images7Feliciano fez muita coisa pra levantar bundas das cadeiras da militância virtual. Na trajetória na direção da conquista da CDHM da Câmara, que li outro dia que foi o maior cargo assumido pelo PSC na história da república, o Pastor dublê de deputado pisou em muitas mãos, acordos, noções, sensos, entendimentos, culturas, minorias e bom senso.

Se à primeira vista Feliciano conquistou algum sucesso ao catalisar todo o arcabouço de intolerância reacionária sobre seu nome, alegrando os demais fundamentalistas de seu partido que miraram ai o sucesso eleitoral arrastando outros iguais, em um segundo momento a falta de mediação do Deputado-pastor levaram a um recuo de setores conservadores que entenderam que limites estavam sendo ultrapassados até pra eles.

imagesO que parecia ser um alento para que escoasse o chorume racista e homofóbico da sociedade brasileira traduzido em votos começou a exalar o cheiro de uma podridão que tradicionalmente é colocada em formatos mais próximos à educação alimentada com gagau de uma elite branca afeita a maneirismos europeus decorada com consumismo estadunidense. E este mal cheiro incomoda as festas dos Cowntries, das cervejarias que tocam Paula Fernandes e às quadras de Squash.

financesSe Noé amaldiçoou Cam na Bíblia, a repetição ad infinitum disto como arma para a atração do conservadorismo para suas urnas deu a Feliciano uma maldição do cão ao colocar em seu pescoço o cartaz da insatisfação que percorreu os setores médios da sociedade e não convenceram aos setores mais pobres que aquela menção a Noé não era racismo. Feliciano virou mais que um defensor da Família, virou o estereótipo boquirroto do sujeito que chuta a santa, do que humilha a mãe do aluno cotista ao fazê-la entrar no elevador de serviço.

Esta ausência de senso, de cálculo político, não garante que Feliciano e seu PSC não tenham sucesso nas urnas, mas restringem o tamanho destes no âmbito da possibilidade de ocupação de posições na institucionalidade. Pra ir além de mandatos de deputado é preciso distensionar radicalismos e avançar em mediações e o PSC age como seita à direita, ocultando-se no gueto obscurantista, como um PCO com sinal contrário. Vejam onde está o PCO e tirem suas conclusões. Se isso não garante nem 2014 que o PSC perca seu papel ainda funcional nos arcos de alianças do poder, a insistência nesta fórmula tende a fazê-lo no futuro.

images5Outras questões também surgem no caso Feliciano e para outros aspectos do campo ideológico da política Brasileira e uma das mais importantes é a da dificuldade de entendimento do problema como um problema político de espectro variado e não só um “desvio da fé verdadeira”.

A esquerda tradicionalmente tem dificuldade de lidar com as religiões, as militâncias de Gênero e LGBT mais ainda, dado que são as vítimas prioritárias do ódio religioso fundamentalistas. Ao juntar o “Religião é o ópio do povo” com a reação dos atacados, a bomba atômica que se gera tem efeitos bastante danosos na construção de uma resistência duradoura ao avanço conservador.

A primeira coisa que assusta é o entendimento da teologia da prosperidade para além dos preconceitos que a envolvem e da tradição protestante. Ao comprar a dicotomia alimentada pelas próprias denominações protestantes em sua disputa intestina sobre o domínio da “pureza da verdadeira fé”, parte dos ativistas acaba comprando a briga da desqualificação de uma teologia sobre a outra e um lado numa disputa que se é aceitável como tática política anti-obscurantista não pode se tornar um hábito que contamine a análise e impeça o entendimento da legitimidade de qualquer viés teológico enquanto parte da fé.

puritanosSe a teologia da prosperidade é diferente de teologias mais libertárias e portanto é um elemento teológico conservador que isso seja dito sem no entanto reduzir sua legitimidade enquanto teologia como menos pura em comparação com outras vertentes. Se a Teologia da Prosperidade é alinhada com o avanço conservador que seja combatida politicamente pelo ataque ao estado laico e não porque é dispare teologicamente com relação a outras vertentes.

A teologia da prosperidade tem tanta legitimidade quanto a teologia da libertação, lados opostos da interpretação teológica do cristianismo, e esta legitimidade é dada primeiramente pelos fiéis que as adotam e também pela própria liberdade de interpretação das escrituras conquistados no pós-reforma e que até ao Vaticano influenciou.

MaxWeber2A teologia da prosperidade inclusive é claramente uma adequação ao mundo capitalista de hoje da ética protestante presente no espírito do capitalismo conforme apontado por Weber. Se Weber não previu que a teologia da prosperidade seria uma feroz defensora do consumismo e do sucesso aparente, da felicidade como um dado que deve transparecer, ele também não havia previsto que o conjunto de valores que sustentam o capital se transformaria em uma nova lógica publicitária, especulativa. Weber aliás não previu nada, analisou o mundo à sua época e percebeu a vinculação direta entre Capitalismo e Protestantismo.

A própria lógica de ocupação de cargos públicos e atuação para que a lógica protestante, seja neopentecostal ou não, seja um dado absorvido pelo estado tá ali e tá no destino manifesto, na predestinação protestante ao sucesso,que hoje com roupa nova embarcam na teologia da prosperidade. Ou seja, a teologia da prosperidade avança numa leitura da fé e numa “linhagem,” ideológica vinculada à religião não exatamente fora do que o Calvinismo pregava.

Como já escrevi em outro texto: A teologia da Prosperidade é uma leitura do capitalismo de hoje a partir da fé, como antes o mesmo protestantismo foi uma leitura pelo capitalismo e esteio ideológico deste no âmbito da fé, dos aparatos de dominação e hegemonia ideológica. A teologia da Prosperidade é pro capitalismo de hoje o que os puritanos estadunidenses forma na formação das treze colônias. Não à toa os ramos que formaram o neopentecostalismo vieram dos EUA.

tio-patinhasAssim a Teologia da Prosperidade tem o mesmo valor teológico que o Anglicanismo ou o Luteranismo ou o Presbiterianismo, não pode ser colocada como uma fé menor ou distorcida, o que não significa que não possa ser combatida. Só que combater a teologia da prosperidade não muda o fato que é uma manifestação pela fé de uma lógica ideológica fundada no sistema capitalista, ancorada nele. Torná-la “ilegitima” ou “distorcida”, não muda o fato dela ser um elemento de aglutinação e doutrinação ideológica capitalista. Usar outras denominações para colocá-la como “ilegítima” e “distorcida” não muda o eixo que pouco interessa politicamente de desqualificação intestina e briga por uma “verdade” e “pureza” que só interessa e funciona dentro dos que acredita naquele conjunto de normas e valores chamado religião protestante.

Combater a teologia da prosperidade a partir do plano teológico e valorativo, dando a ela o valor de teologia ruim, só é repetir com sinal inverso o acirramento surdo-mudo que Feliciano faz, o mesmo preconceito. Atribuir a uma forma pensamento a pecha de “ilegítima” e isso porque “pede dinheiro aos fiéis”, ignorando que os fiéis conscientemente, sem estarem drogados ou hipnotizados, entendem aquilo como legítimo, se baseando na noção de legitimidade de denominações religiosos “adversárias” não ajuda a compreender a estrutura de construção POLÍTICA daquele aparato de reprodução de ideologia chamado religião pelo viés da teologia da prosperidade, configura o assumir de um preconceito de outrem e pouco auxilia ao combate a ela.

images6Se o combate à teologia da prosperidade fosse feito através do eixo da reprodução de preconceitos que ela o faz, e quando o faz, e pela via LAICA, ou seja, abrindo mão do uso valorativo da outras vertentes teológicas para desqualificá-la, mas usando o âmbito do direito para a discussão, o combate paulatinamente muda de figura e tende a conquistar adeptos até dentro do eixo da teologia da prosperidade.

Ao deixar de assumir discurso alheio de transformação da teologia da prosperidade em todos os males do mundo, mas entendendo-a como um elemento legítimo do mundo e que se alinha POLITICAMENTE à ala mais reacionária do contexto político Brasileiro, colocamos nas mãos e ombros dos próprios teólogos da prosperidade a responsabilidade sobre a guinada conservadora que parte deles faz, os responsabilizamos por isso, dando a eles parte da conta que Feliciano produz em suas declarações.

images3A legitimidade ou não da Teologia da Prosperidade deixa de ser a questão, deixa de aglutinar em apoio à teologia o mar de complexidade que a compõe e tensiona-a internamente, colocando em discussão interna a eles todo o espectro de responsabilidades que deve ser dividido pro todos eles e que nem sempre é assumida como verdade por todos eles. Ou seja, a IURD pró-aborto e claudicante no combate à homossexualidade passa a ser alinhada à mais feroz misoginia e homofobia do PSC, dos Felicianos. Ela o quer? Duvido.

Tomar uma posição e um juízo de valor enquanto posição pessoal não pode contaminar a análise, não pode cegar às responsabilidades do que dizemos e pensamos, da tática para combater o avanço conservador, sob pena de desqualificar a luta como um todo e diminuir o problema estrutural que gera a Teologia da Prosperidade.

images8Tratar com preconceito com sinal trocado a fé alheia não ajuda a combater o preconceito contra orientação sexual, raça ou gênero. Ao colocar um juízo de valor, o julgamento, de que uma teologia é “distorcida”, “Falsa”, qual a diferença que criamos com quem trata orientação sexual como “moda” ou algo que pode “transformar nossos filhos em gays”?. Tratar uma denominação religiosa como “Falsa”, “feita de estelionatários” também não é desprezar o tamanho e o peso, numérico até, dos que a abraçam e optar por erguer um muro maior do que o que já há entre nós e eles, impedindo qualquer tipo de construção de uma cunha no conservadorismo que ali brota?

images2Ignorar que a teologia da prosperidade mobiliza milhões e chamá-la de falsa não é ignorar também que estes milhões se sentem atingidos por estas adjetivações assim como todo ativista libertário se sente ofendido pelos absurdos de Feliciano? Esse sentimento não ajuda a diminuir a possibilidade de convencimento da sociedade Brasileira, composta pro um grande número de evangélicos e com maioria deles parte de denominações relacionadas com a Teologia da Prosperidade? Ao tratar toda a Teologia da Prosperidade como falsa, e como feita de Felicianos, que tipo de diálogo se põe para os setores médios destas denominações? Colocar todos no mesmo balaio não me parece sábio.

Até porque a opção de tornar o palco religioso como o palco principal do festival garante um belo espantalho para todo o resto do eixo de combate contra o avanço do conservadorismo, que não é só religioso e comportamental, mas também econômico, ambiental e legal.

Enquanto combatemos exclusivamente a teologia da prosperidade os Blairo Maggies assumem as comissões de meio ambiente do Senado, o pau come contra índios na aldeia Maracanã e o capitalismo, pai dileto da Teologia da Prosperidade, continua com suas remoções, sua política de segurança racista,etc. Além disso, a homofobia disfarçada da política do Governo Dilma, segue em seu misto de recuo com omissão enquanto satanizamos a teologia da prosperidade e segue a aliança entre a máquina estatal e o ruralismo concedendo migalhas ao fundamentalismo religioso como artifício de divisão dos movimentos sociais que centrando suas energias num ponto deixam correr solta a política de pau no lombo dos que ainda se levantam pra combater Belos Montes.

images4É claro que o combate a Feliciano deve continuar, mas indo além, combatendo também quem o pôs lá e não só o PT, mas a aliança entre PT e o Ruralismo, Bolsonaros, todos os que fazem parte de uma base de sustentação não do Governo, mas de um projeto de capitalismo que se faz presente na lógica de cidade mercadoria e de Estado como secretário de empreiteira.

Para que esse combate se amplie precisamos xingar menos o fiel da assembleia de Deus, que é removido da favela ou que faz parte do MST, de idiota, ilegítimo e distorcida, e procurar mostrar pra ele o quanto o pastor dele de alguma forma, mesmo sem querer, ajuda a manter a lógica econômica que o tira de casa, da terra e lhe deixa só com seu Deus pra resolver os problemas.

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