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Uma das preocupações mais prementes da esquerda como um todo, e não só, é o tema da miséria.

A miséria é temática não só constante como a teoria a respeito produzida através de todo um processo amplo metodológico que inclui um número infindável de vieses muitas vezes divergentes, processos até aparentemente contraditórios de entendimento do que é miséria e como se faz para combatê-la.

Um dos problemas relacionados a todas estas teorias é a construção delas a partir da percepção externa do que é miséria, até empática por vezes, muitas vezes presas na ideia da miséria como relacionada apenas a escassez, outras problematizando com o da distribuição desigual de recursos, mas na maior parte das vezes centradas na sistematização da miséria como um efeito econômico das relações de poder.

A questão é que miséria é além disso. Miséria é também aquém disso. Miséria não é só escassez e desigualdade, miséria também é perda de identidade, perda de solidez cultural, perda, antes de mais nada, da sensação de pertencimento, miséria também é solidão. E solidez cultural não é falar seis línguas ou ler Nietzsche na cama, solidez cultural é saber onde fica a padaria, o que significa o rio perto de sua casa, ter amigos por perto, saber onde fica sua casa, saber onde fica seu lar, onde estão os seus sapatos.

A miséria é mais que a escassez de água, comida, educação, saúde e tudo o mais que vai ganhando campo no mundo da miséria a partir de uma ideia de crescimento e distribuição de renda, também desigual, que varre mundos e mundos afora. A miséria também é estupidez, também é a ausência de percepção de si como mais que a si mesmo, também é a ausência de percepção do nós, do todo, de si mesmo com a Terra.

A miséria é o isolamento do ser de uma compreensão totalizante do mundo, de fazer parte de uma rede de relações e interações. Miséria é a colocação do ser no patamar da ausência, é retirar do ser a identidade, o nome, a cor, a fome, a pele, a sede, ele vira um ser de miséria. Miséria é perder laço de solidariedade comunal, é perder a noção do que é o vizinho, de existir vizinho, de ser cumpadre.

Vivemos miseravelmente, mendigando comida, água, terra, ar e vida, muitas vezes nomeadas salário ou felicidade, como se em algum momento nossa miséria não fosse filha de uma ideia de que tudo à nossa volta é feito para servir, para servir-nos como senhores mais ou menos poderosos de uma Terra cada vez mais esquálida.

Nossa miséria é alimentada por um avançar da fome humana ocidental para com a Terra. Nossas teorias da miséria alimentam o desejo de um avanço cada vez maior em nome de desenvolvimentos que ignoram nossa miséria maior: A escassez de entendimento de nossa relação civilizatória torta com a ideia de planeta.

Buscamos desenvolver economias sentados sobre tratores, em nome de alimentar mais e mais pessoas com mais e mais recursos e com menos entendimento da distância entre essa ação e a relação necessária de equilíbrio com o planeta.

Ou seja, teorizamos que para tirar milhões de pessoas da miséria precisamos de mais madeira, ignorando da onde ela sai porque tanta madeira se já tiramos tanta para alimentar fornos maiores de senhores mais gordos.

Teorizamos que para tirar milhões da miséria precisamos redividir tudo, mas sem parar de entender que esta divisão se dá ainda no plano da exploração máxima dos recursos sem frear a locomotiva e reentender nossa noção de abundância.

Nossa miséria é antes de tudo um egoísmo civilizatório.

E atropelamos os que vivem em outra civilização, vida e entendimento, pois iluminados por uma razão fóssil entendemos que tudo o que não é nossa vida no pêndulo entre Cortez e Cervantes é subcivilizado ou selvagem.

Nossa miséria não é só a fome com que subjugamos tantos em nome de uma lógica de riqueza privada que retira riqueza pública, nossa miséria é também o entendimento que nossa razão iluminada produzirá um progresso inesgotável diante de recursos escassos e com data de validade.

Nossa miséria é também a construção de um tipo de ideia, que é muito mais ampla que o capitalismo, que faz hoje termos necessidade de dois planetas para alimentar o nosso, ou seja, nosso planeta está no cheque especial em matéria da relação entre retirada de recursos e sua capacidade de recuperação, mas quem liga? Precisamos tirar milhões da miséria, não?

E enquanto dizemos que queremos tirar milhões da miséria, enriquecemos pouquíssimos que seguem alimentando a fornalha da vida com almas e madeiras de florestas que tinham nome de deuses.

Nossa teoria da miséria não assenta nem mesmo a necessidade de redistribuição igualitária do já incansável modelo de superprodução constante, mas insiste no avanço disso, sem notar a ausência de terreno embaixo dos pés para avançar.

Em resumo, nossas teorias da miséria são também causadoras de miséria e miseráveis, misérias também filosóficas, existenciais, misérias vestidas, com geladeira, mas sem saúde, sem educação, misérias que acham que um dia serão senhores, que um dia terão impérios, enquanto o planeta marcha aceleradamente para um deserto faminto e pedinte.

Nossas teorias da miséria se assentam na loucura da abundância inexistente.

E nossa maior miséria é humana, é um cadáver que cai de camburões pacificadores.

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