lula e o petroleo

Elitismo é uma qualificação complicada. Primeiro porque torna o acusador um portador autoproclamado da defesa da população pobre e localizado no confortável patamar de observador sensível às demandas populares. Em segundo lugar porque dá a quem sofre a acusação a terrível pecha de defensor dos direitos de uma elite por sobre os direitos de um determinado povo.

Qualificar alguém de elitismo também é um nem sempre sofisticado estratagema a serviço de sofismas.

Em artigo no jornal Brasil de Fato, o professor Igor Fuser, acusa o Greenpeace de elitismo por lutar através de ativistas contra a exploração do pré-sal, argumentando que “Negar ou diluir a dimensão social dos recursos naturais em países periféricos, como o Brasil, é incorrer num elitismo imperdoável”.

O interessante do artigo é que todo o argumento gira em torno da produção de divisas através da exploração de petróleo, qualificando-as como revertidas à população brasileira e trata da questão ambiental apenas sob o ponto de vista da possibilidade de acidentes ambientais como os ocorridos no golfo do México.

O primeiro sofisma nasce no entorno da argumentação que o que o pré-sal produzirá retornará para a população brasileira quando é público e notório que o leilão do primeiro campo, Libra, foi vencido por um consórcio que se tem a Petrobrás, tem a Shell, a Total francesa e duas estatais Chinesas, ou seja, por menor que seja a participação das demais, apenas 42% está sob gestão da estatal, o que grosso modo coloca que boa parte do negócio terá rumos que não farão parte de nenhuma distribuição de renda ou de uso do investimento social de interessa popular. Ou seja, parte dos recursos será transferido diretamente a empresas transnacionais, uma delas ao menos uma major do mercado petroquímico, a Shell.

Outro sofisma é que a gestão do petróleo brasileiro foi algum dia revertido para investimentos de distribuição de renda, quando nem ao menos o tão propalado “100% dos Royalties do pré-sal para a educação” vai realmente neste percentual para tal, sendo apenas 1,65% deste dirigido ao fundo social destinado á educação.

A lista de sofisma cresce ainda mais quando analisamos os gastos sociais da Petrobras a partir de sua estrutura societária, onde a união detém 55,6% das ações, ou seja, não é proprietária de toda a empresa, não detendo os lucros em sua totalidade para que possa repassar para a população através de investimentos sociais, ela tem de dividir com outros acionistas, sendo que destes são 30% de ações emitidas na Bolsa de Nova York e sob controle de acionistas estrangeiros, isso olhando por cima. Se problematizarmos o destino que o governo Brasileiro dá aos investimentos a coisa complica, dado que os gastos com pagamento dos juros da dívida somam dez vezes mais do que o repassado ao principal programa social do governo brasileiro, o Bolsa Família. Além disso, os mesmos juros consomem a mesma coisa que a soma dos gastos das três esferas de governo com a educação, ou seja, o governo Brasileiro mesmo que pegue todo dinheiro da Petrobras e o coloque no Tesouro, o que seria falso dada a divisão acionária da empresa, pela lógica de administração atual transferiria a maior parte dele para o pagamento de juros da dívida.

O maior de todos os sofismas é o que ignora que a luta de ambientalistas contra a exploração e consumo de combustíveis fósseis, e do pré-sal por óbvio, é focada menos nos acidentes possíveis com as plataformas de exploração do que com a queima de combustíveis fósseis e seus efeitos no agravamento do aquecimento global e a partir deste no agravamento de eventos extremos climáticos que atingem muito mais os pobres.

Ou seja, na acusação de elitismo a quem combate o uso de combustíveis fósseis o autor, além de revelar um exímio construtor de sofismas, comete ele um elitismo baseado na ignorância: O de ignorar as reais necessidades dos mais pobres atuando de forma tutelar no julgamento das necessidades das populações mais pobres , reduzindo sua análise à lógica do desenvolvimento a partir do crescimento do PIB e não no da construção concreta de elementos de melhora da qualidade de vida, entre eles o da redução da vulnerabilidade das populações que vivem em situações de baixo índice de desenvolvimento humano às mudanças climáticas e seus principais efeitos, os eventos extremos climáticos.

Ao ignorar que os tais eventos extremos climáticos ocorrem cada vez mais, o autor omite a vulnerabilidade das populações ao aumento das secas no semiárido, à falta de água potável, às chuvas torrenciais, aos furacões, ao aumento do nível do mar destruindo comunidades que vivem em ilhas, países inteiros, e finalmente às grandes ondas de calor e de frio que aumentam os casos de fatalidades mesmo em locais acostumados à forte frio ou calor, como Rio de Janeiro e Toronto. O autor também ignora a qualidade de vida de populações expostas à poluição, forte calor e em geral transporte público de baixa qualidade.

Na ânsia de defender uma lógica de desenvolvimento baseada na ideia de que a produção econômica se mede apenas pelos índices de crescimento macroeconômico, típicas de um desenvolvimentismo produtivista pouco atento às questões científicas mais amplas, o autor comete um sem número de elitismos sustentados em sofismas e em ignorância que acaba ele vestindo a carapuça que tenta enviar a quem, corretamente, combate à exploração e queima de combustíveis fósseis.

Combustíveis fósseis que a comunidade científica em peso adverte serem pilar de um processo de degradação ambiental que ameaça as condições que permitiram à Terra conter vida, já existindo processos de extinção em massa de várias espécies.

Talvez confiante em suas credencias o autor ignore que a comunidade científica possui larga maioria de cientistas que entendem que os combustíveis fósseis são o principal fator de incremento do aquecimento global e que advertem que o processo de “crescimento econômico” é um problema para a vida na terra, tendo inclusive Kevin Anderson, professor de Energia e Alterações Climáticas da Universidade de Manchester e um dos cientistas do clima mais eminentes da Grã-Bretanha afirmado em 2009 que “é extremamente improvável que nós não tenhamos morte em massa a 4°C [de aquecimento global]. Se tivermos uma população de nove mil milhões até 2050 e chegarmos a 4°C, 5°C ou 6°C, pode-se ter 500 milhões de pessoas sobrevivendo”.

Talvez lutar pela vida como um todo, inclusive a humana e a dos pobres, seja elitismo, mas para tal seria preciso uma distorção completa de diversos conceitos que deveriam ser facilmente compreensíveis para um cientista político com as credenciais do professor Igor Fuser.

A questão é que por vezes o elitismo não mora em quem luta contra o petróleo, mas em quem enxerga pelos pobres ignorando suas vidas para além da geladeira.

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