quarto_stato

 

 

Já escrevi bastante sobre Black Bloc autonomistas, anarquistas,etc.

Defendi e defendo quem utiliza da tática, mesmo discordando da tática, mesmo entendendo que ela não é a saída para a revolução, mas ela não nasce por uma motivação porra louca de fetichização da violência.

Já citei em outros posts o quanto entendo que a tática é uma expressão política de uma juventude que rejeita a forma partido tradicional e é similar aos riots da Grã Bretanha ou dos EUA ou dos movimentos de favela e ocupações, de resistência violenta à violência do estado.

O próprio termo resistência violenta deve ser problematizado, dado que é discutível chamar de violenta uma resistência que não atinge pessoas, mas objetos.

Se me perguntarem vou responder: Sim defendo os Black bloc, mas não sua tática. Defendo como tática, assim como a corrente da qual faço parte, a Insurgência, a tática de recuar e reagrupar.

Não acho que a violência seja o melhor caminho, mas defendo quem a utiliza por que é sim, um ator que atua no espectro ideológico da esquerda. Defendo quem resiste à polícia e quem a atrasa permitindo que moradores de ocupações ou ativistas em um ato escape das garras da repressão.

Acho um erro quando a tática de defesa vira tática de ataque, ou seja, quando passa de uma tática de não-violência com atos de quebra de objetos e símbolos do capitalismo para um ato frontal de resposta a ataques da polícia, quando passa de defesa a ataque, tornando-se tática de violência, quando passa a contra-ataque violento pondo em risco a vida das pessoas, mesmo de policiais, que também são trabalhadores.

Diante do esclarecimento é preciso no entanto criticar sim quem de alguma forma, direta ou indireta, criminaliza Black blocs como responsáveis tanto pela redução de frequência nas manifestações quando de foco da violência nas manifestações.

A primeira medida que reduziu presença de pessoas em atos foi a brutal violência policial de 20/06/2013, dali em diante os atos foram aumentando de intensidade e reduzindo de tamanho, mas isso foi menos fruto da resistência e mais fruto de uma violência nunca antes vista por parte da polícia. Depois de 20/06 ainda ocorreram outros tantos atos reprimidos com igual brutalidade, e também com reação violenta de muitos militantes.

É preciso mudar este quadro? É sim, mas jamais isolando ou repudiando Black Blocs como se estes fossem os atores principais de um drama construído com fardas e comando estatal. A violência nasce policial, cresce policial e chega ao nível que chegou após profunda negligência e omissão no diálogo com a população e também como extrema ineficiência da esquerda partidária na construção de diálogo com quem não se organiza em partidos.

E se neste momento a tática Black Bloc está sob a mira policial e da mídia é dever nosso discuti-la, dialogar profundamente e não isolá-los ou repudiá-los como antes se faziam com quem tinha hanseníase.

Até porque é mister entendermos que a explosão de violência não nasce de jovens playboys viciados em adrenalina, mas tem origem no mesmo favelado que queima pneu e ônibus após as cenas de violência homicida que a mesma polícia militar que reprime protestos causa cotidianamente nas comunidades pobres Brasil afora.

Enquanto batemos cabeça para não ficar mal com os sociólogos e artistas que nos apoiam, deixamos na mão quem ocupa prédio público e quem mora na favela e vê bala voando na cara, corpo e alma de jovens e crianças pobres e pretas. Enquanto dizemos que Black Blocs devem ser isolados largamos na mão quem é removido violentamente de suas casas.

E muitas vezes quando falamos que é pra isolar Black Blocs estamos falando também de isolar um cara que nas ocupações protege moradores que são removidos enquanto eles tentam salvar seus poucos pertences. Quando ignoramos isso optamos por agradar aos músicos, mas esquecer a platéia.

A velha pergunta ninguém responde: Quem são os Black blocs? Se não são uma organização e sim uma tática, todos os grupos que a adotam são a mesma coisa? Quantos deles são playboys? Baseado em que dizemos que são playboys? Quantos são pretos? Quantos pobres? A simples convivência de parte da militância com quem executa a tática diz que são muitos, tanto pretos quanto pobres.

Não, não é preciso dizer que o PSOL adota a tática Black Bloc, até porque não adotamos, não é preciso negar que a nossa tática prioritária é recuar e reagrupar, mas dizer que eles atrapalham, que eles são o erro dos atos, que eles são o problema é abandoná-los, é ignorar seu papel de resistência e é colocar entre nós e eles um muro de ausência de interlocução, é dizer que não queremos diálogo, que concordamos com os jornais, os mesmos jornais que nos criminalizaram junto com os Black bloc.

E é preciso ir além do cálculo político, especialmente o político eleitoral, é preciso fazer o cálculo humano. Abandonando companheiros que constroem o ato coletivamente vamos mesmo nos cacifar junto ao todo como militantes confiáveis? Vamos construir atos apenas com quem cumpre o protocolo que adotamos ou vamos ampliar a base organizada dos protestos? Nós que não saímos da zona sul temos ideia de como parte dos criminalizados Black Blocs é composto de suburbanos precarizados? Se temos o que significa pra eles lerem que precisamos isolá-los?

E a variação tática de dizer que resistir violentamente à violência policial quando se está numa ocupação de terra ou prédio é válido, mas jamais quando se está nas ruas ocupando-as da mesma forma que ocupamos casas, prédios, terras? É sério que a contradição não tá gritante?

A juventude das cidades que se vê de saco cheio de tomar porrada da polícia dentro e fora da favela onde mora tem de contar até dez, mas o indígena ou o sem terra não?

Entendo e defendo que temos de discutir sim com essa população que a melhor tática não é o enfrentamento, mas antes de dizermos em jornais que precisamos isolá-los é preciso que discutamos do que estamos falando, de quem, qual o peso de negá-los ou não e de forma democrática.

Negá-los antes de conquistar politicamente seu apoio à resistência não violenta é isolá-los sim, com a pior conotação possível para o termo.

A lógica de que não temos correlação de forças para justificar a violência da resistência é um simulacro da velha lógica do cálculo de correlação de forças para justificar o imobilismo em nome do risco. Não deixa de ser um simulacro do discurso que ouvimos desde sei lá quando do neo-petismo para justificar o cagaço que bate nos portadores da estrela toda vez que ensaiavam (Já deixaram de ensaiar) qualquer mísero avanço do governo na direção de quaisquer bandeiras históricas da esquerda, como reforma agrária ou direitos humanos.

Estarmos na defensiva demais, e pior, estamos partindo pra ofensiva não contra o sistema que provoca a violência que matou Santiago, mas contra quem não é controlado por nós. Se não temos o discurso meia boca do PSTU, temos uma prática similar, embora contando com o apoio de intelectuais e artistas.

Discordamos dos Black blocs e da Sininho? Ok, é do jogo, mas para isso precisamos nos descolar deles de forma tão violenta que cheira à uma espécie de dedurismo pelo afastamento? Pra que esse descolamento se jamais fomos ligados? E todos os valores que constroem a moral tão nossa que difere da deles, da burguesia? E os valores socialistas, fazemos o que com eles? Tornamo-los apenas um simulacro raquítico que orna um discurso bonitinho?

Estamos atônitos, ferindo aliados, calando ruídos, negando diversidade e muito disso pela omissão diante de um fator claro: ausência de um amplo debate que nos dê segurança diante de movimentos nebulosos.

Estamos atônitos porque não raciocinamos, reagimos.

E na reação abandonamos companheiros na estrada.

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