Por Gilson Moura Junior

imagesExiste um problema na esquerda brasileira que exige de nós uma análise mais profunda que impressionismos localizados.

Há uma profunda necessidade de mudança estrutural na esquerda e esta mudança passa pela rediscussão teórica, passa pelo repensar da organização e pela opção consciente de manter uma relação com a institucionalidade burguesa com um profundo grau de autocrítica. Vou mais longe, é preciso que se reconstrua a discussão sobre o papel da democracia sob o ponto de vista da democracia burguesa e que exija também a manutenção da democracia como valor universal da esquerda, com a recondução dos valores democráticos conduzidos pela mão de um debate à esquerda.

A questão não é só de mudança estrutural do PSOL, mas da própria esquerda marxista no Brasil e talvez no mundo. Esta demanda inclusive é uma demanda que está dada é desde a queda do muro de Berlim.

Estamos tentando, estamos na luta, é preciso sim refletir sobre o papel do PSOL nisso, e mais, do papel da Esquerda pós-PT, da crise do socialismo no mundo. Não é só o PSOL, o PSOL é um dos elementos de uma crise até mundial da esquerda.

how_communism_worksA esquerda mundial está em crise, buscando rumo, desde os anos 90, desde o avanço do neoliberalismo e capitulação de parte da esquerda à social democracia. O PSOL faz parte disso com o agravante de ter sido alvo de duas tsunamis que atingiram a esquerda, a crise mundial da esquerda e a crise do PT.


O PSOL pode ser inclusive lido como fruto seminal da crise iniciada no meio dos anos 1990 dentro do PT e que junto com a crise mundial da esquerda marxista engessou boa parte dela no eleitoralismo e na luta institucional. Há inclusive o risco do PSOL nem superar isso, e um risco nada pequeno, caindo na vala comum da burocratização e cooptação do estado burguês como outras experiências mundo afora.

A lógica de que “precisamos sair do gueto” vem desta mudança ocorrida desde meados dos anos 1990 aqui no Brasil, via PT, da esquerda ancorar seu projeto na institucionalidade. Ai o sindical virou correia de transmissão do eleitoral, o Movimento Estudantil idem, o movimento Feminista idem e por ai vai. Até o MST de certa forma é atraído para esta lógica e se engendra de tal forma que se perde no imobilismo.


20120719032823_cv_randolfe_gdeNesse sentido a insistência de parte do PSOL, representada pela ala onde as referências são a Vereadora Marinor Brito e o Senador Randolfe Rodrigues, a respeito do sair do gueto é fruto da identificação do “sair do gueto” com sucesso eleitoral. Também confundem penetração e capilarização política com voto em eleição. Por isso o desespero e isso é um problema de fundo, fruto da miopia que não enxerga a necessidade de busca de construção de uma contra hegemonia e por isso repete como farsa os caminhos do PT.

Se perde a possibilidade de transformação e oxigenação das lutas, das organizações, para ampliar a participação popular e disputar mentes e corações com um neoliberalismo que no Brasil tá muito mais enraizado que em outras experiências, dado que como não se aprofundou tanto quanto na Argentina, por exemplo.

images2Na ânsia de obter o resultado eleitoral, visto como tática única, se acaba sendo absorvido pela hegemonia neoliberal, se é absorvido pelo mesmo viés do neoliberalismo que não é demonizado como antes depois de ser objetivamente confundido com ações “de esquerda” por uma máquina de propaganda do governo petista.

O Neoliberalismo mascarado por políticas de compensação assim se torna “palatável” e ao cair na busca do eleitoralismo puro e simples se opta por não contrapô-lo a partir de uma política de contra hegemonia, se opta por reduzir à critica a ele com pavor de perder um possível voto.

Por isso os governos do PT não são confrontados com uma resistência popular por terem mantido o eixo macroeconômico com ajustes de gestão do capitalismo para incluir programas de, tímida, redistribuição de renda. Por isso os governos do PT tem parte da oposição de esquerda a eles atuando timidamente no que tange à profundidade da crítica ao modelo de gestão do capital levado a cabo por eles.


prostituta01Por isso a busca de “sair do gueto” acaba se confundindo menos com uma busca de construção de um discurso contra hegemônico e mais com uma conquista de uma base social do PT dentro do discurso abraçado hoje pelo PT e pelo convencimento não pela oposição política, mas pela oposição moral, sem no entanto rediscutir estruturalmente a hegemonia neoliberal mantida pelo PT com reformas na forma.


Como o horizonte político de boa parte da esquerda se enraizou no eleitoral, na institucionalidade, a lógica passa a se basear na conquista da institucionalidade, de votos e de penetração eleitoral nos campos que o PT deixou pra trás, só que para isso não se pensa estruturalmente numa estratégica de contra hegemonia, se busca a reprodução para conquistar quem o PT perdeu sem modificar o discurso de forma a clivar a hegemonia ideológica mantida pelo PT.

“Sair do gueto” ai é ir pra galera, seguindo o fluxo, não buscando se opor a ele.


images4Além disso, há um aspecto que não se prende só no discurso de “sair do gueto”, poucas correntes do próprio PSOL e da esquerda pensam para além do eleitoral. Mesmo o PSTU, o mais radical dos partidos antes do limite do delírio do PCO, tem o marco eleitoral como âncora. E não sei se o problema é organização, no sentido de instâncias,etc.

Talvez o problema seja antes de tudo redefinição do papel da esquerda, discutir a fundo isso e mais além, definir de forma clara uma concepção de partido que funciona doa a quem doer no PSOL e de atuação de esquerda pra fora do PSOL.

Sem uma rediscussão profunda inclusive do próprio marxismo enquanto teoria política, repensando e reavaliando opções táticas tradicionalmente levadas a cabo por organizações, partidos e movimentos, especialmente enfatizando uma crítica da relação entre socialismo e estado, socialismo e meio ambiente, socialismo e gênero, socialismo e racismo e socialismo e democracia, a repetição como farsa das falhas anteriores não é um risco pequeno.

images3Sem uma profunda retomada do socialismo como bandeira estratégica e reformulado a partir da radicalização democrática e da reformulação à luz das contribuições teóricas historicamente construídas no plano do marxismo e com o acréscimo da crítica às obras de Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo levadas a cabo por teóricos que tem em vista as transformações por que passou o mundo desde o início do século XX e em especial pós-queda da URSS, sem isso a tendência é a permanência desta crise na esquerda e a manutenção de uma relação de repetição ad eternum da absorção pelo estado burguês e pelo capital de quem se propôs transformar a realidade.

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6 comentários sobre “A esquerda, o gueto, o PSOL e a galera

  1. A esquerda ainda sofre muito com o discurso do “fim da história”.
    O que está claro que é necessário um novo modelo de socialismo, que ao mesmo tempo resgate a essência marxiana, restituindo o vigor da teoria socialista e refunde um socialismo sem os mesmo vícios que acabaram por implodir o sistema soviético.
    Isso é uma necessidade internacional, concordo.
    Ótimo texto. Compartilho dessa tese.

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  2. Boa reflexão dom Gilson! Concordo que a esquerda socialista precisa, urgentemente, fazer uma discussão profunda sobre o papel estratégico na transformação radical da sociedade. Concordo também que o risco do PSOL cair de vez na rede da institucionalidade burguesa não é um “perigo pequeno”. Mas, pra mim, essa discussão não pode se dar a partir da “queda do muro de Berlim”. A queda final da burocracia estalinista nos países do ‘socialismo real” em 89 é uma consequência que tem sua causa ainda lá nos anos 20, na própria URSS, quando Lênin ainda estava vivo.No meu entendimento o erro intelectual dos revisionistas “frankfurtianos” pré e pós-estruturalismo, foi viajarem na maionese do teoricismo ao tentarem revisar o conceito marxista de modo de produção, taxando a análise de Marx de ‘economicista’ e de “positivista”. Enquanto que o problema não estava na teoria, mas na prática do “socialismo real”. E, na minha opinião, é essa “prática” que sob a luz da teoria marxista tem de ser rediscutida pelos “intelectuais da classe” ( no sentido gramsciano) e as organizações da esquerda socialista revolucionária. Até… parabéns… Fui.

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    1. Bem, eu coloquei os limites em 1989 por uma questão de referência direta pra crise de hoje e não sei se a origem tá lá, se é tão causa e efeito assim. Sobre a Escola de Frankfurt eu ahco válida a critica deles, até porque era preciso mediante a crise do estruturalismo como um todo e a crise do pensamento ocidental já no fim do XIX. Era preciso escarafunchar o barbudo.

      Aliás, o próprio Marx, se descobriu depois, fez uma critica a si mesmo em vários níveis e como era gênio permitiu releituras bem interessantes.

      Acho que tem duas coisas ai, a discussão da teoria, seja onde ocorrer, permite um avanço da teoria como um todo. Thompson era da inteligentsia e da classe, era orgânico e juntando tudo revolucionou a leitura de Marx.

      Concordo que o surgimento da burocratização da URSS surge nos anos 1920, só que para efeito histórico isso não causou a crise na esquerda, acho que nem mesmo a morte de Trotski. A critica à URSS já rola ao menos desde o fim dos anos 1950 e a meu ver rola uma crise na esquerda ai (O Eurocomunismo não surgiu ai?) , o problema é que ainda não se tinha domínio completo do que foi a URSS e como estava o quadro e com o fim do muro a implosão foi final, permitiu um avanço mais feroz do capital e a porrada foi feia. E tinha o lance da URSS obrigar ao capital a segurar a peteca, pra evitar dissenções internas quando as ditaduras não eram possíveis..

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