600011_448556878488474_1368254391_n_largeEscrever sobre política me é muito caro.

Aprendi com meu velho pai a dureza de ter uma oposição frontal, dura, ideológica em minha própria casa. O respeito, porém, jamais foi ausente e mesmo ele sendo um velho liberal de cores anarquistas, e tendo ele uma persona autoritária que a muito custo domava pela fiel coerência aos princípios de Voltaire aliada ao fato de ser policial civil a coisa não era exatamente fácil de manter-se nos princípios do respeito, mas se mantinha.

E se mantinha não pela doçura dos “leite com pêra”, mas pelo conjunto de compreensão de liberdade como fundamental ao cotidiano aliado a uma cultura resistência que vinha até de antes, do espírito duro, libertário e louco da velha Violeta, sua mãe e minha avó.

Esse aprendizado fez pra este escriba, com uma persona tão autoritária e dura quanto a do pai, um sujeito que com as iras advindas do sangue dos Moura Henrique, nascer o entendimento que por mais dura que fosse, tenha sido ou venha a ser a política cotidiana, a lógica do respeito ao outro deva permanecer a qualquer custo.

408172_492363070774521_1614724830_nXingamentos me soam menos como desrespeito do que a ação subreptícia de significar o outro como um desqualificado, ainda mais quando esta desqualificação tende a conter um viés “moral” ou “moralista”, ainda mais quando esta “moral” assume o víes do sexismo, misoginia, racismo ou homofobia. A meu ver mandar o outro “tomar no cu” numa discussão política sempre pesou menos do que tratar o outro como idiota. A ira justificava xingamentos, mas não a redução do outro a um estúpido.

Com o tempo fui percebendo que a saúde do debate precisa de menos ira e mais “respiração”. A ira não é boa companheira do debate político, ela envenena tanto quanto os preconceitos. Xingar não é legal, embora terapêutico.

stalinEstas reflexões são feitas no calor de um momento onde a luta política ganha cores “stalinistas” diante da opção direta pelo espírito de milícia, que em tempos radicais como os nossos tendem a ter também uma cor conservadora , pra não dizer fascista, em detrimento do espírito da defesa, por mais dura que seja, de projetos políticos antagônicos.

A opção por uma ideia de “ame-o ou deixe-o” aliada a um louvor irracional à figuras públicas de maior ou menor peso político concreto é frontal ataque ao espírito democrático da luta política, e mais ainda, é um frontal ataque ao espírito democrático das ditas redes sociais.

Guia_do_Militante_VirtualDesde 2006 se constrói nas redes sociais uma rede de apoio aos governos Lula/Dilma. De início um processo que nasceu voluntário e que acabou desaguando em 2010 no movimento dos blogueiros progressistas, ganhou cores “profissionais” quando com uma certa obviedade o Partido dos Trabalhadores legitimamente entendeu que havia no ambiente virtual um espaço de atuação como agitação e propaganda vital em tempos de avanço da presença da internet no Brasil.

A organização de uma militância virtual, ou a organização da militância na virtualidade, foi um passo necessário, legítimo e fundamental na defesa da própria liberdade da rede (Vide a resistência à lei Azeredo).

montra1_1Este movimento partiu também de uma ideia que ganhou fôlego com os movimentos anticapitalistas que “nascem” em Seattle em 1999 e que usaram a rede para se organizar e constituir na internet um espaço de amplo debate e circulação de ideias.

A virtualidade ai ganha um extremo peso de resistência à força da mídia tradicional e uma caracterização de ampliação do eco de movimentos que eram ocultos das linhas dos jornais e cuja força de agitação e propaganda era solapada diante do desigual combate entre folhas mimeografadas e jornais impressos e disponíveis para milhões. Com a  internet o jogo ficou mais pesado pro lado da mídia “antiga’ que tinha contra si agora uma rede que “viralizava” informações e resistia aos ataques aos movimentos com raça. amor e muita capacidade de organizar-se rapidamente com as novas tecnologias.

wto_seattle_99Os acontecimentos nos anos 2000 passavam agora a ter na rede uma arma de contra-informação, Isso foi ficando mais claro no fim da primeira década dos 2000 com os movimentos anticapitalistas e altermundialistas que enfrentavam a crise e articulavam movimentos com o uso da rede deixando tontas as forças conservadoras, os estados e a mídia. A primavera Árabe, o movimento Occupy, os riots de Londres, tudo isso foram eventos que são quase um desaguar deste processo.

Os partidos de esquerda mundialmente perceberam isso e o PT não se fez de rogado, ainda mais sabedor de que tinha contra si a velha mídia golpista, e construiu para si um aparato de defesa que tinha a legítima preocupação com a velha imprensa que matou Getúlio. Paralelo a isso e se jogando na vida da institucionalidade o PT seguiu nomeando juízes pro STF, financiando a mesma mídia que combatia pela via da organização virtual e cometendo erros atrás de erros no plano do enfrentamento aos monopólios midiáticos, mas isso é outra história.

dsc_0821Desde 2010 mais ou menos a construção de uma rede de resistência para combater o aparato virtual que o PSDB constituiu para abater “em pleno vôo” a candidatura do “poste” Dilma Roussef, utilizando qualquer arma legítima ou ilegítima à mão, de ataques políticos concretos a ataques abaixo da linha da cintura com a abertura da caixa de pandora da misoginia, homofobia e terrorismo anti-aborto., ganhou não só fôlego como ar de prioridade para o PT, e nisso ele obteve sucesso não só ao enfrentamento às armas tucanas, mas também na luta contra a oposição feroz que a grande mídia havia construído.

Dilma Presidente2A partir dai o PT também percebeu que havia um mar a ser conquistado e que não havia somente a oposição conservadora contra si, mas uma oposição de esquerda formada por uma ampla gama de críticos mais ou menos radicais e que habitavam legendas partidárias, pequenas, organizações não-governamentais, movimentos sociais não alinhados e um partido que saido de suas entranhas ousou lançar candidatos a presidência que apontavam com ou sem moralismo udenista seus erros de trajetória, o PSOL.

Ainda organizados na sanha do combate ao inimigo mor tucano e tendo construído a ideia de que as redes sociais eram uma espécie de Mare nostrum Vermelho, os petistas se lançaram a um combate que reduzisse as pressões de esquerda que surgiam nas redes sociais fossem elas legítimas ou não. E tiveram sucesso em parte. Construíram um mundo onde quem não estava com eles contra eles estava, gerando um universo cujo pensamento único era bem vindo e mantido por figuras públicas mantidas para gerar um combate ininterrupto a tudo o que lhes oferecia resistência.

2032012092422Imbuídos da experiência concreta na eliminação de resistências internas do partido ao projeto majoritário encabeçado por José Dirceu, extenderam para a militância cotidiana o espírito neo-stalinista de expurgarem das redes tudo o que fosse contrário ao projeto governista. Levando para as redes as táticas de sucesso feitas no interior do PT a arma virtual acumulada para o combate aos tucanos se fez agora presente para um combate à todas as forças resistentes ou de apoio claudicante ao projeto de país que defendem.

Neste meio tempo a própria conjuntura e opções políticas do Partido dos Trabalhadores aumentou a resistência ao tal projeto, inclusive dentre aliados da própria esquerda e membros do próprio PT.

MpSeja no combate por um salário mínimo maior, seja no combate ao novo código florestal, ou contra Belo monte ou por uma legislação de proteção aos LGBT, de garantia das lutas de gênero, todas as forças que denunciaram ou resistiram às ações da cúpula petista e seus governos foram incluidos nos rótulos de “Tucanos” ou “psolentos’ em uma ação que emulava as táticas usadas pelos tucanos contra eles próprios durante a campanha Dilma Roussef em 2010.

Sem pudor ou respeito à trajetória do partido, o acúmulo de forças de ação, de agitação e propaganda virtual, simbolizada por perfis coletivos controlados pelo embrião da #redePT13 (Organizada e finalmente constituída em 2012) e por uma bem azeitada relação com blogueiros profissionais, atores famosos e figuras públicas da academia, voltou-se para garantir que não houvesse dissenso na sustentação do governo Federal, governos Estaduais e municipais apoiados ou controlados pelo PT.

veneno1O resultado disso foi o agravamento do envenenamento das relações nas redes sociais ao ponto de mesmo os mais moderados opositores serem tratados como “inimigos de classe”, tachados como nazistas, como se viu fartamente na campanha do rio de Janeiro quando um Marcelo Freixo pouco mais que republicano simbolizou o demônio ultra-esquerdista para eles, ou como “senis”, como é cotidianamente chamado o honrado deputado Chico Alencar.

Além disso o uso freqüente de fakes para manutenção de uma rede de assassinatos de reputações (termo cunhado pelo Jornalista Luís Nassif) foi emprestada da ideia Tucana de uso das redes sociais para servirem sem nenhuma vergonha a uma lógica de atuação nas redes que inclusive perdeu paulatinamente o sentido político e ganhou mais cores de ações individuais de “lideranças” políticas virtuais no combate a quem consideram desafetos.

A nova Rede que o PT construiu tornou-se uma réplica stalinista da rede tucana, e perdeu o controle e o limite do político, causando ataques inclusive a notórias lideranças políticas do próprio PT, como Eduardo Suplicy, Olívio Dutra e Tarso Genro, que em diferentes momentos ousaram manter atitudes de crítica ao projeto majoritário, mesmo sendo apoiadores deste.

tumblr_m41r9lVouP1qbm69go1_1280A dúvida é  se para manter o mare nostrum virtual não se está perdendo mais e mais portos ao se optar pelo estrangulamento do debate político para tornar a vida virtual um mar de esgoto a céu aberto.

O ganho político me parece reduzido à vitórias de pirro em pequenas escaramuças onde figuras públicas se assumem apenas deslumbrados assumidores de ônus pesados de se manter para abater  qualquer grau de oposição minimamente organizadas, seja abatendo militantes  de base com calunias homofóbicas e misóginas, seja afastando o militante orgânico que tem objeção ao tratamento de lideranças políticas como Olívio Dutra, seja afastando o individuo da classe C que vê com nojo o uso das redes para ataques imorais a outros seres humanos, seja a classe média aturdida com o embrutecimento das relações ou o intelectual moderado que vêo rebaixamento do debate como um sinal de que as coisas não vão bem internamente.

341017889_640Paralelo a isso o mundo gira e outros partidos constituem-se como opção eleitoral e também de diálogo virtual optando por uma conquista paulatina de peso no cenário virtual com um comportamento propositivo e que vê com certo susto parte da militância cotidiana virtual ligada ao PT barbaridades como o tratamento da questão LGBT e feminista como perfumaria e um assunto como o aquecimento global ser tratado com bobagens com “O PISOL (sic) é contra o calor!”.

É impressionante o tipo de ataques que publicações de setoriais do PSOL sofrem, mesmo tendo fontes  baseadas em notas do próprio PT. O nível político da militância que se assume petista nas redes chega ao risível de dizer que uma nota do Núcleo Agrário do PT é “PIGPISOL”.

meninaOs limites do respeito foram ultrapassados, foram tornados um tipo de escárnio que deixa marcas profundas no cotidiano de uma militância política de esquerda acostumada a uma vida anterior em um partido dos trabalhadores era um marco da diversidade de ideias marcadas pelo respeito ao outro.

Enquanto isso novas realidades se constroem e é lamentável ver que o que era uma legítima arma de contra-hegemonia legitima e inspiradora de ações de outros partidos, a lógica da ocupação virtual pela esquerda, virou Greta Garbo e acabou no Irajá.

PS: Antes que algum maledicente entenda a menção à Greta Garbo como alguma ironia homofóbica informo que trata-se de um uso estilístico do nome de uma peça chamada “Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá!

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