Um dos meus diletos temas é a escravidão e a “desreificação” do negro. 
Não apenas por uma questão teórica incômoda que era a lógica do negro ser um tipo específico de animal, único, raro, quase um unicórnio legendário, por oscilar de forma bipolar entre o guerreiro zumbi e o manso pai João. Também por um incômodo presente na constância do entendimento crítico tanto de algumas alas da História quanto do Marxismo vulgar de entender o analisado, seja o povo ou o negro, seja a economia ou a música, como um ente desenraizado do cotidiano, algo que pode ser retirado do dia a dia, colocado numa espécie de mesa de laboratório e esquartejado numa síntese científica que ignora solenemente o tal concreto tão claro ao velho barbudo.
A leitura e o estudo de alguns historiadores brasileiros (Chalhoub e João José Reis em especial) trouxeram um profundo alento a este que vos atormenta com a má escrita, dado que humanizaram novamente a miríade de universos que é o “povo preto”, categoria esta inclusive incapaz de denominar o quão é complexo entender a totalidade do que é o negro em terras brasilis, sem falar no negro como um todo.
Quando o negro nos livros deixa de ser “O Escravo” e começa a se chamar Bonifácio, algo de brilhante e agradável ao homem, ao humanista, surge no horizonte. Quando o negro volta a ser humano perde o sutil teor europeizante reducionista, mesmo que inadvertido, que lhe vestiam explicações como a de Fernando Henrique  e Gorender que o colocavam como uma espécie de mula que ao ser provocada em excesso virava Ogum.
À questão teórica se juntava o emblemático envolvimento deste que vos fala na percepção como suas das belezas das religiões afro-originárias e sua complexidade de explicação de um real que não cabia na “coisificação” dos criadores de um panteão tão rico quanto crescente, mutável, flexível, negociante, guerreiro, submisso, matreiro.
Este “povo preto” vivo em Orixás e danças, em Sambas, Maracatus, Funks, não cabia na lógica de submetê-lo a uma camisa de força que o aprisionava em uma submissão só entendida pelas formatações rígidas de um marxismo que vinha da Europa sem aclimatar-se aos dias tropicais da complexa realidade local.
O valor  da teoria que reificava o “povo preto” é inegável diante do contexto de pioneirismo de uma leitura que não se tornava uma defensora enrustida da escravidão como um “mal necessário” para a  construção do Brasil Grande e cujos reflexos tinham sido resolvidos pela “Democracia Racial”, porém sua continuidade mantendo o negro em uma posição subalterna e incapaz da miríade de resistências que construiu uma abolição nada doada pela barba branca do Imperador é também uma redução do negro a um papel secundário de sua própria história, o que nem de longe encontra sustentabilidade em documentos.
No ínterim dos meandros da história o entendimento do negro em sua complexidade que ia além do Escravo e passava a se chamar Bonifácio também não nasce da iluminação da razão, mas através do entendimento imposto pelas lutas dos próprios negros no decorrer da história, colocando-se não como vítimas indefesas da crueldade branca, mas como resistentes, como guerreiros dos mais diversos planos e modos rumo à conquista de sua liberdade.
A liberdade ainda não veio como devia, a liberdade ainda não chegou e os feitores mudaram de roupa, tornaram-se Estado e são hoje os genocidas de jovens pretos nas grandes cidades Brasileiras, no entanto o povo preto continua em sua resistência aguerrida a resistir inclusive à sua categorização como “povo burro’, incapaz de “saber votar”, de “saber falar”, de “se representar”, a resistir à tentativa de roubá-lo de sua casa, de sua comunidade, de sua educação,d e seu trabalho. 
A resistência continua, porque a felicidade do negro ainda é uma felicidade guerreira
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