cartaz-2006_652x408A discussão sobre Black Blocs, processo repressivo pelo estado e até sobre dialética, contradição capital/trabalho ou capital/natureza, tudo, absolutamente tudo, tende a uma lógica binária que passeia desde as intervenções de esquerda até as dificuldades interdisciplinares de entendimento entre as ditas ciências “naturais”, objetivas, e as ciências “humanas”, subjetivas.

Todos este processo acaba migrando para uma miríade de contradições que não raramente tende ao binarismo puro e simples, à lógica opositora, cuja centralidade acaba sendo um problema de ocupação de espaço e da lógica até política de entender-se pela alteridade radical.

2013061837627Para se opor ao “velho” sustenta-se o “novo”, para se opor à “naturalização” sustenta-se a “fluidez”, todos os pontos de intersecção por vezes são atulhados de explosivo plástico, retórico inclusive, que não ajuda muito na medição humana e textual disso que simplificamos ao chamar de “realidade” e portanto da diversidade de percepções deste mesmo real construídas pelo humano, pelo diverso.

Além do mar de jargões situantes de cada grupo em seu nicho de existência/atuação, que por vezes impede a compreensão de quem não nada naquele mar.

E ai temos o físico puto com o antropólogo que diz que a ciência é um “constructo social” e o antropólogo puto com o físico porque este defende a “objetividade” da ciência. As pontes entre ambos e a possibilidade tácita do termo para cada um ter o significado diverso e até antípoda, ou seja, o nº um entende “constructo” de um jeito diverso do que escreveu o nº dois, idem para o sentido inverso para o sentido de “objetividade”.

As problematizações diferentes de cada processo, de cada categoria, a lógica existente em cada grupo social e o peso para cada terminologia já renderem teses mil e permanecem rendendo, criando oposições onde não necessariamente existe.

Lute---Rubens-Gerchman---1967---foto-Rafael-Adorján-(3)[14]A ânsia de uma resposta definitiva para as contradições e até o anseio dialético de torná-las duais, quase maniqueístas, acabam ajudando muito. E ai temos a esquerda que não assume os Black bloc como parte dela pela necessidade de apontar a diversidade mais que o consenso, pela necessidade dual, maniqueísta de construir muros que separam e organizam taxionomicamente o mundo, que encaixotam, rotulam e apresentam pro mundo como “ó meu trabalho de feira de ciências!”.

Talvez isso ocorra pela lógica de mecanicismo marxista que torna a dialética uma ferramenta menos usada do que propagandeada e mais, não criticada, como fez Bakhtin, pelo ponto de vista de na busca de síntese a dialética atropelar a polifonia e portanto perder o fio da meada do mapeamento do concreto.

Se a crítica no âmbito da metodologia marxista em sua ciência por um marxista como Bakhtin já dava chabu, imagina se a colocarmos sob o ponto de vista político?

2013061837876Porque a dialética enquanto método de análise do concreto acaba por vezes indo no vício mecânico e taxionômico de ocultar o que é múltiplo em nome de uma síntese revolucionária dada, objetiva, com todas as problematizações do objetivo, que atropela qualquer consenso entre os diversos.

A luta de classes bradada aos quatro ventos, jamais é vista pelas possibilidades mil de ter sido transformada, como fenômeno histórico que é, pelo decorrer do tempo e pela complexificação do concreto, das relações humanas, de trabalho, da vida.

A contradição capital/trabalho, filha da luta de classes, jamais é analisada sob o ponto de vista da superação dos limites da exploração, da lógica dos direitos da natureza e do entendimento do agravamento da contradição para a gravidade da oposição capital/natureza ou capital/vida.

E como um resultado previsível, cria-se a contradição entre as contradições. De um lado ecossocialistas apontando para a critica ao avanço das forças produtivas, com crítica entendendo-se como análise fina, e marxistas tradicionais entendendo ser necessário ampliar o desenvolvimento das forças produtivas superando as contradições capital/trabalho sem olhar muito para o resultado disso no plano da vida muito além do humano.

Outro processo é o da dicotomia quase automática entre métodos díspares de luta para a transformação social.

Em vez de entender a profunda polifonia entre metodologias de ação em atos, manifestações ou mesmo de compreensão de intervenção política para a transformação radical do sistema se opta por criação de muros intransponíveis entre os diversos em nome de uma disputa cega em torno da construção de nichos de atuação política que se autointitulam radicais, mas não enxergam um palmo da raiz à frente do nariz.

Contradições-felipe-ret-Evandro-Siol-Rap-em-CartazE muitos se dizem marxistas, muitos se dizem utilitários da dialética, formadores de construções a partir de Marx, quando no máximo fazem é uma construção semirreligiosa de um marxismo morto-vivo, mecânico, pouco avesso à complexidade e mais adepto à simplificação grosseira.

A divergência em torno do processo revolucionário e da metodologia para chegar até ele leva à muita gente a criar regras rígidas que deveriam caber em situações díspares, mas obviamente não cabem e vem aia contradição mestra de todas: Marxistas supostamente dialéticos não aplicando ao concreto suas teses construídas no abstrato, dado que tomam por concreto um abstrato mitológico construído por Lênin em 1917. Ou seja, “Marxistas” mandando às favas a dialética, mas trabalhando com um idealismo hegeliano travestido de Marxismo fazendo trottoir como discurso de esquerda.

E é por isso a ojeriza aos Black Bloc, aos autonomistas, aos anarquistas e, por que não, aos indígenas, camponeses, quilombolas que por acaso nem entendem exatamente o que significa a palavra “Capitalismo” ou “latifúndio”, mas lutam contra ele num anticapitalismo de encher os olhos de alegria de quem tá ai não para bater palma pra maluco dançar festejando na seita o sucesso de um DCE, mas para superar um sistema que nos obriga a gritar: Ecossocialismo ou Barbárie!

2A lógica da construção de partidos hierarquizados, organizados militarmente em nome de uma revolução que funciona quase como um processo escatológico, mitológico e messiânico, um advento, uma espécie de apocalipse religioso e político, uma revolução que matou o velhinho inimigo que morreu ontem, acaba por solapar qualquer tipo de análise do real que vá além do vício, do mecânico.

Ler? Só Trotski, Lênin, Moreno, jamais Benjamin, Marcuse, Thompson ou qualquer marxista não dogmático, ou pior, sequer ler não-marxistas.

E é por isso que os Black bloc assustam, não por terem respostas, mas por serem perguntas, perguntas ácidas, dolorosas, que nos obriga a ir além do mecânico, além das contradições unitárias, duais, binárias.

Anúncios

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s