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Chamo “Pragmáticos” aqueles cuja dimensão da utopia foi apagada em nome da construção de um puxadinho pra mediocridade.

Gosto deste trecho de Sandman do Neil Gaiman porque ele descreve com perfeição um duelo onde se disputava o elmo de Morpheus, que estava com um demônio, e quem perdesse, além de perder o elmo ou deixar de reconquistá-lo, seria torturado mais e mais pelos demais demônios do inferno.

O trecho é genial pois expõe como a luta contra uma realidade e uma concepção desastrosa pode ser superada pela imaginação. E também o quanto é “esperta” a destruição, o quanto ela é insidiosa e se entende como genial, pois a “dureza da realidade exige sacrifícios”…

“Sandman é o mestre dos sonhos, que depois de um tempo aprisionado volta para tentar colocar o mundo dos sonhos em ordem. Em uma dessas viagens, ele vai parar no inferno, pois descobriu que o seu elmo estava com um demônio, Chorozon. Evidente que o demônio não quis devolver, e propôs um duelo para ver quem ficava com o elmo. Abaixo trecho do quadrinho de Neil Gaiman, “Uma esperança no inferno”:

Chorozon: – Muito bem, o primeiro lance é meu… Sou um lobo horrendo, um predador letal à espreita de sua presa.
Sandman: – Sou um caçador a cavalo, ataco lobos com uma lança. E sinto a relva sob os cascos, os flancos entre minhas pernas.
Chorozon: – Sou uma mosca que pica o cavalo e derruba o caçador.
Sandman: – Sou uma aranha de oito patas devorando a mosca.
Chorozon: – Sou uma cobra venenosa devorando a aranha.
Sandman: – Sou um búfalo de patas pesadas esmagando a cobra. Sinto a cobra se contorcer sob meu casco, com a espinha esmagada.
Chorozon: – Sou o antraz, a bactéria carniceira, devorando a vida.
Sandman: – Sou um mundo flutuando no espaço, alimentando a vida.
Chorozon: – Sou uma nova explodindo, cremando planetas.
Sandman: – Sou o Universo abrangendo todas as coisas, abraçando toda a vida.
Chorozon: – Sou a antivida, a besta do julgamento. Sou a escuridão no fim de tudo. O fim de universos, deuses, mundos, de tudo…

Sandman fica em silêncio, como se estivesse sem resposta. Chorozon prossegue, triunfante:

Chorozon: – E agora, Lorde dos Sonhos, o que você é?
Sandman: – Sou a esperança. “

(Fonte: http://blogdoorlandeli.zip.net/arch2006-08-06_2006-08-12.html)

A esperança é muito desprezada, a esperança e a Utopia, mãe da última.

São desprezadas porque o engessamento da alma, que se diz racionalidade, é no fundo a supressão do sensível e da audácia em nome da constituição do medíocre. O que se diz pragmático antes de mais nada é em geral um covarde e além de um covarde um imbecil sem imaginação.

E em geral se fala em nome do povo, da pobreza, da ausência da fome, e ignora o “Quem não morre não vê Deus” que sai das bocas. Pra quem pouco ou nada tem a ocupação e a submissão de si mesmo ao risco de ser chutado de uma ocupação é a audácia do desespero.

Transformar o desespero em esperança é um objetivo “sonhador” (ou seria revolucionário?) e “utópico”, como se revoluções fossem feitas pela praticidade de quem ocupa escritórios e vagas na garagem.

A opção pela esperança inclusive não vem, no diálogo, de um fofo hipster de condomínio, mas por quem não teve medo de ser morte quando preciso.

A esperança ali pode ser a última que morre, mas não é a última que mata, nem o sonho.

E quem era o mal? Um pobre diabo que entende que a destruição a tudo supera, esquecendo da esperança, o pior nome de sogra e melhor nome de bar, aquela que demora a morrer.

Precisamos dela e de sua irmã, a desobediência, não por mim ou por nós, mas pela mãe utopia.

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