dreams Akira

 

Das dores e belezas de ser o que é talvez o cotidiano nos apresente bonomias e horrores que pautados pelo caminho do facilitismo talvez nos peçam arrependimentos.

Arrepender-se é assumir que jogou a moeda pra cima e tentou a sorte.

Detesto apostas, costumam ter a base concreta de um tropeço, ou seja, costumam ser apenas um golpe ao acaso. Apostar é uma brincadeira de adultos, não pode ser rima com planejamento, menos ainda com política, ainda mais a revolucionária.

Arrepender-se, portanto, é, pra este escriba, incompatível com ação política cotidiana. Pode-se desistir, mas arrepender-se não. Não se arrepende do cálculo feito usando as probabilidades à mão.

É sempre mais fácil atribuir a outrem, ao passado, a um DNA histórico, ao vento, a um jornal as culpas de nossa opção cotidiana pelos múltiplos caminhos que a realidade nos expõe. Analisar as escolhas, entender onde se errou, o que se concedeu a mais, o preço disso, ai dói e ninguém quer que doa.

A maior parte da esquerda hoje é taticista, opta pelo zero de entendimento de estratégia, a não ser quando se fala na conquista de mandato. E isso vale pra toda a esquerda, mais ainda pra Ex-querda. O debate estratégico parece aparecer quando se fala da luta indígena, da questão ambiental, da luta por direitos reprodutivos, da questão LGBT, mas só parece.

As falhas estratégicas gritam a quem olhar com calma e enumero:

  • Fala-se de LGBT, mas omite-se a questão trans* com seriedade. Ignora-se, na verdade. O direito em geral é de gays e lésbicas, pouco se aprofunda sobre a questão trans;

  • Fala-se de meio ambiente, mas resvala-se, no máximo, sobre a questão dos combustíveis fósseis e mudanças climáticas. Fala-se tangencialmente, parece inclusive que o debate tem dois meses, quando tem dez anos. E muito porque dizer que é preciso que ocorra o fim dos combustíveis fósseis incomoda, parece radical demais, pode fazer perder votos em uma nação que sempre sonhou com ser “potência da OPEP”;

  • Fala-se da questão indígena tendo como paradigma pura e simplesmente a relação estado – povos indígenas, trabalhando com o horizonte demarcatório e só. Zerinho de debate mais amplo, sobre o que são indígenas, sobre o direito de autodeterminação, sobre a diferença cultural abissal e a relação antípoda de compreensão cultural sobre política e economia. E é aí que nasce o uso de “Socialista Pachamama” como ofensa;

E existem outras tantas evidências da necessária problematização do zero de respeito á lógica estratégica no debate da esquerda socialista partidária. Muitas vezes isso é mascarado pelo discurso, um discurso raivoso, enfático, que no entanto pouco traduz uma percepção profunda de seu teor e da necessária coragem de entender que horizontes estratégicos não negociam com ocultação de evidências, como a da crise ecológica, pra evitar danos ao potencial de ocupação da institucionalidade.

No caso da supressão do estado de direito o silêncio é eloquente e infinitamente autoacusatório diante do berreiro midiático, tucano e governista. A análise que entende que é preciso silenciar diante da supressão de direitos com receio de serem vinculados a “terroristas que torcem contra a seleção brasileira” é a análise do medo do jornal, do dono da voz ser tomado pela voz do dono.

Faltam partidos, falta grandeza.

A esquerda reivindica junho, mas só até a página três.

Porque é preciso que gigantes não ajam como anões em um momento onde o próximo preso pode ser o militante que panfleta numa campanha eleitoral.

É muito bom fornecer estrutura, mas a maior estrutura que se necessita hoje é voz, uma voz que eu, você não temos, mas que partidos e mandatos tem, e evitam usar.

Ao fim e ao cabo precisamos, nós e democracia, de muito mais que um apoio que teme dizer seu nome e que por vezes até comemora silenciosamente que parte do “incômodo” tático esteja nas ruas no dia seguinte.

Precisamos assumir nosso lado e ele não precisa ser um elogio á tática black bloc, pode até dizer que ela é um erro e serviu de álibi á violência policial (Que existiria de qualquer forma), pode-se e deve-se criticar a tática que não se usa, não se pode e omitir-se diante do grito da necessidade política: ninguém pode ser preso por ilação ou por portar Pinho sol.

No fim da história estamos todos presos e o resultado de ganhos pontuais na conjuntura (mandatos, penetração de discurso) podem ser o exemplo mais acabado da vitória de Pirro.

Hoje nossa prisão é nosso silêncio e as grades me parecem fortes demais. E ai não adianta dormir, a dor não passa.

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