81_lafountain_lg_00Me acostumei a ouvir quase todo dia questionamentos sobre o que faço para mudar o mundo, qual minha ação militante.

Ou isso ou questionamentos sobre o que eu sinto para me meter em tudo o que tange a política ou pior, quem sou eu e por que gasto meu tempo em atividade política.

Semanalmente leio que sou estúpido, ingrato, mal caráter, viado, corno, que minha mulher (SIC) é uma vagabunda e isso tudo por ser comunista.

Algumas vezes gente moralmente impotente (E desconfio que sexualmente também) e anticomunista por na maioria das vezes pensar com os músculos ou ouvir o galo cantar e não saber onde, ou ser criado de forma doutrinária, adestrado para não ter opinião própria, mas repetir ladainhas anti-comunistas, também ataca, faz montagem covarde com meu nome, me ameaça ou coisas afins.

Um pouco mais doloroso é quando pessoas de esquerda, ou autoproclamadas como esquerda, ignoram o minimo de racionalidade necessária, de educação política, de formação ou para repetir cartilhas produtivistas e frases soltas de Lênin, Marx ou Trotsky (Rosa não pode segundo o manual prático do super leninista), como se isso fosse marxista ou fosse instrumental teórico analítico.

Essas pessoas por vezes ignoram a questão ambiental, estupram a questão feminista, cagam pro anti-racismo e a anti-homofobia, ignoram… O que importa é a contradição capital x trabalho.

Muitas vezes sem fazer a ponte entre a tal contradição e a questão racial, de gênero ou de orientação sexual, muitas vezes pof incapacidade, outras por machismo, racismo e homofobia mesmo, mal disfarçada muitas vezes.

Me acostumei também a ser pobre, a ralar pra conseguir um micro, a trabalhar mais, a ganhar menos, a pegar ônibus, trem, a faltar grana, a não tomar cerveja quase nunca, a pedir emprestado dinheiro, a no fim do mês ficar com medo de não ter como pagar o aluguel.

A tudo isso me acostumei e me acostumei também a me ver a resistência alimentada pelo sentimento de raiva.

É, de raiva, porque é a raiva que me faz voltar pra enfrentar cada batalha dessas, inclusive as menores como as de pequenas vaidades imbecis que atravancam ações maiores.

É, de raiva.

Porque o que o mundo, eu ou outras pessoas fazem comigo me deixam puto. E eu reajo, me coloco, me exponho, por vezes sou julgado de forma calhorda, por vezes não, é do jogo da transparência. E sim, me acostumei a ter raiva.

Só que eu sou homem, branco, alto, com nível superior e ai o que pega é que minha raiva é composta de muitas armas e me dá uma certa tristeza, porque não tenho o gênero, a pele, a cor, a orientação sexual, a origem social erradas.

Ai não dá pra ter raiva, porque meu privilégio vem de tantos lados que me assusta o quanto perdemos tempo com coisas menores diante da necessária resistência primeiro em apoio a quem não tem a pele, a cor, o gênero, a orientação sexual, a classe certas.

Diante disso eu me dispo de mim, paro de ter raiva e me ponho a lutar.

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Um comentário sobre “A cor, o gênero, a classe, a orientação sexual e a raiva

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