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Dos heróis da minha história e das aproximações que tive com a questão racial, escravidão e criminalização da pobreza, Xica da Silva e Prata Preta ocupam lugar reservado aos mais importantes.

São os Reis do camarote da paixão pela história da chaga mais feia da história de Pindorama: A escravidão e sua permanência.

Se Prata Preta faz parte de uma história movida à rebeldia, engenho e testosterona, Xica da Silva é membro permanente de uma história movida a todas as contradições possíveis e plausíveis de um tipo de luta que homem nenhum conhece: A emancipação negra e feminina ao mesmo tempo, com todos os julgamentos das artes e engenhos que são necessários para esta luta.

Se Prata Preta é elogiado pôr em plena revolta da vacina iludir a polícia com um “canhão” feito de uma carroça puxada a mão e um poste de luz de ferro derrubado; Xica é por vezes execrada por ter utilizado o sexo para revolucionar o papel de uma mulher negra em uma Diamantina do Século XVIII fechada, policiada, dominada por todo tipo de opressão política, racial, religiosa, permitida ou não pelas leis dos céus e da terra.

Prata Preta, o Herói da Gamboa, nunca teve sua moralidade questionada por fazer suas artes em nome de uma liberdade que jamais teria. Mesmo não sendo mais oficialmente escravo após uma abolição que o deu o título de cidadão livre sem meios para exercer sua liberdade, era escravo das condições de secessão que sua pele, classe, nome, condição e opção política reservam a quem resiste. Prata Preta teve o exílio na Clevelândia e um lugar na história como barão da ralé.

E Xica da Silva? Xica dava e dá.

Xica fez tudo o que era possível, impossível, provável e improvável para uma escrava sair da condição de escrava e da condição de cercada pelos muros invisíveis da escravidão, onde além das correntes bem concretas, correntes invisíveis permeavam cada recanto da vida do povo de pele preta. Xica deu e muito e com isso subvertia sua condição de dominada e dava seu jeito de dominar, de fazer-se mais que uma ferramenta de uso e usufruto dos senhores. Ela os tinha, eles nunca a tiveram.

Xica deu, sim, deu… e com isso foi além do que qualquer escrava foi, e muito além do que qualquer branca da época foi, ao menos a maioria delas.

Xica reproduziu a relação Senhor/Escravo com seus escravos e outrora companheiros de suplício? Opa, com certeza. Não estamos falando aqui de uma santa de pau oco, mas de uma mulher que viveu no século XVIII em uma colônia com já dois séculos de escravidão e de uma cultura e sociedade construída em torno da escravidão como algo dado. Xica nasceu não só escrava, mas em um sistema escravista. O contrário de cativo não era livre, era senhor.

O contrário de ser escrava era ser Senhora, não só pra Xica, mas para todos.

Não sei se Xica era boa com seus escravos, consta que sim, embora seus rompantes de Maria Antonieta não se furtassem à utilização da velha violência contra seus cativos. Xica também me parece que mantinha relações favoráveis a alguns negros e desfavoráveis a outros, o que é comum tendo em vista que não era, repito, Madre Tereza, mas uma mulher com suas idiossincrasias, com seus amigos e inimigos.

O certo, no entanto, é que Xica deu e foi rainha subvertendo a ordem escravista a partir de sua sexualidade, de sua sedução, de seu engenho, de sua ironia enfeitada de rosto pintado de branco, como que subvertendo a lógica: Por rica era branca, por branca era senhora.

Xica não se tornou branca e sabia disso, por isso desfilava sua bizarria, os modos exagerados dos que não são o que parecem, dos que nem pretendem ser, mas impõe-se como quem sabe que aquilo é por pouco tempo e cada segundo de ação e subversão é necessário.

Xica deu, e dá, e dará. Xica não foi santa, Xica fazia sexo e talvez por isso não seja heroína de muitos, pois Xica foi senhora, mas Xica da Silva, a negra, revolucionou por isso, por ser senhora, por ser negra, por ser mulher.

Xica dá, Xica dá e dará, e deu.

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