idiocracy

 

 

Em um debate recente após um companheiro postar uma comentário crítico de Rosa Luxemburgo à Lênin, uma pessoa desavisada das necessidades de um debate franco e teoricamente claro, criterioso e respeitoso, e também das necessidades de uso da teoria como ferramenta de análise do cotidiano e não só como ostentação, adorno, de projetos políticos pouco afeitos à reflexão soltou essa para ironizar a critica: Por isso fizemos a revolução na Alemanha.

E ai me veio a dúvida: Hum, então por isso somos todos Stalinistas? Se o critério for a lógica de corrida de cavalos e ignorarmos diferença conjuntural, estrutura do estado alemão com relação à monarquia russa, conjuntura dos dois estados e tudo o mais que pode ser elencado inclusive a presença do partido social democrata dividido entre spartaquistas e social democracia aburguesada, então beleza, Trotski e Lênin, os inquestionáveis, são superiores à Rosa no questionamento dela (A herege).

Mas e se consideramos que a critica de Rosa também serve como análise do que deu errado na Revolução Russa que gerou a URSS sob os coturnos de Stálin?

Se for por essa lógica como não fizemos revolução na Argentina então abandonemos oque escreveu Moreno? Podemos queimar os livros na Plaza de Maio? Pela mesma lógica toda a análise de socialistas Brasileiros, Franceses, Ingleses, tudo lixo, dado que não fizemos revolução em nenhum desses lugares, certo? 

Então não precisa ser gênio que ler a análise, corretíssima, da Rosa como um ataque às escrituras é tibieza.

Até porque metade mais um dos problemas da esquerda que se diz marxista é exatamente o não-marxismo nela, a negação do processo de análise dialética que Rosa coloca e que está em Marx pelo uso do que escreveram os “iluminados” de forma acrítica. 

Lênin então é usado quase de forma versicular, ignorando inclusive os giros dele e seus contextos.

Trotski é lido ignorando uma critica possível à sua atuação em Kronstandt e agora Rosa é desprezada porque não teve revolução na Alemanha?

Óbvio que também se ignora que Lênin e Trotski não acordaram de manhã e produziram a revolução, mas foram hábeis leitores do processo revolucionário que os cacifou como líderes, e que a consolidação do estado soviético em muitas leituras é vista também como um processo contra-revolucionário de esquerda, tendo em vista que produziu um estado que acabou dando em Stálin, certo?

Óbvio que sabem disso e que as críticas de Rosa a este processo ocorreu antes mesmos de ficar clara essa faceta,não?

Críticas como as de Emma Golldman (anátema, uma anarquista) não são bolinho e encontram eco em outros socialistas marxistas da época. Mas eu esqueci que anarquistas não podem criticar socialistas marxistas porque não foram tocados pela divindade de São Lênin.

De boa, se a lógica e debate é “Por isso fizemos revolução na Alemanha” vou pegar emprestado o que Caetano gritou em 1968: ‘Vocês são a juventude que matou hoje o velhinho inimigo que morreu ontem”.

Ah, eu reivindico sim Rosa Luxemburgo, como outros tantos pensadores socialistas marxistas. Até porque teoria não é porca, parafuso e engrenagem que só funciona em um tipo de mecânica, dá pra montar máquinas novas com uma mesma engrenagem de múltiplas aplicações.


A própria releitura de Marx como portador de um pensamento ecológico foi não só necessária como fundamental para criar-se um arcabouço de ferramentas que possibilitou uma reviravolta na esquerda mundial após a queda do muro de Berlim, onde foi possível abrir uma boa brecha para a recomposição do pensamento marxista em níveis anteriormente ignorados, inclusive recuperando terreno no movimento ambientalista, dominado por pensadores liberais, conservacionistas e manco de teoria capaz de fazer a crítica sistêmica.

Isso se tornou possível por Marxistas como Tanuro, Lowy e Foster recuperando em Marx um concepção de meio ambiente e um conceito como o da quebra metabólica para permitir toda uma releitura de Marx utilizando sua metodologia e avançando numa critica sistêmica que inclui leituras como as do Socialismo Realmente Existente, parceiro em danos ambientais do capitalismo clássico. 

Idem pra Rosa Luxemburgo que foi recuperada de um ostracismo fudido por conta de uma lógica metodológica excludente e avessa à democracia inclusive no âmbito dos debates teóricos e centrada em leituras ortodoxas de Trotski e Lênin, e hoje, pasmem, circula fácil entre ecossocialistas e faz parte, com Trotski, da construção do programa da Quarta no plano ambiental, onde se discute o planejamento democrático a partir referências em Rosa na crítica a Lênin pela estruturação do estado soviético e também em Trotski, a partir do programa de transição. 

Se ficássemos presos na ortodoxia fodeu, estaríamos todos de alguma forma que nem os embusteiros pagando de teóricos e leitores da teoria das redes sob o ponto de vista marxista, mas sendo só agazeiros teóricos que reproduzem frases inteiras de Lênin ignorando contexto e conjuntura, aplicabilidade dialética pra hoje,etc. 

Releu-se Marx e construiu-se saída pela esquerda e ninguém morreu.

Até a crítica à revolução russa (E crítica é análise) é fundamental para se entende porque deu no Stalinismo e em sua emulação produtivista do capital (Pra muitos outros hereges como Toni Cliff se tornando Capitalismo Burocrático de Estado) , e ignorar Rosa ai é miopia que beira à cegueira. 

Aliás, lendo Tanuro se pega parte das críticas de Rosa à Lênin como eixo da análise sobre os motivos da URSS não ser modelo nenhum diante dos danos ambientais produzidos e de todo o legado de autoritarismo, repressão e destruição ambiental deixado à frente. E não mata entender que parte do que Lênin e Trotski escreveram foi usado sim para construir um estado autoritário à feição do Koba,nem torna ninguém revisionista. 

Aliás, a própria postura diante do debate é exemplar e deixa muito claro que a critica que muitos comunistas fazem à própria esquerda tá plena de razão.

Há sim uma leitura religiosa das escrituras marxistas e, pasmem, isso tá em Benjamin também, visse?

E o Bellamy Foster dá outra dica: O afastamento do materialismo feito pro marxistas após a morte do Karl gerando no materialismo histórico um distanciamento da análise científica concreta, pode ter sido uma das raízes da construção de uma lógica de afastamento do concreto em nome de uma mitologia escatológica.

Por isso é preciso e fundamental ampliarmos a leitura da teoria não como uma lógica evangélica, mas como revolucionária ação teórica de transformação, senão viraremos um pastiche do marxismo.

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