abrecopa

 

O futebol é uma espécie de Geni da intelectualidade e de parte da militância de esquerda. E em épocas de copa do mundo essa Geni recebe pedras de novas formas e cores que lamentavelmente confundem a luta necessária contra a copa das gentrificações, essa usurpação que FIFA, CBF e governos fazem do futebol, com o que é a copa do mundo.

Pior, esta confusão, na maioria das vezes deliberada e filha de um elitismo intelectual infame que só não mete que o futebol é o ópio do povo por um triz, é parte do discurso que se pretende radical e por radical entende que se confronta todo o aparato de estado, simbólico,etc, sem mediação alguma, inclusive confunde mediação com murismo.

Só que há mais que radicalismos superficiais no jogo, há um mundo de significados e significâncias no futebol, no torcer em si, e no senti-lo que não podem ser abandonados na estrada. Combater a FIFA e a CBF é também combater sua apropriação do futebol e transformação deste em produto. Aliás, é fundamental entender como a reificação do futebol, sua transformação em produto é um elo fundamental da cadeia de construção dos megaeventos e da lógica da cidade como mercadoria. Só que uma coisa é combater a lógica dos megaeventos e de cidade mercadoria com o uso do futebol e dos esportes em geral como arma para alavancar este máquina de gentrificação, outra é tornar o uso do futebol em culpa do futebol, como se o jogo fosse o culpado final da existência dos megaeventos. Outra é confundir o festejar do jogo, um elemento fortemente cultura nos vários países que tem como principal esporte o futebol, como um curvar-se à FIFA, por ela organizar a copa.

A copa é muito mais que um megaevento e ser megaevento é sua faceta mais cruel e parte de um crime cometido contra o futebol. E é isso que constitui-se um dos maiores crimes que FIFA, Federações, confederações e governos cometem a cada copa, o usurpar de símbolos, tradições, paixões e processos culturais, inclusive identitários, para produzir um produto rentável, como de hábito faz o capitalismo.

Atribuir ao futebol e aos processos culturais que o envolvem a culpa pela máquina de capitalismo que os utilizam para seu lucro, exploração e remoções é como atribuir a toda festa, o Carnaval por exemplo, os crimes cometidos em seu nome. Em última análise é como atribuir à exploração da música, da literatura, das festas, dos fazeres, do comer a quem canta, toca, dança, escreve, festeja, produz cultura, comida, bebida,etc. É como atribuir a quem bebe cerveja a exploração do trabalho dos cervejeiros na AMBEV.

É como atribuir ao sexo a culpa pela prostituição.

Dizer que fazer uma festa paralela à da FIFA é reforçar os megaeventos, mesmo sendo uma festa de protesto que demarca a contrariedade a esta Copa como ela é feita e questiona pra quem esta copa é feita, é limiar à estupidez.

Dizer que não vai ter copa é um grito símbolo e é fundamental saber que não vai ter copa mesmo tendo copa. Só que gritá-lo não impediu que a copa ocorresse ou sequer entendia que iria impedir, mas demarcava a negação da copa como arma de gentrificação, e é fundamental que continuemos gritando que não vai ter copa mesmo que tenha, assim como é fundamental questionarmos pra quem é essa copa.

Não dá no entanto pra sectarizar com as formas de luta que entendem a dinâmica do futebol e ignorar o tamanho e o peso que tem um arco amplo de processos de luta que o envolva também como parte da cultura popular, ou seja, que veja, beba e coma a copa, sem permitir que ela seja ali apropriada pela FIFA. É fundamental que digamos que a copa do mundo é a copa do povo, como o povo a vê e que ver a copa tenha também a disputa pelo entendimento do que a copa fez com as pessoas. Negar a copa como um todo é mais que dizer que não vai ter copa, é dizer que não se quer dialogar, e pior, chamar isso de radicalismo.

Está tendo copa, não vai deixar de ter, mas uma copa que ocorre com desconfiança da população e com uma paixão magoada pela usurpação da paixão feita pro governos e FIFA. Isso é uma vitoria e uma vitória da radicalização da luta contra os megaeventos, só que a radicalização precisa saber ver o mundo e o mundo exige que esta leitura não ignore o que é o futebol pra uma população que é muito apaixonada por ele. Ela é contra a copa por saber que perderam casas, mudaram as cidades prejudicando-os, mas ainda ama o jogo. Ao amar o jogo ela vai parar pra vê-lo e é fundamental disputar consciências com jogo de cintura, indo pra rua sim, mas permitindo espaços de interação que politizem a interação via copa.

Não é difícil entender isso, pra quem está disposto a tal.

A questão é que pra parte da esquerda a alternativa ao ufanismo governista é negação absoluta. E ao optar pela negação absoluta tornam o debate político travado a partir da concepção de que não há alternativas, e com isso opõe-se ao diálogo com mais que a esquerda organizada em partidos, mas com um todo populacional que é muito mais fácil de ser capturado pelo discursos esfuziantes de mídia, partidos da ordem e oba oba tradicional do que pelo discurso crítico da esquerda, ainda mais se esta negar tudo o que envolve o futebol, a copa, para uma população acostumada a tradicionalmente ter o futebol como parte de sua identidade.

Esta lógica acaba sendo elitista, pois entende-se superior ao processo identitário e popular e entende como fundamental tutelar uma maioria absoluta por uma negação “didática” de um evento que é muito mais que o megaevento das remoções e que envolve o grito de gol, que não apaga a morte e as remoções, mas ali é um símbolo de muito mais, inclusive um símbolo de compreensão de identidade pessoal.

Como lidar com isso? Da forma mais simples: Entendendo que processos complexos exigem soluções complexas. E soluções complexas no caso da difícil relação entre tudo o que envolve os megaeventos e tudo o que envolve o símbolo da Copa do mundo é a mediação crítica. Mediação significa permanecer criticando, denunciando e permitir fazê-lo em espaços que não abdicam do que o processo cultural produziu, o festejar que é a copa, abrindo espaços específicos desta ação, tão política quanto a passeata e não opositora à ela, mas complementar.

A esquerda precisa aprender mais de boteco e arquibancada, pena que ambos elitizam-se sem que a esquerda seja parte integrante da resistência para além da institucionalidade, negando-se a fazer parte das políticas que envolvem o esporte, da política nos clubes, da política nas torcidas, na composição de resistência ao futebol moderno para além da organizações de torneios alternativos.

Enquanto a esquerda optar preferencialmente pela negação binária do esporte como arma do capitalismo, o capitalismo permanecerá utilizando preferencialmente a apropriação dos símbolos e culturas que envolvem o esporte para concretizar sua dominação cotidiana. Enquanto a esquerda apontar apenas o dedo para um aparato de reprodução ideológica negando-se a disputa por ele, como faz com as religiões, a hegemonia burguesa em sue interior permanecerá rindo.

Ao negar a copa em todos os seus aspectos, a copa permanece sendo ferramenta dos megaeventos e da mercantilização gentrificante dela e de tudo o que compõe seu arcabouço de imaginário. A FIFA agradece.

 

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3 comentários sobre “O ópio dos intelectuais #copapraquem #naovaitercopa

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