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Acaso um ser humano adulto durante os anos 1930 fosse transportado para 2013, seria difícil explicar pra ele que a História não foi um processo que deu uma vitória permanente ao conservadorismo e ao fascismo.

No Brasil especialmente a derrocada do PT de Esquerda, substituído pelo PT de Ex-querda que publica em redes sociais um “Vai pra cima dos índios!” em nome da defesa de um desenvolvimento erroneamente confundido com avanço imparável de uma locomotiva genocida, trouxe à baila com cumplicidade do Partido dos Trabalhadores, um samba de enredo ruim, evolução escabrosa e cuja harmonia não rima lé com cré rumo ao caos.

A marcha conservadora no Brasil não explica-se apenas por si mesma, explica-se pela cooperação feérica do Partido dos Trabalhadores em sua construção a partir do entendimento que construir uma governabilidade que o mantivesse no alto da gerência do capital, e do estado para o capital, saísse do plano da tática para o plano da estratégia, abandonava o posto de prática provisória, para tornar-se práxis, ou método permanente.

A lógica da governabilidade para a execução de uma atividade fim vinculada com a transformação do Brasil foi substituída por uma governabilidade executada para a execução de uma atividade meio que é a manutenção do aparato burocrático para o comando do Brasil.

O que antes era dito como “Precisamos governar para mudar a vida das pessoas” foi substituído por “Precisamos governar, mudamos a vida das pessoas” e essa construção não inclui apenas o entendimento do merecimento do status de governante, inclui antes de mais nada o entendimento da necessidade quase adicta de ocupar espaço burocrático para ostentar um poder que se entende como “desígnio” como “destino manifesto”.

Não à toa a relação próxima entre os empedernidos defensores do Governo Petista, e sua megalômana e leviatânica coalização governamental, se aproximam ao fanatismo fundamentalista religioso no entendimento de uma legitimação automática de todo e qualquer ato governamental dado que este é aquele escolhido para transformar o Brasil em um acelerado e transformador veículo de condução do progresso. O problema é que esse progresso só lembra avanço se o imaginarmos como uma máquina destruidora atropelando tudo à sua frente que não consegue ou conduzi-lo ou resistir a ele.

Para agravar essa lógica perversa a relação entre destino manifesto de ocupação do poder com a governabilidade a qualquer preço, a lógica da governabilidade e do inegável poder conquistado com méritos político-pragmáticos levou ao PT a abraçar com desenvoltura tudo o que lhe permitisse não só garantir um poder nunca visto antes em tempos democráticos sobre congresso, estados e municípios, como também minar o exército adversário através da tática de cooptação de lideranças que antes eram base tucana.

O exercício dessa cooptação levou à construção de alianças com a mais perversa direita e fundamentalistas religiosos em um processo que já estava em curso com relação a outras legendas, especialmente nas coalizações regionais, e que foi levado para dentro do PT que federalizou o processo regional. Com essa tática, o PT reduziu a oposição oficial, partidária, a quase zero, a natimorta, a um espantalho bobo que só assusta quem cai nos contos de fadas despolitizados que a claque brande mundo afora.

O problema da tática é que o PT virou inicialmente um refém de sua própria necessidade, sendo obrigada manter práticas que sua história renegava em nome do objetivo final de manter-se a todo custo no governo. E com essa ação ele acabou trazendo para dentro de seu arco de alianças a oposição que mantinha fora. Esse processo inicialmente fez o PT oscilar entre recuos e avanços da agenda dessa oposição intestina à suas bandeiras históricas, porém no decorrer do tempo o processo iniciado por Lula de assimilação das forças políticas que podiam gerar algum tipo de ruído (e que inicialmente compreendia a própria base social do PT, movimentos sociais,etc, cooptados sem dó nem piedade no decorrer dos anos Lula) passou da assimilação de nomes e partidos para a assimilação de programas e o que era externo ao PT, que engolia em nome de um projeto, virou o próprio PT, que agora tem inclusive entre seus quadros quem sustenta discursos similares ao mais abjeto fascismo de Malafaias, Bolsonaros e Felicianos.

E nesse processo o que se vê é a percepção por parte do PT e do Governo de que esta agenda conservadora e fascista não é uma agenda problemática e que os movimentos e pessoas que sustentaram a chegada do PT ao poder, e antes ao estágio de maior experiência da esquerda mundial, não são mais necessários.

O ataque aos direitos das minorias e o patrocínio de homofóbicos e suas políticas levados a cabo pelo PT são a marca disso. O ataque aos povos originários, indígenas e quilombolas, em prol do avanço do agronegócio não são efeitos colaterais da tática, são a própria tática, são a escolha de um lado, o do dito desenvolvimento do país, sendo que desenvolvimento é visto como crescimento de indicadores econômicos e não necessariamente de melhorias estruturais para a população brasileira, que se consome continua sem escola e saúde de qualidade.

E o que faz a oposição de esquerda nesse momento? Bem, considerando a gravidade do momento e a óbvia desconfiança para com toda a esquerda depois do que aprontou o menino PT, a esquerda até que aos trancos e barrancos consegue alguma unidade de ação que se não supera a fragmentação, supera o imobilismo. E esta esquerda possui um gigantesco desafio pela frente, que é superar o descrédito e mais, a metodologia que herdou da tradição socialista e também do próprio PT, da qual a maioria saiu.

Diante de um quadro onde lutadores de todas as origens que se referenciavam no PT, apoiavam o PT ou faziam parte de seus quadros, pedem pra sair, porque já não suportam o debácle do PT e o estupro de sua história em nome de uma governabilidade que só serve hoje para manter as íntimas relações entre os comissários e doadores de campanha, cabe à esquerda se reorganizar para ocupar mais celeremente o espaço deixado vago pelo ex-PT.

Alguns desafios são claros aos partidos e movimentos de esquerda: superar a formação flácida da maior parte da esquerda, que resume seu cotidiano teórico à reproduções acríticas dos escritos marxistas-leninistas, sem uma reflexão concreta sobre a teoria de Marx e seus comentadores através dos tempos em toda a sua abrangência; Ir além de Marx, compreendendo formação como mais que adestramento, mas como espaço de reflexão, de formação de capacidade analítica e para isso exigindo uma formação robusta com possibilidade de contraponto, de leitura do contrário para além do “precisamos compreender como o inimigo pensa”, mas sim “precisamos entender a amplitude de ferramentais teóricos à nossa disposição”; romper como viés burocrático de ocupação de espaço político pelo espaço, sem leitura estratégica da necessidade de trabalhos de longo prazo e portanto da necessidade de conquista da hegemonia político-ideológica, que passa pelo cultural; ir além do eleitoral, sem no entanto negar-se a ele não só como abertura de espaço de debate, mas como fundamentalidade da defesa de direitos adquiridos e populações marginalizadas e tidas como minoria, diferenciar-se do PT, diferenciar-se do possibilitismo da esquerda pós-anos 90, buscar ser “impossibilista’, acreditando na inovação, seja tecnológica, política, metodológica. Entendendo a necessidade de renovar linguagem e métodos, sem perder-se nisso como um fetiche “desmarxizador”, mas entendendo a necessidade de dialeticamente reconstruir o papel de transformadora que a esquerda possuía; A esquerda precisa ser também propositiva, porém não entendendo proposição com timidez, entendendo proposição com radicalismo, entendendo a discussão sobre políticas públicas questionando o cerne ideológico delas, não se prendendo e assustando quando ver o temor custo colocado como empecilho, sendo que custo é ali um entendimento neoliberal da ideia de política pública, como se o custo financeiro fosse mais importante que o custo social da imobilidade, isso se aplica muito na discussão sobre energia, quando brande o custo da energia solar como empecilho, sendo esse raciocínio ocultador também do custo não declarado das energias prioritárias para o capital, como nuclear e fóssil.

Enfim, há um longo desafio para as esquerdas pela frente, sejam elas as partidárias ou não, e para percorrer esse caminho é preciso agir, é preciso estar atento, forte, não há mais tempo de tremer às mortes.

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