monkey-computerO Velho e o Novo são parte de uma trama velhusca de tudo na lógica humana. A dicotomia Velho/Novo tá na Gesta do Santo Graal, tá em Göethe, tá em Nélson Rodrigues e tá na política, claro.

Quando a tecnologia aparece no meio então a coisa aperta e vira Fla x Flu (que só é bom em campo). Já imagino o louvor burguês e intelectual à máquina a vapor enquanto se desqualificava os ludistas, ou os camponeses ou o nascente proletariado que 16 a 18 horas por dia se perdia em massacrante exploração de sua força trabalho

Hoje a dicotomia volta com fome, e não apenas no que se refere à Fora do Eixo/Mídia Ninja. As manifestações de junho de 2013 trouxeram consigo velhas discussões embaladas em novas vestes. As manifestações de junho trouxeram novas discussões travestidas em velhos medos.

O Velho e o novo ai transcendem o discurso, o palavrório abençoado por Deus e bonito por natureza, mas não transcendem a necessária observação de discussões de método em política que lampejam mundo afora desde que política, partido, ação, tática, ideologia, tornam-se elementos de debate e de polêmica dentro dos movimentos contestatório, e se bobear isso chafurda no cotidiano das ruas desde meados do século XIX, ainda quando a Primavera dos povos inspirou Marx e Engels a escreverem o “Manifesto do Partido Comunista”.

A questão é tanto sobre o que é novo ou velho neste debate quanto se isso realmente importa.

Porque nem toda novidade é necessariamente boa, assim como nem toda velhice é imobilista. A Comuna de Paris é mais antiga que o Stalinismo, e a novidade do último jamais superará o ímpeto democrático-libertário da primeira, talvez só na concretude de sua implementação, o que no caso do Stalinismo não chega a ser algo a comemorar.

A Comuna de Paris talvez tenha sido o passo inaugural de um processo que em Lênin se dispersou num caminho célere para a ausência de democracia e cujo sucesso da Revolução Russa tornou distante dos imaginários libertários de quem se viu em Outubros juninos perdidos nos maus lençóis da velha novidade das ruas.

Talvez falte a quem relembre o Lênin militarizado e duro uma leitura do Lênin visionário e avançado construtor de uma teoria-prática de tática e estratégia que pode muito bem ser lida como novidade se incorporada a ela tantos outros pensadores como Rosa, Gramsci, Benjamin, que trouxeram a baila elementos do pensar a liberdade como algo impossível de desincompatibilizar da ação política e da estratégia dos movimentos político-sociais.

Ou seja, dá pra pensar Lênin com olhos democratas, mesmo que para isso não se incorpore do leninismo sua totalidade porque é preciso que calemos a voz que diz que ao gênio nada se recusa e tenhamos a coragem de dançar na dança das ruas a levada do velho novo que tá aí, mudando as coisas, inclusive a nós mesmos.

E na dicotomia o que se perde talvez seja a noção e o bom senso de ver o novo, o contexto, imerso no velho, a ideologia e a resistência em movimento. E nesse perde e ganha aprendemos o que deveria ser aprendido nos idos anos do descenso: A vida é assim, se perde e ganha, se erra e acerta e não é no gabinete, apenas, que se vê melhor a vista da rua.

Nem todo mundo aceita centralismos, assim como nem todo mundo fica preso no espaço-tempo presente achando que o mundo vai esperar que nosso amigo discurso se realiza numa prática sem muito saber por quê.

É preciso que entendamos que o concreto se realiza no relacional e isso é mais velho que andar pra frente e o se relacionar com o diverso produz resultados, nem sempre bons, mas é esse preciso resultado de acordos, choques, negociações e conflitos que chamamos de democracia.

Democracia não é o consenso produzido por amor no coração, democracia é embate, debate, erros, acertos, propostas e disputas que se colocam na sociedade, inclusive nas microssociedades das ocupações, atos, manifestações, universidades, escolas e sindicatos.

Não se pode conquistar todos os corações ao mesmo tempo, não numa democracia onde o que se propõe é que ela seja disputada e ganha sem o artifício dos agás publicitários movidos à grana que ergue e destrói coisas belas. É da tal da “democracia operária”, na falta de termo melhor, o jeito de produzir rusgas e ruídos porque dos muitos que discutem e debatem nem todos aceitam que sua proposta visionária e genial seja coletivamente abraçada. É do jogo. E talvez muitas ideias geniais se percam nisso, mas novas formas organizacionais apresentadas muitas vezes não são exatamente diferentes, tampouco eficientes, da velha forma debate e voto.

Há horizontalidades verticais, e muitos eixos nos mostram isso, assim como há centralismos multicentrais. A vida concreta apresenta fatores e realidades muito mais amplos do que percepções do real por vezes deveras apegadas à teoria sonham em vislumbrar e é esse o trem mais interessante do todo: Em última análise as chances de todos estarmos errados é a mais próxima da verdade do que seu inverso e em todos incluo exatamente cada alma existente nesse quase ex-mundo de meu Deus.

É preciso então que democraticamente optemos por caminhos, percepções, defesas, amigos, grupos e sonhos e sigamos, com os bônus e ônus presentes em cada escolha dessas, sem medo, sem frescura, sem solipsismos.

É democraticamente aceitável quase tudo, exceto a anti-democracia. E é por isso que é preciso que saibamos o que queremos e sigamos nosso caminho, porque sem democracia nenhum caminho existe e talvez seja a única grande convergência entre todos os que se autoproclamam democratas: A resistência a quem despreza o outro, a resistência a quem odeia a democracia.

Porque, você sabe, junho gritou e bem alto: É a democracia, estúpido!

 

 

 

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