Por Gilson Moura Henrique Junior

 

81791-pengiumcaixaEm meio à paranóia reinante nas redes sociais após a constatação, óbvia até, de que são (e porque não seriam?) usadas para vigilância pro governos e afins, fica a pergunta à esquerda pensante (?) porque a discussão não gira em torno de outro aspecto das mesmas redes sociais, da internet como um todo e de como nos relacionamos publicamente via redes sociais, apesar da vigilância.

Em um mundo conectado cuja miríade de informações se presta desde a bobagens monumentais à reflexões importantíssimas, capilaridade de informação, criação de redes concretas de contato e agitação e propaganda, a esquerda ou age de forma levemente bovina às redes sociais, inclusive quando atua como protagonista das ações nestas redes, enquanto utilizadores da ferramenta, ou atua de forma levemente avessa à tecnologia tendo a mão o já manjado, e até certo ponto tosco, argumento de que a tecnologia está à serviço da vigilância.

Digo bovina porque à esquerda se abre demandas de debate a respeito da tecnologia que vão desde a maximização do uso das redes como ferramenta de profunda necessidade em um mundo conectado e cujas campanhas político-eleitorais custam muito caro, e onde imprimir jornais ou ter espaço em TVs é quase um mito diante da óbvia censura não oficial à ideias que fujam do pensamento único neo liberal ou social liberal, até à própria lógica de quebra de monopólios via software livre e à própria construção de novas realidades no plano tecnológico cuja plataforma colaborativa está muito além de ser uma utopia distante e se torna uma realidade concreta.

Aaron_SwartzSob o medo-pânico da vigilância de governos se perde um flanco do debate político que não é simplesmente uma oportunidade, mas um aspecto político da realidade cotidiana negligenciado enormemente pro uma esquerda que se pretende nova, mas que é ultrapassada por discursos liberais que se prendem por demais no compartilhamento de arquivos como revolucionário, perdendo o eixo revolucionário prático de ir além disso, mas de ir na direção da transformação produtiva que se permite fazer diante das novas tecnologias.

Enquanto se prendem na discussão da vigilância se esquecem de que a própria ação de governos para impedir o compartilhamento de arquivos, onde o mártir Aaron Schwartz por vezes soa em certos discursos como mártir determinista do fracasso, falhou miseravelmente pela dinâmica de redes e ações militantes pela democratização das redes e da própria produção de software ser muito mais ampla do que sonha a vã filosofia dos estamentos estatais de repressão. E se o aparato estatal de repressão falhou na manutenção do status quo da indústria cultural, mesmo agindo com toda a força que o poder de polícia permite, porque não estaria também falhando no monitoramento da miríade de ações políticas, de ativistas e grupamentos que usam a rede como porto seguro da difusão de conteúdo revolucionário?

Diante disso por que não procurar entender a nova dinâmica tecnológico-produtiva, a questão dos software livres inclusa, além dos cabrestos do manual prático do super-leninista?

imagesEstamos diante de diversas frentes de debate que vão desde a reestruturação predatória do mundo do trabalho, onde se trabalha mais e se ganha cada vez menos, até a dinâmica da produção de softwares open source que estão mudando a cara do mundo tecnológico até para além do mundo googlado em que vivemos.

Vemos paulatinamente os sistemas operacionais baseados em linux irem bastante além do esperado na flexibilização de monopólios de produção de software, levando a softwares proprietários a perderem paulatinamente presença no mundo corporativo, como também no mundo dos usuários comuns.

Vemos as redes sociais fugirem dos controle censor de governos e proprietários das mesmas redes e agindo como elemento primordial da ação política e tendo efeito para além do cômputo geral em votos, embora o peso eleitoral do uso da rede não seja absolutamente desprezível e talvez permita um acréscimo de peso constante até a hegemonia do uso destes veículos como ferramentas de campanha.

Os exemplos inclusive que tiram das redes a pecha de “ativismo de sofá” podem ir muito além da Primavera Árabe ou dos riots de Londres, ou dos indignados da Espanha. Há uma série de exemplos que seriam impossíveis de listar em sua totalidade, mas que tem no caso Guarani Kaiowá um exemplo de como a ação virtual teve efeito prático no cotidiano e auxiliou a ação organizada no “mundo concreto” e que não pode ser desprezada.

Diante deste mundo de debates está uma massa de pessoas que nasceram imersos no mundo onde o virtual e o tecnológico é um eixo relacional, demanda mais que uma leve atenção superficial e já grita por soluções políticas de curto prazo e de argumentos embasados para disputar a hegemonia pela esquerda dessa massa.

simbolo_fislÉ em nome dessa massa que surgem “novos” partidos e movimentos buscando soluções mágicas fundadas no discurso que une uma novilíngua mudancista a uma ação prática mediadora e potencialmente conservador,a embora formatada na embalagem de uma modernidade publicitária.

E é em nome dessa massa que é preciso radicalizar a discussão e manter em vista a necessidade do marxismo moderno ter em mente muito mais que aspectos superficiais que tratam por exemplo o Ecossocialismo como “modismo” e que nos leva a uma “reestruturação produtiva economicamente primarista”.

O pulo dos softwares livres e das redes para o Ecossocialismo não foi à toa, é por que as mudanças tecnológicas também permitem uma reestruturação produtiva que tenha um perfil de ampliar ações ecossocialistas, redutoras de ação econômica predatória e amplamente discutidas sob a lógica de uma horizontalização do debate político, libertador e libertário, que una o “Eco” com o socialismo inclusive tendo em vista a ecologia das organizações, cidades e sociedades.

Em resumo é preciso ir além da liberdade aparente da democracia burguesa e das estruturas rígidas no sentido hierárquico e que tomem uma forma de rede similar ao que se faz nas estruturas desenvolvedoras de softwares livres, das organizações de movimentos via redes sociais e que assumam um caráter radicalmente democrático, no sentido da democracia revolucionária.

O Software é livre porque há uma atividade de libertação em sua criação para a distribuição e compartilhamento, mas ele precisa ser livre para também ser uma parte integrante das revoluções necessárias para reestruturarmos a produção, a organização e a comunicação da sociedade.

software-livre-instituto-helio-teixeiraPrecisamos ter ativistas e ações integradas nas atividades que buscam a liberdade das redes e da utilização de softwares open source para que participemos ativamente destas transformações e a utilizemos tanto para o crescimento de nossas organizações como também para que a influência desta estrutura libertária de resistência ao corporativo e proprietário mundo tecnológico influencia uma democracia radical nos partidos e organizações revolucionárias.

É preciso que radicalmente observemos a liberdade tecnológica e lutemos para mantê-la e avançarmos nela para que não só o software seja livre.

Enquanto isso ao menos o Software é livre, precisamos agora também Sê-lo.

Anúncios

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s