imagesNão nasci de pele preta, mas encantado com as pretas formas, línguas, mundos, deuses, sons, me empreteci como pretejido de um Itamar Assumpção que desconhecia ainda nos idos de 1988 quando vi “Tenda dos Milagres” em uma tela de TV.

Em “Tenda dos Milagres” enxerguei o Orixá do Anúncio visto pela Ialorixá cantada pro Caetano em “Santa Clara Padroeira da Televisão”. Em “Tenda dos Milagres” me reconheci preto.

Naquela época o primeiro impacto do que entendia como minha gente foi o entendimento pela fé que Xangô, Ogum, Oxóssi, Logun-Edé, Oxum e Iansã falavam mais pra mim do que Jesus e seus santos.

escravatura no BrasilUm segundo impacto foi quando já militante entendi que aquela opressão aos escravos em 1888 permanecia numa chibata de classe, numa chibata genocida, legal, instituída, protegida por uma estrutura cruel, violenta e que só seria removida com a espada de um Ogum feita de raça, graça, manha e tambor.

images (1)Eram idos de 1992 e um irmão de santo foi expulso de sala de aula por uma professora por estar com quelê, lenço amarrado na cabeça recém-feita para Ogum. Ali eu era apenas um irado e irracional estudante branco incapaz de entender com clareza o porque tanto me ofendia aquela estupidez, aquela ação imbecil. Ali eu me sentia ofendido, cruelmente ofendido e não apenas na sutileza da superfície da indignação racional, ali em me sentia chicoteado na cara, na alma, na fé, na história. Ali eu decidi ser preto.

Óbvio que essa decisão não me torna preto, não no sentido crasso, não no irmanar do ônus e do bônus, a mim é fácil fugir dos estereótipos pejorativos ligados ao negro, a mim é permitido desistir quando necessário, da pele preta. A mim, por ter a pele branca, foi dado o bônus da possibilidade covarde da omissão.

images (3)Porém no seio do que eu sou a decisão de ser preto se mantém, quando vejo o orixá no anúncio, quando ouço o trovão e tenho medo, amor, vontade de ser chuva, quando vejo na encruzilhada a proteção contra o mal e o mal que me é arma contra meus inimigos. A decisão de ser preto me deu o olho do que eu não via, o ouvido do que não ouvia, o som das pedras, da cachoeira distante, o medo, o horror, o dom, a glória e sobretudo a empatia, o ser o outro que nunca fui.

images (2)Quando me tornei preto me tornei gente, me tornei gay, me tornei mulher, me tornei sindrômico, me tornei transsexual, me tornei peão, me tornei lumpem, me tornei eu. Meu primeiro passo pra me despir dos privilégios que me eram facultados foi dado a partir de um Ojuobá de Jorge Amado descrito por uma irreconhecível Rede globo em Horário nobre, o passo definitivo veio pela resistência ante o preconceito racista de uma imbecil e os demais se fizeram pelo estudo e pela luta.

Hoje ainda me sinto perdido em meio a aproximação concreta da luta anti-racista via companheiros do Instituto Búzios e via partido, porque por mais que a decisão tenha sido concreta, o ser preto por decisão e não por condição objetiva não me permite o ser completo. Sou mutilado da inexistência da negritude de per si.

E lendo e relendo as abolições nunca vindas completas, sempre apartadas da realidade pela resistência absoluta da sociedade a permitir que seus privilégios, chibatas, senzalas, sejam demolidas, me vejo perdido na liberdade opressiva dos que se sentem senhores.

1192741358_fDesabolido da liberdade de resistir me sinto morto, morto na necessidade meio brocha de subjugar alguém acorrentado ou por masmorras ou por misérias, ou por uma lógica redutora de quem não é branco como o resto da matilha é reles coisa.

Se não tenho a existência da negritude de per si, ao me ver branco sofro a desabolição da escravidão, me sinto senhor, e ai me sinto cativo em uma rede de miasmas, de crimes, de castrações, de medos, de falsa evolução, de falsa hegemonia, uma hegemonia de cetro e não de pleno direito a si mesmo.

Na desabolição de mim mesmo, na desabolição da negritude emprestada me vejo como a mediocridade de uma superioridade dependente de guardas armados, de feitores, de padres, ignorante do outro, dos songai, dos malineses, dos ganeses, dos iorubá, dos ashanti, dos daomé.

Ao me desabolir da negritude e retornar à condição de uma superioridade mantida a fórceps da limitação do outro por trapaças e preconceitos, me sinto morto, morto na negação da África e ai morto na negação de mim.

osvaldo-cruz-29Ao me desabolir me sinto menos Prata Preta e mais Pereira Passos, menos Osvaldão e mais Médici. Menos Zumbi e mais Domingos Jorge Velho, e me sinto menor, mais morto, mais torto, menos gente.

Nesse treze de maio, um treze que comemora um documento assinado que foi fruto de sangue, manha e dança, luta e amor, horror e suor de pretos e pretas que em trezentos anos de escravidão conquistaram a ferro e fogo seus direitos escritos ou não, ainda vemos a chibata broxa do senhor branco retirando demarcação de terras indígenas e quilombolas, tornando aquele documento saudoso em mais um de tantos outros documentos assinados com a tinta ficcional do poder, uma tinta que não concretiza o viver dos homens, que não vai além da lorota que as elites contam para si mesmas para fingirem que dormem tranquilas.

Nesse treze de maio vimos Hoffmans e Roussefs, que representariam o passo adiante da abolição definitiva, mostrarem a desabolição da vida política, indo além de nossos piores pesadelos, indo além do que nosso inimigos anteriores nos causaram, indo além do que nosso medo de mais uma traição permitia sonhar.

osvaldo-cruz-32-thumb-1E nesse treze me lembro de Zumbi, me lembro de Prata Preta, me lembro de Oxóssi dizendo “Eu sou Oxóssi, comigo ninguém acaba!” e me sonho preto, e me espero preto, para que um dia a mancha de ser branco suma do corpo, da alma, em uma vitiligo ao contrário, uma vitiligo causada por um desejo de desenbranquecimento, para que a verdadeira abolição chegue pra todos, pra mim, pra ti, pra todo o Xirê.

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Um comentário sobre “A desabolição

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