mundo só vê o óbvio, é uma minoria que não reflete o que o partido pensa, e por que o mundo pensa assim? Porque não tarda e um deputado ou figura pública do partido vai lá e desmente a ação do militante ou grupo de militantes.

Militar no PSOL é correr o risco de ser desautorizado pelo partido a cada instante ou ter de explicar ao mundo que o partido é uma zona e cada corrente faz o que quer, idem os mandatos e pior, achar que o mundo tem de entender isso.

Sorry, muchachos, mas não tem..

E este é o mais promissor partido organizado na esquerda. Os demais não incorrem no erro da flexibilidade ideológica e programática do PSOL (eufemismo), mas isso nem sempre isso se reflete em um bom sinal.

E o que a civilização, a eleição e o índio tem a ver com isso?

Bem, considerando que a relação entre meio ambiente, índio e civilização é quase uma relação familiar de tão íntima, tem tudo a ver.

Nesta eleição temos a volta da diva do “ambientalismo abraço na lagoa”, Marina Silva, e ela ao voltar já agrega todo o eleitorado que saiu às ruas em junho de 2013 sendo que há hoje um dos melhores quadros do PSOL em disputa este ano, Luciana Genro, a única que até hoje em todas as disputas presidenciais pelo partido se declarou concretamente com uma política ambiental sólida (Dentro do contexto conjuntural em comparação com as demais candidaturas), idem sobre gênero e LGBT, direitos humanos, etc.

E o que isso nos diz? Bem, além da enorme incapacidade do PSOL de constituir-se com uma unidade mínima para alavancar um de seus melhores quadros e driblar a mídia e sua construção de candidaturas, o que a conjuntura nos grita é que abrir mão do debate ambiental a sério custou e custará caro. E não foi por falta de aviso dos ultraminoritários quadros ambientalistas do PSOL.

Quer um exemplo? Procurem sobre aquecimento global e combustíveis fósseis nos programas do partido e das correntes e contem se tiver mais que poucos parágrafos, a maioria é menção em uma linha. Sobre índios e quilombolas idem.

Sobre petróleo? Bem, se tivermos em mente que deve haver algum signo sutil no inconsciente coletivo da esquerda autoproclamada marxista que causa náuseas se renegar o progresso como medida de todas as coisas e um progresso movido a petróleo vamos achar o mesmo que nada, ou pior, defesa da entrada do Brasil na OPEP, o que pra um ambientalista ou um ecossocialista é tipo um grupo de negros defender a entrada na Ku Klux klan.

O cenário é escabroso. E quando o cenário é escabroso o mito costuma atropelar a concretude ou seja, o mito Marina oculta e omite sua prática de ambientalismo de resultados e atropela quem poderia ser alternativa, mas por ter um discurso vazio sobre a questão ambiental some no mar da irrelevância.

A preocupação de demarcar antes com o Greenpeace do que construir uma alternativa socialista a ele é sintomático. Aliás, seria ideal que em vez de demarcar com o Greenpeace e construisse com o Greenpeace pontos de ação, unidade de ação e não oposição porque “O Greenpeace é ecocapitalista”, enquanto não se faz porra nenhuma pra construir algo ecossocialista.

Permanecer com baixíssimo percentual de intenção de votos em um quadro propício a um programa sólido e radical não é pouca coisa e nem é culpa do Papai Noel.

Se interessa refletir sobre isso é preciso ir além de culpabilização mútua sobre quem recebe o que, quando e onde. Esse é o menor dos problemas, o maior dos problemas é um programa amestrado, uma prática dúbia e pouca solidez de debate programático

Ah, a dubiedade ao analisar, pensar e discutir manifestações e relação com a esquerda nas ruas, toda ela do PSTU aos Black Bloc, também colabora. Quem tá na rua e no parlamento e não se entende nesse meio campo costuma pagar preços.

Sobre a civilização e o silêncio, é preciso que entendamos que a crítica civilizacional não é só coisa de anarco primitivistas e nem algo insólito, moderno, pós-moderno ou coisa de hippies malucos, ela é uma crítica que atravessa o século XX no debate teórico e filosófico, discussões políticas entre ambientalistas e organizações partidárias, movimentos antinuclear, etc.

Considerando que a esquerda marxista só começou a se aproximar da questão ambiental nos anos 1980 e só assumiu um programa ambiental concreto nos anos 2000 (E.P. Thompsom foi duramente criticado por sua atuação ambientalista e crítica ao marxismo produtivista nos anos 1980), é preciso que se entenda que esta ausência gerou uma ocupação do vazio político deixado pelos marxistas e os anarquistas construíram uma sadia interação entre si e os ambientalistas, indo além e discutindo a relação entre ecologia e o humano, interagindo com a antropologia, etc, coisa que o marxismo médio em geral mecânico, pouco ou nada tentou fazer.

Essa salada gerou uma crítica à civilização entendida como ocidental e constituída pelos valores que são valores em geral associados ao capitalismo, juntando isso ao surgimento da ideia de Pachamama e bem viver, a interação entre política e questão indígena com protagonismo destes, não é pouca coisa a participação da crítica á civilização como parte integrante das lutas políticas ambientalistas.

Diante disso a esquerda partidária como um todo optando pela lógica da relação com a questão ambiental como tangencial, tão tangencial que parece um satélite natural em órbita, ignora metade mais um dos processos que levam às pessoas a entenderem o papel da questão ambiental e da crise ecológica no debate político cotidiano.

Por isso se assusta ao ver a critica à civilização, ao petróleo, ao desenvolvimento, ao progresso como uma crítica que exige mais do que uma resposta amestrada e que tenta fazer gambiarra com um marxismo meia boca pra não perder o carimbo do clube do marxista mecânico (Talvez tenha milhas aéreas). Nesse baile consegue-se não chegar a lugar nenhum nem no marxismo e nem na questão ambiental.

O silêncio da esquerda sobre a questão ambiental é eloquente e eloquente diante de sua inadaptação pela crítica necessária ao cerne de sua vertente teórica que exige que se critique o progresso, e portanto a relação teleológica com um futuro socialista um futuro que existe numa dimensão mítica e quase reverbera um processo escatológico de pensamento.

Esse silêncio quando é quebrado demonstra a relação constrangedora com índios, quilombolas, questão climática, petróleo e é constrangedor porque reflete a tolice média a negação de que existem valores, relações, construções teóricas diferentes do marxismo e, pasmem, que refletem construções do real, o analisam, o compreendem e, pasmem de novo produzem resistência.

Nas eleições isso tudo fica mais claro e mais eloquente quando temos diante de nós processos mais complexos do que os cenários ideais produzidos pelas teorizações da esquerda. O silêncio ambiental, a esquizofrenia programática, tudo isso se junta diante da negação bondosa da esquerda como alternativa que não é por opção própria. E diante disso quem tem mito ocupa espaços.

Só que a crise ecológica é civilizacional e pior, é especificista, ou seja, se relaciona com a própria permanência da espécie viva, e mais, com a própria manutenção da vida na terra.

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p align=”JUSTIFY”>Enquanto isso a civilização ocidental permanece queimando carbono, mas tá tudo bem, o problema é quem recebe dinheiro de supermercado.

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