Eu carrego comigo coragem, dinheiro e bala”

Chico Science

 VILA_-~1

Um dos processos fundamentais da luta cotidiana é a humanização delas.

A quantidade de lutas, as escaramuças, o cotidiano, nos dá muitas vezes leituras duras do dia a dia, até porque ele é duro mesmo, porém sem que entendamos que somos humanos a construção destas mesmas lutas se dá no plano do embate antes de ser no plano do diálogo. E quando o diálogo vira embate, o debate é tratado como guerra, o diálogo é mal traduzido como capitulação.

Se confunde muitas vezes radicalismo com intransigência e monolitismo imóvel. A leitura muitas vezes é tomada como um escândalo, posições prévias viram julgamentos de textos e falas sem que o teor de ambos seja assumido como necessário ou como diálogo, por vezes nem lidos ou ouvidos são. Isso à esquerda e à direita.

dvd-terra-e-liberdade-do-consagrado-diretor-ken-loach_MLB-O-103762238_7342Um texto que reflita sobre o PSOL é lido como ataque ao PSOL, um texto que reflita sobre o PT idem. Falar sobre evangélicos tentando mostrar que Evangélicos é muita gente é lido por “radicais” como apoio ao conservadorismo, quando só reflete a complexidade do quadro. E muitas vezes num “radicalismo” flutuante, solto, que nunca paga o ônus de suas posições flexíveis na demarcação de posições “radicais” de francoatiradores, o discurso de embate ganha fãs, apegados na espetacularização da luta política antes de sua construção.

A tal sociedade do espetáculo de Debord tem muitos fãs no cotidiano político cuja teatralização espetacular é superior muitas vezes ao cálculo necessário para que a luta seja humana, objetiva e construtiva.

fotoIsso vale tanto pro Senador que se diz de esquerda e faz aliança como DEM pra ganhar prefeituras, quanto pro mandato que prefere optar por uma suposta postura de “equilíbrio” ancorado em um institucional opressor, quanto pra blogueiros ferozes e comodamente “soltos” e autonomistas e anarquistas que em nome de uma “radicalismo” teatral optam por fechar-se ao diálogo coletivo com todas as forças presentes em um ato e partem pra um conflito desigual com a polícia, por vezes expondo quem tá ali sem nenhuma disposição pro pau.

Como advento das redes sociais então o coro dos contentes e dos descontentes adeptos do “radicalismo” sem ônus, sem preço, sem objetivo, estratégia que fuja do ganho imediato, eleitoral ou não, de adeptos, fãs, seguidores de twitter e audiência neste espetáculo cotidiano de uma dita política sem muita política cotidiana.

E quando digo política cotidiana não chamo ninguém de militante virtual, há militância séria na virtualidade que constrói pra fora, que vai além do publicitário.

Em um mundo de slogans o binário toma conta, a profundidade das coisas se revela pueril e chata “estratégia para promoção” de quem por vezes só tenta organizar atos, lutas, seja partidário , autonomista, independente ou apenas bem intencionado.

gonzaguinharapaziadaA questão de classe fica oculta por vezes em posturas ditas políticas que são só um arremedo intelectualizado de pré conceito, seja com relação a religiões, seja com evangélicos, seja com o povo mesmo, os movimentos por DH,etc.

E ai é “esquerdista” comparando evangélico a viciado em drogas, autonomista dizendo que partido só serve pra pedir voto, partido político e organizações socialistas dizendo que a luta por DH é menor, “questão individual”, que LGBT, Mulheres, anti-racismo e meio ambiente são questões menores diante da poderosa, soberana, “luta de classes revolucionária” tão distante de Marx e do conceito marxista de luta de classes quanto a prática política é distante de Papai Noel.

No plano do espetáculo se despreza uma luta cotidiana que vai além de reuniões, de tomadas de posições, de passeatas, nuclearização, atos, mas que é um cotidiano mesmo, com seus preços diários, com seus cansaços, brigas domésticas, preços por não ser homofóbico, ecocapitalista, machista, cissexista, pelego.

No plano do espetáculo se esquece o cotidiano meio bandido de quem se jogou na luta e tem preços a pagar e preços não em reais, mas em esforço, em entrega. Se esquece a marginalização de quem não está num coro meio patrocinado, ou paitrocinado, de contentes ou descontentes, na cômoda posição de quem pode desradicalizar em algum dado momento quando cansar “deste país de merda” ou da praça querida, ou do partido, ou da banda, ou do palco.

Quem tá na luta todo dia, numa espécie de banditismo por uma questão de classe, que talvez nem sempre metaforicamente carrega consigo “coragem, dinheiro e bala”, e paga os preços com seu amor, com seu filho, com seu cachorro, com sua fome, com sua sede (De água, de álcool, de riso), talvez saiba que em cada morro “uma história diferente e a política mata gente inocente”.

land_and_freedomQuem tá na luta todo dia não se surpreende em saber que por vezes “quem era inocente hoje já virou bandido para poder comer um pedaço de pão todo fodido”, porque é fácil entender isso quando a lusitana roda e tudo o que se tem é uma coragem cansada e uma certeza que nada disso foi em vão.

Quando se tá na luta é pra se queimar, como diria Vicente Matheus, e nesse meio desespero corajoso dos surtados que não se esquecem de quem são, de humanos, de doloridos humanos fumantes, bêbados, poetas, amantes, que apesar disso optam pela imensa responsabilidade de se olhar bem fundo até o dedão do pé, com toda dor e prazer que isso tem, e se mantém vivos, lutando, construindo, para além de si, para além da utopia, mas por entender a gigantesca necessidade de mudar o mundo.

Talvez nós humanos sejamos despreparados, talvez.. talvez não tenhamos lugar na objetiva espetacularização do simbólico, do cotidiano fácil dos que optam por política como hobbie, talvez.. Mas nós estamos pelaí.

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