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O Groucho-marxismo é a síntese do anarco-trotkismo ecossocialista do mal. E em suma ele é produzido pela liberdade de ser marxista, deleuziano, bakuninista, ler Malatesta, Alan Moore, citar Nietszche sem ser expulso da grande ordem vermelha.

Isso segundo uma livre interpretação minha do Groucho-marxismo, dado que há uma obra, que não li ainda, muito mais qualificada sobre o tema.

A ideia é irônica, com certeza, porém assume o caráter da seriedade de que é possível ser radical e socialista rindo, entendendo o que não é ocidental, o que nos é grotesco, diverso, dispare, como também pertinentes e parte do todo compreensível do real.

Confuso? Pode ser, mas quem disse que o real é simples ou cabe em caixinhas sem surpresa?

O marxismo explica tudo? A partir do momento em que é impossível encaixar Marx na perspectiva cultural dos povos ameríndios é óbvio que não. Agora, o marxismo explica de forma excepcional a relação do capitalismo, do estado, da sociedade nacional com os povos ameríndios e sua perspectiva de realidade e cultura.

Marx explica a relação do indígena com a terra? Não de forma concreta. O uso dos marxistas de uma hierarquização de culturas dá a eles a visão que o indígena é um maluco que por não entender a terra dentro do sistema de valores financeiros/monetários, de uso e de troca, precisa ser incluído nesta concepção. Devemos discutir como indígena que a cultura do capitalismo tem essa concepção? Sim, temos de armá-lo, se ele não se armou sozinho, mas colocando que sua cultura está errada? Jamais. Marx explica como essa dicotomia? Não explica. E nem sei se deveria explicar ou se tinha como, como homem de seu tempo. Marx no entanto explica bem que o capitalismo vai atropelar o que não é dele e reduzir a pó se não tiver resistência. Vai assimilar, vai usar, tornar algo passível de ser precificado e vendido, gerando lucro.

Só que a lógica marxiana média do mundo tatibitate cotidiano nem liga pra essas questões, pra quantidade de diálogos possíveis entre Marx, Deleuze, Derrida, Weber, Durkheim, Thompsom, Ginzburg e sei lá quantos teóricos que criam, criaram, recriaram interpretações do mundo que o transformam transformaram e o podem transformar.

Ah, mas Weber era liberal? Tá e por isso o que ele produziu não pode ser lido e utilizado como ferramenta de transformação? Deve ser jogado fora? Jura? Sério que fora do arcabouço da produção marxista nada presta ou fornece elementos de entendimento do real? Sério que fora de uma lógica teórica e organizativa as demais são em si falhas e incapazes de produzir mudança a ponto de sectariamente (E fatalmente a maior parte da esquerda se perde no sectarismo) serem tratadas como adversárias?

O marxista ao ler Weber não consegue ver que não existe necessariamente oposição entre ele e Marx e que ao entender isso não diminuímos Marx ou tampouco somos contaminados com uma bundamolice capitalista? Será mesmo que Marx explicou tudo? Será mesmo que os anarquistas estão errados de per si? E os autonomistas? E os “soltos”, movidos por múltiplas vertentes teóricas sambando na cara da sociedade, vão pro inferno?

Por que temos de ter uma síntese e não a polifonia de Bahktin?

A ideia no fim é que tudo se move rápido demais pra esquerda marxista como um todo enxergar.

Enquanto o mundo explode porque o permafrost derreteu e liberou metano, hordas de militantes panfletam para construir partidos profetizando mudanças que temem a si mesmas.

Chamam os ventos da mudança, mas a mudança que matou o velhinho inimigo que morreu ontem.

Todos os pontos possíveis de necessária intervenção pela esquerda quem faz? Ao menos no plano ambiental não se encontra nenhum discurso sobre meio ambiente, combustíveis fósseis, mudanças climáticas que não seja de uma timidez eloquente. O melhor discurso da esquerda sobre isso no Brasil parece menino novo entrando na sala de aula pela primeira vez. O medo de mexer com o petróleo é quase síndrome do pânico. E software livre? E educação?

Pois é, quem discute seriamente educação nos partidos de esquerda marxista? Sim, estamos falando de discutir mais do que quantas escolas precisamos, mas de que escola precisamos. O sindicato discute? Nope. Nem tchuns. Nenhum partido se reúne pra produzir teoricamente sobre como construir um projeto de educação que contradiga o projeto meritocrático que proletariza o professor e destrói a autonomia pedagógica. O capital tem projeto, daninho, e qual o projeto da esquerda? Paulo Freire tinha um, mas a esquerda o tem planificado? Nope. A esquerda vai discutir melhoria do salário do professor, autonomia pedagógica, mas nenhum projeto de como ensinar e que escola quer.

E o clima? E o meio ambiente? Se forem além de pedir desmatamento zero compre um doce e dê a eles, mas vai ser difícil. Ninguém assume o risco de ir contra a produção de petróleo num país que se pretende da OPEP. Ninguém assume um projeto aberto e amplo de luta contra as mudanças climáticas. Ouçam e leiam os discursos, não tem. O que tem é muito menos do que os próprios movimentos defendem, é muito menos do que setores ambientalistas da própria esquerda defende.

E software livre? Que deveria ser uma plataforma de contra-hegemonia enorme, garantidora da inserção popular no uso da informática, abrindo escolas de programação populares abrindo geração de tecnologia nossa, aberta, livre, contra hegemônica? Muito discurso, pouca produção teórica, nenhuma ação.

Aliás, a esquerda parou de discutir e produzir teoria, e tem pouco diálogo concreto com o que a academia produz, o diálogo que mantém nos poucos seminários anuais que promovem são com o nicho de esquerda da academia e não mais. Não se lê na esquerda pra além de si mesmo.

Além disso, onde está o riso e a grandeza humana da esquerda? Perdidos estão nos meandros das disputas entre si, uma disputa taticista, anti-estratégica, pouco afeita a ir além da conquista do aparato. Ninguém concretamente quer dançar e nem ouvir a música da revolução, apesar da palavra não sair dos discursos.

Temem o baile, a dança dos vampiros dos porra loucas de preto que quebram bancos, mas ao invés de mostrar uma dança nova, atuam como nobres decadentes num arremedo de quadrilha com pó-de-arroz e peruca branca.

Não riem, não soam as trombetas, ignoram Lovecraft, não enrolam o demônio com Constantine, querem ser Enfant terribles atacando defuntos, porque ser radical é citar a última onda de um Zizek antiecológico.

Enquanto isso o clima azeda, a chuva cai, a rua inunda e não, ninguém vai comer seu bolo.

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