ditadura-militar-2 (1)Há muito mais oculto sobre a ditadura militar que cadáveres.

Obviamente a importância dos mortos e desaparecidos não diminui, descobri-los é fundamental, mas descobri-los amplia de importância quando apontamos o que será descoberto além de ossadas.

A revelação dos arquivos ocultos da ditadura amplia busca pela verdade, pela justiça e pelo DNA do desenvolvimento que abraçamos como solução de nossos problemas, como imperativo lógico da superação de todo e qualquer obstáculo na construção do Brasil Grande que da Madeira Mamoré a Belo Monte foi pavimentado em sangue preto, pobre, índio e caboclo.

Cada assassinado pela ditadura não o foi para sustentar no poder generais ensandecidos, mas para sustentar um projeto de estado baseado no avanço das escavadeiras, na expansão da fronteira agrícola, no dizimar de povos indígenas, torturar de ribeirinhos, caiçaras, pescadores artesanais, indígenas e quilombolas.

indigenas-torturaO AI-5 foi muito mais do que a consolidação de um estado de exceção radicalmente anticomunista, foi também a consolidação de um projeto de país que radicalizava ferozmente o imperativo do Brasil Grande que Vargas preconizou e jamais conseguiu executar.

O AI-5 foi o rubicão que a doutrina militar atravessou, ela há décadas se colocava como esteio moral, ético e gerencial da nação, para executar o imperativo positivista de representante da ordem para o progresso, às custas do que fosse necessário para que o Brasil alcançasse o lugar de excelência com que a corporação sonhava. O povo, na visão militar, adoraria, óbvio, dado que ignorante precisava do “braço forte, mão amiga”, da iluminação platônica do corpo militar. E quem não adorasse que se visse com as forças de “manutenção da ordem”.

8-Reprodução2Aliando anticomunismo fortemente arraigado, ideológico até, que ao menos desde a intentona comunista de 1935 permeava as hostes militares, com um sentido de fundamentalidade do desenvolvimentismo da economia sob a égide do capitalismo, a ditadura militar deu no AI-5 a declaração prática que nada, absolutamente nada, se imporia diante da inexorável marcha da transformação do Brasil na república platônica perfeita, afiliada ao clube das maiores nações do mundo, um império resplandescente que nem Dom Pedro II imaginara ver.

E com o AI-5, suspensas todas as garantias legais da ordem democrática, avançou o projeto de desenvolvimento que tinha como esteio o avanço da economia para todo o território nacional, expandindo violentamente a geração de energia elétrica através dos megaempreendimentos de Itaipu, Sobradinho, Itaparica e Tucuruí todos com sua legião de atingidos, de removidos, de violentados; expandindo estradas e a colonização de terras na para a região amazônica, ampliando a fronteira agrícola; investimento pesado em telefonia, telecomunicações, transportes de forma a dar conta de executar um projeto que se queria desenvolvimentista sob o pretexto de “enriquecer o país e acabar com a miséria” e que no fim das contas foi um projeto de enorme expansão do capitalismo sem a menor preocupação com qualquer indício de distribuição de renda.

Abrir os arquivos da ditadura é também abrir a quantidade de fortunas forjadas com este célere avanço da economia brasileira, apelidado de “milagre brasileiro”, e o quanto ele foi desenvolvido apoiado pela violência estatal, resposta única a qualquer tipo de resistência popular.

indios-ditadura-militrAbrir arquivos da ditadura é também ter acesso a quantos indígenas, quilombolas e membros de populações tradicionais foram assassinados para que a expansão da economia se desse onde antes só existiam eles morando. Quantos indígenas o AI-5 matou? E quantos quilombolas? Quantos morreram em nome da exclusão de direitos civis, políticos e humanos para que a marcha do progresso se desse?

Quanto sangue indígena e quilombola pavimentou  o progresso?

Abrir arquivos da ditadura também é um eficiente meio de entender como o AI-5 foi fundamental para um projeto de nação que nos deu projetos como os da atual Belo Monte no Pará, Barra Grande no Rio Grande do Sul, Marabá no Tocantins e outros oitenta empreendimentos planejados para o Brasil, em especial na região centro-norte do país.

relatorio-figueiredo-241256Como se deu a construção de um projeto de nação que ecoa a devastação ambiental e o descaso com direitos humanos, especialmente povos tradicionais? Abrir os arquivos da ditadura é fundamental para entendermos desde a lógica tecnocrata do desenvolvimento a qualquer custo como também para a lógica violenta que sustenta na prática políticas como essa.

A tortura da ditadura e sua permanência; o descaso com os povos indígenas e seu genocídio; a presença de latifundiários onde eram terras indígenas e quilombolas; a truculências das polícias tidas como fundamentais para a manutenção de um projeto excludente de país baseado no atropelamento de culturas, florestas e povos inteiros, além de direitos, tudo isso tem similaridade entre o processo que nos deu o AI-5, seu resultado e o projeto que nos empurra o massacre de povos inteiros e violência a manifestantes como um preço a ser pago pela retirada de quarenta milhões da miséria.

Às vezes a semelhança não é mera coincidência.

Post participante da VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR.

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