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Acabo de ouvir uma gravação da CBN onde uma senhora chamada Viviane Mosé afirma, entre outras coisas, que “diante das manifestações, adote seu filho antes que um professor de história ou filosofia o adote”, a chamada do comentário no site vai mais longe e afirma que “No Rio de Janeiro, professores do Ensino Médio instigam uma luta nas ruas com o uso de violência”.

Participam desta pequena peça tragicômica a “educadora” Viviane Mosé e o “jornalista” Carlos Heitor Cony, e no programa afirma que professores de história e filosofia contribuem para formar “baderneiros terroristas” e o anarquismo bakuniano é “demodê”.

O alcance dos comentários seria só cômico se não fosse feito por uma emissora de rádio, recebendo concessão pública para serviço também público e não uma ação de propaganda criminalizadora de disciplinas inteiras e do direito à livre manifestação.

Em dado momento a “educadora” afirma que “tiramos Collor, um presidente da república sem o uso da violência”. Talvez na sua formação o ensino de história não tenha sido bom, por isso a ojeriza, o que pode tê-la levado a ignorar um elemento fundamental para a compreensão da diferença entre o Fora Collor e as atuais manifestações: a ausência no primeiro do estado na sua ação mais violenta, a criminosa ação da polícia militar de diversos estados como ação repressiva prévia de qualquer manifestação.

A “educadora” talvez tenha optado por ignorar solenemente a criminosa ação da polícia militar do Rio de Janeiro no dia 20 de junho de 2013, quando sem nenhuma ação violenta reprimiu cerca de dois milhões de pessoas perseguindo manifestantes até o Catete, retirando pessoas na base do gás lacrimogêneo de bares na Lapa. Pouco depois, um dia depois, outra ocorrência talvez tenha passado batida aos olhos da “educadora”, como o lançamento de gás lacrimogênio dentro de hospital no centro. Dias depois, 12 de julho de 2013, a policial militar reprimiu ato de professores à frente do Palácio das Laranjeiras inclusive lançando de novo gás lacrimogêneo em um hospital. Tudo isso, toda essa escalada de violência policial foi solenemente ignorada pela “educadora” e pelo “jornalista”, claro, violência só existe a partir de manifestante, jamais pela via da polícia, correto?

Também passou ao largo dos comentaristas a ação da polícia militar no dia da final da copa do mundo,  o estado de sítio na praça Saens Pena, o que nos leva a pergunta: Quem é terrorista?

Claro que o “jornalista” e a “educadora” não ignoram que servem como reprodutores de uma ideologia, assim como todos nós, e que ao acusarem apenas aos professores de utilizarem sua função como reprodução da ideologia em que acreditam e constroem-se como transformadores da sociedade fingem que eles, “jornalista” e “educadora” não são também reprodutores de ideologia, são “isentos”, são “neutros”, procuram “o melhor para a sociedade”.

A tática é antiga, inclusive Cony foi alvo dela quando foi perseguido pela ditadura militar que atribuía a ele o que ele e a “educadora” atribuem a professores de história e filosofia.

O interessante é pegarmos algumas das funções da disciplina de História segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC, como por exemplo:

Na perspectiva da educação geral e básica, enquanto etapa final da formação de cidadãos críticos e conscientes, preparados para a vida adulta e a inserção autônoma na sociedade, importa reconhecer o papel das competências de leitura e interpretação de textos como uma instrumentalização dos indivíduos, capacitando-os à compreensão do universo caótico de informações e deformações que se processam no cotidiano. Os alunos devem aprender,conforme nos lembra Pierre Vilar, a ler nas entrelinhas. E esta é a principal contribuição da História no nível médio”.

Será que o problema do ensino de história é que os alunos ao invés de serem cooptados ou “adotados” por um professor aprendem a ler nas entrelinhas dos jornais, dos discursos, das palavras de educadores e jornalistas e por isso o medo/pânico que determinadas facções da nova direita “intelectual” do país tem destes profissionais?

É uma pergunta que devemos levar a sério dada a agressiva campanha desta nova direita no que tange à criminalização de professores, em especial de disciplinas ligadas às ciências humanas. Essa ação não é isolada, não é pequena e nem nova, vem desde manifestações ridicularizadas antes pelas redes sociais como a “escola sem partido”, participa do discurso de Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino (este último colega de organizações Globo da “educadora” e do “jornalista”) , além de ser parte de um projeto de lei do Vereador Bolsonaro na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Ou seja, a CBN é só mais um veículo a tomar esta política como regra e ação.

Esse discurso não é isolado do discurso do Instituto Millenium, instituto esse que atua de forma agressiva nas redações e nos projetos educacionais, inclusive com parcerias com universidades.

A quem serve essa ideologia mascarada e que atua com seu dedurismo para um ataque frontal à reputação de juízes que zelam pelo estado democrático de direito, ativistas, professores e advogados, tentando legitimar processos ilegais levados a cabo com base em testemunhos no mínimo questionáveis?

Bem, se analisarmos um pouco quem mantém e financia o trabalho do instituto talvez tenhamos algumas pistas.

Será que interessa ao grupo Abril professores e alunos autônomos que ameacem seu braço educacional questionando suas apostilas e lendo nas entrelinhas da relação entre seus negócios, publicações e ações políticas?

Será que interessa ao grupo Suzano alunos críticos que entendam que o discurso de sustentabilidade que mantém em suas publicações é lamentavelmente lorota e que sua indústria de papel e celulose usa o latifúndio monocultor de eucalipto como meio de Greenwash de emissões de carbono sem no entanto ser sustentável ou as reduzir concretamente?

Duvido.

Mas provavelmente o maior medo da “educadora” e do “jornalista” seja o mesmo da ditadura militar que, ao reduzir em sua reforma da educação o ensino de ciências humanas, buscou concretamente reduzir o custo do estado na formação de indivíduos críticos. Esse medo é o medo da contestação do status quo.

Porque esse é um dos papéis do ensino de história no ensino médio conforme os Parâmetros curriculares nacionais do MEC:

Nessa perspectiva, a História para os jovens do Ensino Médio possui condições de ampliar conceitos introduzidos nas séries anteriores do Ensino Fundamental, contribuindo substantivamente para a construção dos laços de identidade e consolidação da formação da cidadania.

O ensino de História pode desempenhar um papel importante na configuração da identidade, ao incorporar a reflexão sobre a atuação do indivíduo nas suas relações pessoais com o grupo de convívio, suas afetividades, sua participação no coletivo e suas atitudes de compromisso com classes, grupos sociais, culturas, valores e com gerações do passado e do futuro. “

Ou seja, ao formar cidadania crítica, cidadãos que refletem sobre seu cotidiano a história é mesmo uma vilã, dado que ao refletir sobre o dia a dia é natural que o aluno, ao adotar a razão, o critique diante da enorme injustiça deste mundo.

E é esse o medo, não é? Do raciocínio.

O raciocínio, esta arma que falta à repressão em suas buscas de prenderem Sófocles ou Bakunin anos depois de mortos, é perigosíssimo.

Ao agir como os policiais trapalhões que atacam reputações e querem prender Bakunin, a “educadora” e o “jornalistas” tornam-se candidatos a funcionários do mês das organizações Globo, mas incorrem num equivoco que reflete a ausência em ambos de formação intelectual adequada: Pedem que se adotem seus filhos antes que professores de História os adotem. Confusão natural entre conservadores que entendem a escola como uma grande creche, mas equivocada. Professores são profissionais que atuam na área de ensino, e não substitutos dos pais. Talvez o que falte a seus filhos seja a presença paterna sim, e de forma democrática, dialogando com os jovens e não uma lógica de imposição ideológica agressiva, autoritária e estúpida.

E se é preciso que vocês adotem seus próprios filhos sugiro revisão da relação entre pais e filhos, ela desandou. Ou seria melhor pô-los concretamente para a adoção, talvez eles consigam pais melhores. Até porque criminalizar o raciocínio não resolve o problema.

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2 comentários sobre “A criminalização do raciocínio

  1. É, não fui adotado, mas concordo que o simples contato com a historia e filosofia, quando dado de forma instigante e de qualidade é extremamente eficiente para cria mentes quetionadoras e confiantes de que vão fazer a diferença para um mundo melhor… Vivi esta ilusão e dela me desvensilhei mas ainda observo com inveja os eternos rebeldes de hoje e de outrora…Vida longa aos marginais da historia e da filosofia…Esses aliciadores para o raciocinio… eles resgatam almas do mar de alienação.
    A mudança é fruto do conflito de ideias na palavra no grito e infelizmente na porrada

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