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Guardo, como em geral muitos comunistas, a velha vaidade intelectual. Seria hipocrisia dizer que não. Como historiador que se pretende acadêmico isso se agrava, então não é pouco o esforço de contrariar as estatísticas e minimizar esta vaidade.

É preciso bastante estudo pra militar na esquerda, isso é notório. Primeiro porque a batalha contra-hegemônica não nos dá a folga da hegemonia cultural e da naturalização de conceitos ligados ao marxismo e ao socialismo e quando o faz é por contrabando a partir de reformas conquistadas na porrada.

Nos é cobrado mais do que o simplismo, somos cobrados a dar respostas diante da luta contra um sistema em curso, governando o mundo atuando efetivamente no cotidiano da humanidade, ou seja, precisamos ir além do rame rame pra demonstrar que o que propomos é melhor do que o sistema em movimento.

E fazemos isso sem jornais, mega portais da internet, rádios ou TVs, a maior parte da luta é feita à sombra das grandes mídias e ao sol das ruas e do esforço militante coletivo, até acadêmico, de revelar ao mundo um mundo ao revés, um outro mundo possível.

Neste caminho existem leituras diversas sobre os possíveis rumos que a esquerda deve tomar e estas visões participam da construção de mundos por intelectuais clássicos e orgânicos, por professores, alunos, faxineiras, garis, vigilantes, motoristas, operários. Todas elas fruto de construções advindas do trabalho intelectual e da experiência de vida. Todas elas com elementos de acerto analítico e de senso comum, todas elas fruto de trabalho intelectual.

E é ai que a dificuldade que tenho em entender a dicotomia entre “intelectuais x povo” se veste pra fazer trottoir na rua. Porque me parece impossível distanciar a intelectualidade da rua, dado que ela é a rua, ela vive na rua, ela respeita a rua, veste a rua, analisa a rua, estuda a rua, sendo ela mesma a rua nas vestes de quem é objeto de estudo e de quem vê o intelectual como objeto de estudo, mesmo sem uma metodologia científica descrita em paper.

Quem busca distanciar o intelectual do povo, o que quer? Ao dizer que o intelectual é distante do povo e sua obra em si é “pequeno-burguesa” e fruto de um elitismo o nobre companheiro atenta pra complexidade envolvendo intelectualidade como categoria? Atenta pro fato de estipular ele mesmo uma diferença entre intelectuais e povo distando a cognitividade de um em relação ao outro via de regra, o nobre companheiro acaba ele incorrendo no elitismo de transformar o povo como um muar indiferente ao diálogo e ao senso crítico amplo e assim dana a percepção comunista gramsciana do intelectual orgânico?

Além disso, transformar um trabalhador em “não-povo”, tomando como régua o ápice da carreira de um professor universitário, ou transformando-o em “pequeno-burguês” por sua origem de classe dá ao nobre companheiro a régua de tratar como estanques as origens de classe e retirar dos não burgueses, porém intelectuais, a capacidade de empatia e mais, de entenderem seu papel como intermediários na rota da opressão de classe, sem no entanto invisíveis e imunes à ela. Ao fazer isso o que constrói o companheiro além do muro invisível da manutenção de divisão entre elite e povo, dando ao povo a incapacidade de ser ele mesmo intelectual?

E os companheiros que traduzem “tradição” como “obsolência” ou tratam qualquer coisa que se reivindique marxista como velha e determinadas precauções relacionadas à entendimento estratégico como “pirotecnia”? E a confusão entre horizontalidade e espontaneísmo, entre democracia e vontade da maioria, ou pior, entre democracia e horizontalidade com instrumentalização?

A arrogância de sustentar que inexiste dicotomia entre diversas metodologias, de nomear qualquer qualificação e refinamento de análise teórica sobre a realidade ou sobre partidos como “iluminista” ou no caso dos “anti-intelectuais” como “Pequeno burguesas”, é fruto de um afastamento da análise conjuntural cotidiana sob o ponto de vista marxista e mais da confusão ideológica entre libertarianismo, democracia e atropelamento retórico. Isso quando há ideologia e quando não se tem ao fundo do discurso apenas o velho e bom entendimento que “popular” significa voto e que “intelectual” ao propor questões mais amplas sobre o que se defende em nome do povo, ao propor reflexão quando se quer reboque, é um adversário da ação que “beneficia o povo”.

E ai se chega ao povo onde os “populares” e os “Libertários” se juntam num vanguardismo fudido. Primeiro porque, ambos, julgam todos os demais estúpidos, distantes e incapazes de ter a mesma riqueza de visão que eles, eleitos, pelo povo ou pela luz da teoria, possuem do alto de sua certeza. E ai o engraçado é que o mais Burocratizado dá aos braços ao Libertário no uso de “Esquerdistas” e “vanguardistas” como adjetivo desqualificador do adversário.

E isso tudo se junta no baile da senilidade, seja ela governista ou não, no rebaixamento do discurso que não teme elogiar desde torcida organizada pagando de milícia a quem destrói partidos por alianças com fundamentalistas evangélicos ou milicianos ou com a direita mais sórdida em nome do resultado eleitoral.

O rebaixamento do discurso, do método de debate e enfrentamento ai vira um baile sem máscaras que une oposição e governo no desprezo á inteligência alheia, especialmente da população como um todo, e na ideia que a pureza da bandeira principal (Para alguns mero álibi cínico) purifica o objetivo e o caminho traçado. Os fins justificam os meios para estes e ai seguimos minando ponto a ponto, tijolo a tijolo, um debate verdadeiramente libertário e democrático de construção de uma esquerda que corte o PT não imitando-o em seu método, mas indo no caminho anticapitalista de fato disputando hegemonia ideológica.

E é diante deste quadro que a atônita esquerda, governista ou não, surta. E surta com força vestindo seu melhor conjunto entre destino manifesto e arrogância intelectual, e pior, cita Deleuze e Foucault pra ornar com o oportunismo.

Enquanto isso o mundo aquece, junho ressurge, mas pra que debater isso se não é chancelado pela iluminação? Ela pode tudo e a tudo purifica, desde que intelectual algum mostre com lupa que por vezes Cinderela é a própria Madastra.

 

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