Bonde

O País há cerca de vinte dias viu renascer sua tradição mais combativa, um impressionante e surpreendente ascenso de massas que se inicia em meio a uma modorra vinculada diretamente ao estatuto do fato consumado produzido pelas dinastias Tucanas e Petistas no poder há quase vinte anos.

O sentimento de que o caminho para a construção de um novo ascenso seria longo era quase que consensual na esquerda oposicionista, que jamais saiu das ruas, mas foi surpreendida pela feroz chegada à elas de novas gerações tão esperançosas quanto famintas de luta, assim como cansadas de velhos métodos, bandeiras e partidos.

Em dado momento parte da própria esquerda desentendeu-se com o que via e, muito pela ação organizada dos pequenos grupos fascistas, quase desistiu de voltar a seu palco natural. Porém mesmo esta logo apercebeu-se que é preciso ouvir as ruas, combater o fascismo (que não se discute, se destrói, como bem disse Coggiola) e avançar na disputa dessa massa imensa de gente multifacetada, diversificada e com pautas difusas, complexas e que devem ser entendidas.

Essa massa, que vem de uma longa doutrinação sobre sua característica passiva nunca comprovada por uma longa história de resistência e rebelião, sai às ruas e entende-se poderosa. E ao entender-se poderosa também entende-se consciente, se não como o tipo ideal de consciência de classe marxista, consciente de seus desejos de velocidade, de transformação e de poder.

Ao negar a doutrinação passivista, a massa reivindica a memória das revoltas anteriores e similar a elas, não se restringe aos desejos de paz que a elite através de seus jornais e TVs ecoa como se fosse um mantra didático, quando é um mantra apavorado pela perda de controle.

Assim como na revolta do Vintém, da Vacina, a revolta de hoje, apelidada como do Vinagre, contém em si a violência que vai muito além da provocação dos policiais infiltrados e da estética da violência dos grupamentos fascistas. Contém a violência entubada, engolida a seco por séculos de violências mil, policiais, econômicas e políticas que as populações sofrem cotidianamente na construção deste país inventado como Éden tropical em uma construção onde os alicerces se fizeram de sangue e ossos de negros, índios, mulheres e LGBTs, especialmente pobres e em geral pretos.

Essa violência cotidiana hoje se “democratizou” em parte ao assumir-se desfilante nas avenidas dos grandes centros, mas, como é claro, estava desde sempre nas periferias e favelas, e hoje, nesta mesma data de 25 de Junho de 2013, desfila com requintes de crueldade na Favela da Maré no Rio de Janeiro, onde a população sitiada recebe a visita do Estado em sua face ali mais conhecida: a da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que ali não usa balas de borracha.

Em resposta a essa violência oficial, a violência popular se parece com um pequeno veio, uma pequena parcela do que está guardado na memória de uma população tradicionalmente agredida e como uma resposta, ainda limitada ao arbítrio do Estado, o verdadeiro criminoso.

E é no meio deste ascenso que a própria periferia se ergue para além da Rio Branco, resistindo à sua forma em Campo Grande, Bangu e agora também na Rocinha e coloca o poder na parede. E estabelece pautas e faz mexer estruturas outrora guardadas no conforto da burocracia.

E exige o fim da PM, a reforma política, a reforma na saúde, na educação, a tarifa zero.

E se ergue e não para. Não adiantam paliativos a este cansaço, a este basta.

E é hora de estarmos a seu lado.

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