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Há na esquerda brasileira uma espécie de amnésia de suas tradições e um açodamento similar aos avanços imobiliários por sobre ocupações de espaços de poder, de burocracias, de posições na prateleira da hierarquização.

A esquerda brasileira carrega o sonho de ser marxista perfilado à síndrome de casa grande que permeia nossa história. Temos o maior número de comunistas sinhozinhos per capita do mundo moderno.

Da mesma forma que ao escravo até o século XIX o inverso de cativo era senhor, para a esquerda o inverso de oprimido é opressor, o contrário de radical é gerente.

E seguimos na toada confundindo nossas opções históricas, estratégias, com calendários avessos a qualquer entendimento do cotidiano da tal história e do mandato que recebemos das gerações anteriores, das tantas gerações que pelai passearam com bandeiras, flâmulas e dando de comer a vermes enquanto eram crivados de balas, de torturas mil para que o maldito estandarte ingênuo da liberdade não fosse desprezado qual pano roto de secar cozinhas velhas.

Seguimos optando pela folhinha eleitoral ao invés da busca por transformação.

Nós, filhos, netos e bisnetos de tantas ditaduras que qualquer ciclo de vinte anos sem golpe é motivo de comemoração, optamos por uma amnésia míope que esquece os tantos nomes por debaixo das manchetes, os braços esquecidos que fizeram os heróis.

Nós que vivemos quando o sol nasceu, optamos por um esquecimento cego das cruzes sem nomes, sem corpos, sem data que ainda existem, que permanecem não só como fantasmas, mas como uma profecia alimentada para sempre por um estado racista e autoritário que sobrevive como montaria aos governos tantos que com vestidos novos sobem como cavaleiros e dominadores deste, enquanto são conduzidos por ele para o destino de todos os estados, que todos os governos seguiram.

Nós, que carregamos na alma a marca de tantos suores, de tanto sangue de tanta gente, de tanta alma, de tanta ideia, optamos por alimentar uma sanha limítrofe à canalhice, por escolher não uma transformação que cesse para sempre alimentar insano da morte, mas a gerência da máquina de morte.

Nós que devíamos dizer para nossos ancestrais o gosto desta liberdade pela qual em tese lutamos, nossos ancestrais mortos pelo ódio que o capital nos deixa como herança, optamos por erguer ao estado e ao capital um monumento aos desaparecidos enquanto visitamos suas alcovas, enquanto nos deliciamos na degeneração da negligência sobre nosso mandato histórico.

E é deste mandato histórico, do legado de gerações e gerações de lutadores que de revolta em revolta assanhavam a brasa da liberdade, o gosto da liberdade sangrada que devíamos cuidar, que Junho veio falar e Outubro gritou.

É deste mandato histórico, do cuidado objetivo por um legado ao futuro, aos nossos filhos, de algo mais do que um sorriso cínico que despreza a dimensão do sonho qual uma doença de pele, que precisamos falar.

É do mandato que recebemos de avós, avôs, bisavós, mitos, ídolos, monstros sagrados, Marighelas, Lamarcas, João Cândido, Prata Preta e tantos outros presos nas Clevelândia, nas masmorras tantas de nossa tradição, nas Bangu 1 que ainda aprisionam nossos Baianos, que precisamos falar.

Porque só nós somos o futuro.

Só nós sabemos do futuro, do necessário futuro, do futuro que a sanha cínica pelo agrado dos gabinetes perdeu a capacidade de ver, sentir, cheirar. Só nós sabemos o que sobrou do céu.

E sem nossas mãos, nossos olhos, garra, ódio, fúria, ira santa ou não, o mundo morre.

E é preciso desgarrarmos do egoísmo que nega aos nossos filhos o gosto da liberdade.

Não essa liberdade meia boca, feita por manufaturas chinesas que pode ir ao fogo, ao micro-ondas, que tem óculos 3d, mas uma Liberdade vista por negros quando pela primeira vez souberam que podiam jamais ser senhores, mas sendo a si mesmos, podiam viver por si.

É preciso nos saber livres, livres dos grilhões da medíocre adaptação para que leguemos aos nossos filhos mais do que consciência e juventude, mas vida.

É preciso nos entendermos maiores, porque cada um tem o tamanho do mandato histórico que aceita para si.

Sem nos vermos do tamanho de nossa responsabilidade, de nossa imensa, gostosa, sagrada, profana, cheirosa e fantástica responsabilidade, de nosso inegável mandato histórico, sem nos ver exatamente do tamanho da opção que temos para com o futuro, somos apenas metade, somos micro, somos nada.

Quem é, antes de mais nada, é seu mandato histórico.

Quem não entende o tamanho de seu legado, quem não entende o tamanho de quem morreu para que seu sonho exista, quem não entende o que significa ter na alma a tatuagem das décadas de socialismo, quem não entende isso não se vê, de tão minúsculo que é.

Não devemos nos prender no tamanho das casas que habitamos. Se somos menores hoje, maiores amanhã, somos imensos por sermos, antes de mais nada, dignos diante de nosso legado histórico, teórico, de luta.

E por isso guardemos a tranquilidade. É preciso ser duro com a história, duro com a política, mas sem o medo que causa a intranquila arrogância dos que dependem ser sempre maioria para viver.

É preciso que sejamos tranquilos para deixar a quem vem na frente um legado. E quando eles lavarem a alma, quando lavarem a mágoa, que nos digam o gosto desta liberdade.

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