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A lógica política exige que a esquerda radical seja a que compra as brigas e tensiona a sociedade. Se ela calcula e mede com régua o radicalismo para além do discurso, então ela se torna inócua. O discurso tem de ser medido, o teor não.

A política exige que se abracem as causas necessariamente de transformação radical com ousadia e coragem. Se a esquerda radical domestica o discurso e o limita ao republicano, à honestidade da “grande” política, então ela se recusa à ação radical necessária.

É preciso ser sim didático, medir o teor, entender os limites do discurso, mas jamais o da política. Limitar a política com medo do eleitor é recusar-se à tarefa revolucionária da transformação da sociedade a cada gesto, á cada intervenção.

Não, ser radical não é berrar pelo fim do estado com raiva ou gritando, mas é reverberar a dissecação do sistema, apontando soluções concretas indo além do sentido de realização do capital, limitado pelo lucro, e assumindo a tarefa do apontamento de soluções efetivas e práticas rediscutindo o papel do custo das ações.

Energia, água, escola, saúde não custam, não são custo, são necessidades. Assim como livros cinema, festa, transporte. Não pode haver medo de discutir os temas necessários apontando as soluções práticas tornadas possíveis pela ciência, mesmo que o mercado diga que são impossíveis porque na sua lógica custam caro.

O que é caro? Cara é a precificação das necessidades, do ir e vir, do comer, do ter luz, internet, remédio. Caro é manter uma relação entre estado e sociedade medidas pelo custo a partir da lógica de mercado atribuída às necessidades da sociedade. Caro é lidar com o sistema financeiro como gerente do estado e não com a democracia como gerente do estado. Caro é manter um sistema travestido de democrata enquanto retira da população o direito de intervir no estado de forma efetiva.

Alega-se muita coisa para limitar o direito inesgotável do povo á democracia, energia, internet, transporte, saúde. Alega-se despreparo, alega-se custo, alega-se o diabo, o que não se alega é o dever do estado tornado luxo pela privatização da gestão estatal, pelo sequestro pela lógica precificada do mercado de cada pedaço da existência como lei justa e eterna do conduzir do dia a dia.

O que não se coloca é que desde energia até a democracia, tudo possui solução palpável passíveis de serem implantadas se superada a lógica mercadológica do custo x benefício. O que falta é menos iluminados como deputados, governadores e presidentes e mais horizontalidade, transparência e transformação na lógica de entendimento do concreto. Falta mais gente decidindo os rumos do estado.

Por que não se questionar a posse de terras, casas, apartamentos e carros a partir do entendimento do bem comum como superior ao bem privado?

Por que não se questionar o consumo de energia, produtos, etc a partir do questionamento da obsolência programada, do desperdício, do que consome mais energia, se a produção de bens de consumo ou o uso de TV nas casas?

Por que não se questionar a própria lógica do ir e vir, da disponibilidade de transporte público de massa, de integração multimodal de transportes para além da defesa do uso de carros como meta e necessidade?

Porque o mundo é construído em torno da geração de lucros e por isso se naturaliza a lógica individualista da solução individual e dos direitos e deveres individuais, jamais se discute o entendimento do limite do individual com o coletivo e a privatização dos bens comuns, transformados em privados, pela lógica do lucro.

A lógica do lucro se apropria da ideia de individualidade, sem contar que quem lucra individualmente assume menos deveres do que quem produz o lucro, a maior parte da sociedade, que reproduz a ideologia da solução individual e da natural desigualdade, exemplificada pelo acesso a um direito básico como o de ir e vir.

Ou seja, ao dizer que a solução depende de ação individual o gestor do lucro, quem o ganha, iguala os deveres de Eikes Batistas aos de um porteiro, se igualar os direitos. O prejuízo é de todos, o lucro não.

E o papel da esquerda radical nessa história toda? Produzir o tensionamento, quebrar a hegemonia da naturalização, apontar as soluções necessárias, elas cabendo ou não no formato adestrado que a lógica do lucro naturaliza como saídas cabíveis no âmbito da gestão do estado aceita por ela.

É preciso ousar sem ter medo de ser feliz.

A Tarifa Zero, por exemplo, tida como impossível, foi demonstrada claramente como não só possível como praticada mundo afora. E isso soou revolucionário, quando nada mais é do que o óbvio posto em prática onde a pressão popular teve sucesso. O máximo de radicalismo ai exigido foi de mostrar o óbvio, ou seja, nem sempre o que é apontado como “radical” é mais do que a defesa do óbvio. Óbvio esse que por vezes é pintado como quimera pelo discurso dos “choques de gestão” ou do “fizemos o possível”.

Interessante notar que os limites do “possível” são sempre mais parecidos como os limites dos financiadores de campanha.

Na área de energia quando se fala em transição energética sempre aparece um apontando o impacto da produção de energia solar pela mineração ou da energia eólica ou da maremotriz, e jamais se aponta que o fato de existir impacto não inviabiliza nada, o problema é o grau de impacto e como trabalhar pra resolvê-lo da melhor forma possível.

O impacto da energia solar, por exemplo tem de ser tratado em sua forma completa, desde a mineração até a obsolência dos painéis, e reduzido, idem pra energia produzida pelo petróleo ou nuclear, que tem muito maior relativização pelos críticos que as energias renováveis, ou seja, se reduz o impacto da produção de petróleo e carvão, da ponta até o consumo e queima de gasolina, e se amplia o impacto da energia solar.

Quando o capital comparar o impacto da energia solar ao da produção de petróleo ele faz um jogo onde faz-se tábula rasa das diferenças amarrando o argumento com a similaridade. Quando o capital diz que tudo tem impacto ele acerta, mas quando ele diz a verdade, a verdade é seu dom de iludir. A energia solar e o petróleo tem impactos, mas o tamanho do impacto da energia solar é mil vezes menor, com a mineração que o do petróleo. O impacto do petróleo vai da extração até a emissão de CO², enquanto o impacto da energia solar reside basicamente na mineração que produz o minério usado para a produção dos painéis de captação. Por ser menor o impacto ela é perfeita? Não, mas é uma solução melhor que o petróleo e com impacto menor em todo o grau possível de medição de impactos. Minimizar o impacto da mineração é preciso e fundamental, mas é impossível minimizar o impacto da produção do petróleo que vai da extração, com impacto similar ao da mineração, à emissão de carbono, com impacto trágico no sistema climático.

O que deve fazer a esquerda? Apontar o tamanho dos impactos e a possibilidade de redução e vantagem cientificamente comprovada das energias renováveis sobre as fósseis. A mineração pra produção dos painéis pode ter seu impacto reduzido, ainda mais se não tiver obsolência programada no painel, reduzindo a produção de painéis às necessidade da sociedade. A produção de energia solar pode ser equilibrada com outros modais produtivos evitando os de alto risco (nuclear), os de alto impacto ambiental direto (hidrelétrica) e os de alta emissão de carbono (fósseis). Sem também ocultar que os parâmetros de consumo precisam ser radicalmente alterados, assim como a lógica de produção que entende a natureza como fornecedora infinita de matéria-prima

É difícil? É, mas cabe à esquerda assumir este papel e trabalhar de forma didática para contrapor-se ao discurso de ilha da fantasia que o capital vende no mercado.

Cair na esparrela de tentar usar parte do discurso de ilha da fantasia, sem cutucar a onça do discurso necessário, é só girar a mesma roda de sempre que só reconstrói a carne pro moedor de carne do aparato estatal.

Sem tensão não há solução e ser radical não é ser irascível, mas apontar a análise da raiz dos problemas e buscar suas soluções, por vezes tão radicias quanto, sem medo de serem impopulares.

O medo, como dizia Chico Science, dá origem ao mal. E para a esquerda radical o mal é a acomodação e a domesticação, esta dupla que é protagonista de uma velha história que espero que não seja eterna.

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