SEM_AGUA_395825217O cotidiano do Carioca é iluminado por um sol escaldante, por balas escaldantes e por um calor que percorre ano a ano a cidade com requintes de crueldade pra quem não sofre o bafejar da brisa marítima full time em seu dia a dia.

O epíteto “cidade Maravilhosa” cantado em verso e prosa no ufanismo abestado de nosostros esconde omissões e ironias. Omissões dado que escondem que esta cidade maravilhosa representa o erguer da cidade aburguesada da Zona Sul-Centro por um Pereira Passos, que ao demolir as ruas de um Rio antigo em busca da superação da colônia, não só demoliu e “modernizou” a cidade, como enviou vagas e vagas de pobres às distâncias dos subúrbios, zonas rurais da época (atual zona oeste) ou encostas das quais historicamente estes pobres eram atingidos por deslizamentos, frutos das fortes chuvas anuais, e ainda eram culpados disso pelos veículos de comunicação e pelo poder público, como ainda são.

imagesEnquanto a mídia carioca bovinamente e bovinizantemente canta loas à sua “cidade maravilhosa” todo dia falta água, todo dia falta luz, como já dizia a piada histórica que o povo suburbano cantava em paródia à famosa marcha também chamada “Cidade Maravilhosa” ao dizer “Cidade Maravilhosa cheia de porcaria, de dia falta água, de noite falta energia”.

É claro que a crítica honesta e irônica do povo carioca, tradicional veia de resistência de quem tanto sofre/sofreu nas mãos de um poder público que emulava/emula a feitoria da época da escravidão, é bem vinda, só que essa ironia também esconde uma certa parcimônia com o lidar com os conflitos inerentes à ausência de serviços públicos dignos, nem cobro de qualidade apenas dignos, a toda a massa que além do túnel Rebouças repousa seu status de maioria da população em uma cidade aquilombada, abandonada e deixada à própria sorte da manha, da graça, da raça e dos dribles necessários à truculência da polícia, da milícia, do medo, da dor.

EnergiaEssa parcimônia não veio do nada, não veio de uma característica inata, “natural”, de um povo, nem tampouco é fruto do encanto pelo belo quadro geográfico que nos cerca, mas é fruto também de violências e sevícias históricas que um povo dolorido é submetido desde antes de uma Revolta da Vacina quase oculta da história.

images (1)Essa parcimônia é fruto da pesada carga de convencimento e malandragens da resistência cotidiana que em suas próprias regras e formas dá um jeito de subjugar o público em torno de negociações semi-privadas, ou de uma privatização coletiva e marginal, feitas em uma quase leitura popular do liberalismo histórico que cerca o projeto de cidade nascido com a República.

Se o poder é liberal em sua robusta política de Robin Hood ao contrário, construída em torno da privatização da res publica em prol de sua transformação em síndico da zona sul sociológica, o povo é liberal na tradução de uma única forma real de combate a seu abandono: cria-se leis próprias que abraçam a coletividade em torno de gatos, de fechamentos de rua, de festas barulhentas, de fogos, de kombis e vans, de mutretas, de malandragens, de controle social comunitário da vida cotidiana.

sergio-cabralEssa tradução do liberalismo do poder é óbvio que não cabe apenas em boas iniciativas, também alimenta o ilegal e violento esporte das milícias e tráficos. Também alimenta clientelismos, trocas, fisiologismos. Essa tradução torna o Rio de Janeiro uma cidade bárbara, que alimenta a morte de Traficantes Matemáticos como se fosse troco de bala, e assassinatos de líderes comunitários, crianças, como efeito colateral da necessidade de manutenção da máquina de uma (in) segurança protetora das fronteiras da orla e cuja lei naturalizada pós-túnel Rebouças repousa no altar do “é assim mesmo”.

Enquanto isso a cidade convive com a considerável piora do já imenso descaso de serviços públicos como Light, Net, CEDAE com o lado que menos importa da cidade, o lado que turista não vê.

images (4)Enquanto isso o prefeito se esconde, o Governador se omite, a sociedade assiste sem reação à manipulação cotidiana de suas principais emissoras de TV, dos principais jornais, mas todos gritam em uníssono “imagina a festa”.

Não há luz no fim do túnel, não há luz após o túnel, nem água, nem dignidade possível, nem transporte, nem escola, nem saúde, muito menos paz.

images (5)A pacificação prometida é ocupação, a modernização prometida não é para o nosso bico.

Há parques, mas não há água. Há parques, mas não há energia e pra festa, desculpem, não fomos convidados.

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