oscar-wilde (2)Quem somos?

Em nossa viagem pela Terra, parafraseando o inenarrável Pedro Bial em algum dos seus péssimos poemas declamados na longínqua e inóspita região do BBB, somos afeitos à transformações.

A coerência é uma virtude inata nos sem imaginação, correto estava Wilde, mas também é um refúgio não para a imobilidade monolítica da alma, mas para a busca de manter nestas transformações algum elo que nos mantenha a identidade, se não intacta, ao menos legível.

assentamento-milton-santosPara o terreno do símbolo, que é para a política quase uma definição de si mesma, a coerência é antes de mais nada a manutenção de seu significado através dos perigosos rumos que o tempo, este senhor tão bonito, traça para os cansados pés militantes.

Observar a coerência não é não mudar de ideia,mas ter a postura firme e transparente de conduzir estas transformações sem perder a meada do que se é. É possível transitar do comunismo ao neoliberalismo, ou agroruralismo, mantendo alguma coerência, vide o PCdoB, com e sem ironia ao mesmo tempo.

Ao PCdoB não é possível imputar incoerência sua da ida do produtivismo stalinista ao agroruralismo sino-brasileiro. É possível ver a ponte, é possível ver o caminhar das letras, das conjunturas, a leitura “desenvolvimentista” imune à “questiúnculas” de direitos, etnias, gêneros, raças. Porque parar o trator do progresso quando nós é quem o comandamos “em nome do povo”? Podemos até relativizar o “povo” ali incluído ou ironizarmos chamando este “povo” de “burocracia político-partidária neocomunista”, mas apontar incoerência não nos é possível, pois ela tá ali, cristalina, mesmo em meio ás transformações ardilosas do tempo.

assentamento-milton-santos_repNeste dia de nosso senhor de vinte e três de Janeiro de 2013 temos um exemplo contrário, onde a coerência foi mandada às favas e ressuscitou outro famoso autor chamado George Orwell, que ao escrever em 1948 o romance distópico “1984” cunhou o termo ‘novilíngua” para se referir aos usos da língua como arma de manipulação. A manipulação e a manutenção de uma linguagem “informativa” era useira e vezeira do malabarismo terminológico como ferramenta de qualificação de aliados e adversários do regime totalitário comandado pelo “Grande Irmão”, que posterior e ironicamente serviu de inspiração ao programa chamado Big Brother, que o incansável Bial comanda em Terras Brasilis.

images (1)A critica de Orwell era ao regime Stalinista em vigor na URSS, embora brilhantemente exposta em um romance de altíssima qualidade onde era desnecessária a afirmação direta para o entendimento. Esta lógica foi ressuscitada pelo neo-PT gestado pelo comissário José Dirceu no decorrer de seu processo de conquista do governo do estado burguês e da hegemonia eleitoral da dita esquerda, que paulatinamente foi vendo abandonadas suas bandeiras em nome da lógica de manutenção do aparato estatal recém-adquirido. De objeto de ação tática, conquistar o governo virou estratégia e para mantê-lo todas as armas são precisas, necessárias e usadas.

23jan2013--militantes-do-movimento-sem-terra-e-integrantes-do-assentamento-milton-santos-de-americana-sp-ocupam-o-instituto-lula-no-bairro-do-ipiranga-na-zona-sul-de-sao-paulo-para-protestar-1358941106850_956x500Neste dia de nosso senhor ocorreu a ocupação pelos assentados do Assentamento Mílton Santos, do instituto Lula. Imediatamente quase a tropa de choque virtual do Governismo/PT acusou o golpe tratando os ocupantes como “invasores”. Esta ação era esperada, dada a tarefa de manutenção do bloco monolítico de apoio ao governo em todos só níveis e à tática de rotulação dos “desviantes’ como “o inimigo”, e inimigo quando não é tucano ou democrata é “psolento”. O que surpreendeu foi o uso pelo presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, e pelo Assessor de comunicação do MST, Igor Felipe do termo “invasores” para atacar os ocupantes.

Ao usar o termo “invasores” ambos, MST e Okamoto, ultrapassaram os limites, o rubicão, e em nome da manutenção da novilíngua disseram a que veio: quem não apoia o governo, por mais justa que seja sua luta, é um “traidor”, porque o governo, mesmo sendo aliado do Agronegócio, o maior inimigo da reforma agrária, é a luz, a verdade e a vida.

1984-bbE na manutenção da novilíngua também se optou por manter Lula, maior figura pública do PT, como algo que não tem nada a ver com o PT, a presidenta do país, que é do PT, o INCRA, que faz parte do governo que é comandado pelo PT e é do ministério comandado pelo PT.

Lula apesar de ser a maior figura pública do PT é um espectro que ronda o PT e não influencia o PT. Você acredita? Pois é, nem eu.

E o desejo dos ocupantes, até ingênuo, de pressionar a maior figura pública do PT para talvez sensibilizar a presidenta do País e chefe maior do INCRA, e também figura pública do PT, virou “ação partidária”, “leviana” que “não faz sentido”, pois tocou este espectro, esta “alma penada” política chamada Luiz Ignácio Lula da Silva.

shepard_fairey_george_orwell_1984Mesmo tendo em mãos dados do próprio setor Agrário do PT na Câmara dos deputados e da Pastoral da Terra dos resultados pífios dos governos Lula/Dilma, na questão da reforma agrária, o MST e o PT preferiram a desqualificação da ação, digna da novilíngua criada por Orwell, como “partidária” e “do PSOL” a uma mea culpa sobre a reforma agrária e uma ação sensível aos desesperados e ameaçados de despejo assentados do Assentamento Mílton Santos.

Ao usar a novilíngua tanto o MST, quanto o PT atravessaram o rubicão, e também jogaram no colo do PSOL o preço da ação dos Assentados.

george-orwellAo PT e ao MST resta mandarem lembranças à coerência. Ao PSOL resta agradecer a si mesmo por mantê-la, a tal coerência, e à ambos, PT e MST, pela vital vinculação desta bela ação dos assentados do assentamento Mílton Santos ao partido.

É muito orgulho ser visto pelos adversários como responsável por tão bela e lutadora ação.

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Um comentário sobre “O baile da coerência e o Assentamento Mílton Santos

  1. Olá,

    Desculpe por estar publicando isso como um comentário. Não achei um local onde pudesse mandar um e-mail direto para o administrador do blog.

    Recentemente fiz um documentário amador chamado “Derrubaram o Pinheirinho”. Hoje é o sexto dia de divulgação e ele já passou dos 4000 acessos no youtube. Se puder, peço que dê uma olhadinha lá e se gostar, que compartilhe de alguma forma em seu site ou nas redes sociais.

    Link da excelente crítica sobre o filme feita pelo jornalista Paulo Nogueira (já trabalhou em “O Globo”, Exame e Veja):
    http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-excepcional-documentario-sobre-pinheirinho/

    Link do filme:

    meu e-mail:
    fabiano.silva.amorim@gmail.com

    Um abraço

    Curtir

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