Uma das coisas que me perturbam o muquifo que é minha cabeça é a lógica da virtude atávica, inerente ao líder, à figura pública, à deputados, senadores.
Há uma tendência nos socialistas de construírem no entorno das lideranças a automática lógica de que é preciso confiar nelas em todas as suas ações.
O problema ocorre não só na base, ocorre também entre lideranças que se enxergam como detentoras da percepção formal e informalmente mais fodona da face da terra diante de meros mortais, que com suas “fraldas mijadas” enchem o saco, limitados que são na sua posição de pavimento do desfile dos grandes homens.
O entendimento da virtude inerente aos que alcançam uma posição de destaque na sociedade é detentor inclusive de um leve cheiro platônico que entende que ao alcançar determinadas posições sociais os homens enxergam longe, entendem melhor sutilezas do drama cotidiano da vida, sacam a dança melhor que a rapaziada que passeia no baixo calão do cotidiano, que dança outro tango, que pega o busão.
Esse entendimento tem um leve sabor de reprodução da hierarquização que a sociedade nos dá a um preço bastante absurdo.
Esse tipo de “detalhe” é facilmente perceptível nas defesas incontestes do grupo de Macapá por parte das figuras públicas do PSOL, que entendem que qualquer resistência à má explicada ação de “apoio” do DEM em Macapá vai de “má vontade” a “Setores intelectualizados que vivem em ambiente onde as instituições funcionam”, passeando por “fraldas mijadas” e repetições ad infinitum de uma “distorção ferrenha” da imprensa que sempre deturpa as entrevistas da dupla, o que não parece ocorrer com Marcelo Freixo e Chico Alencar que quando são entrevistados dão menos interpretações dúbias, quando dão, que a dupla Macapaense.
O pedido de “confiança” para com a  dupla do Amapá, abatido a tiros pelas desastradas declarações de ambos à imprensa, é uma constante.
Os pedidos são insistentes mesmo com atitudes das dupla que vão desde vídeos, onde “empolgado pelo apoio” o Senador afirma que a relação com o DEM é pra governar, até afirmar nos jornais que o PSOL deve aceitar dinheiro de bancos e empreiteiras, o que é negado em resolução congressual. Mesmo que essas atitudes indiquem que há no mínimo um problema da dupla de manter posições que assumem e  permitirem que essa confiança nasça e cresça.
Embutido no pedido de confiança e na ação de desprezo à inteligência alheia há a noção que a cúpula dirigente, parlamentar, tem um grau acima da média de percepção do real que nosotros que da base devemos ter todos entre dez e quinze anos de idade mental, pouca formação intelectual e zero de experiência política, ao menos segundo se tira do comportamento de nossas lideranças.
Sé que esqueceram de combinar com os russos, porque além de muitos macacos velhos há também muita gente com formação intelectual, percepção embasada da realidade, experiência cotidiana nas lutas e ninguém é tão otário a ponto de não perceber que quem apresenta duas faces em geral tá escondendo uma terceira, né não?
A ideia da ausência de inteligência da base, aliada a uma virtude atávica das direções, é parte do construto mitológico de uma esquerda que é pouco afeita ao debate e a diversidade, além de entender que a função de uma base militante é menos interromper o jogo das cúpulas e mais levantar ídolos nos ombros até erguê-los aos céus dos cargos executivos.
O entendimento que a direção “sabe o que faz” e “precisa de voto de confiança” ignora um sem número de importantíssimas questões, pra mim a  principal é que o poder da burocracia encanta, e  quanto mais alto maior o encanto por um estilo de vida, pelas pessoas envolvidas na dança dos salões atapetados, que acaba tirando o gosto pela dura e cruel luta cotidiana.
E ai tome-lhe besteira comprada como solução, tome-lhe o caminho mais curto ao invés da construção segura de um alicerce para o alcance de postos mais altos, tome-lhe misturar discussão de ampliação de aliança com a absorção da aliança com o DEM, tida como apoio, como fundamental.
E tome-lhe defesa do indefensável, desqualificação de interlocutores e inversão de “culpas” quando se fala de deslealdade na reação a vídeos com um “empolgado” discurso dizendo que o DEM participaria do governo, como “exposição do partido”. 
O discurso que diz que o DEM participaria de um governo do socialista PSOL não expõe o partido segundo os iluminados, mas a reação sim. 
O discurso que expõe o PSOL a uma aliança feita dizendo que o DEM participaria do governo não expõe o partido, a reação sim, esta expõe, esta reação deveria ser interna, deveria ser oculta, enquanto um ato público de aliança com o DEM é feito às claras, à disposição de qualquer detrator do Partido Socialismo e Liberdade.
Para parte da direção do partido o que expõe o partido é quem não acha que ocupar uma prefeitura, que tê-la é mais importante do que construir uma política estruturada que ocupa um espaço no imaginário da população.
Mais vale para estes setores uma prefeitura em Macapá que uma oposição estruturada por uma politica, discurso, postura à esquerda, como foi feito no Rio de Janeiro, Fortaleza e Salvador, entre outros cantos do país.
Mais vale para estes setores usarem a máquina da executiva partidária para atacar a campanha em São Paulo porque o presidente do partido em sua base foi derrotado e não foi indicado como candidato pelo partido.
Mais vale para estes setores desmentirem o que um vídeo gravado diz, invadirem o espaço institucional do Acre pra desqualificarem a decisão coletiva do diretório de Rio Branco e apoiarem o candidato do PT à revelia do partido.  
A confiança que pedem pra quem comete todos estes “equívocos” é na verdade uma carta branca, um cheque em branco. Minimizam a deslealdade de um senador da república para com um diretório inteiro do partido no Acre, mas são ferozes no apontamento como desleal de todo o processo de resistência à abjeta aproximação com a direita no Amapá.
Há duas deslealdades, há mundos diferentes, há visões diferentes com certeza.
Uma delas diz que só Macapá tem um realidade objetiva onde as instituições não funcionam e só lá os militantes socialistas enfrentam a violência e o descaso dos governos, justiça,etc. 
No Rio de Janeiro onde morreu a juíza Patrícia Acióli  onde militantes apanham  de milicianos na Zona Oeste e onde mulheres perdem a guarda de filhos abusados pelo pai porque sua denuncia é desqualificada por juiz e promotor? Ah, o Rio é um paraíso onde militam setores intelectualizados que são incapazes de entender a dinâmica singular da barbárie da “Terra de Malrboro” que é Macapá!
Na junção de uma lógica platônica de superioridade moral da direção partidária e dos parlamentares com um etnocentrismo preconceituoso que usa a “singularidade” pra justificar ações bizarras mora uma condescendência que acompanha o PSOL e acabou com milicianos filiados na cidade do Rio de Janeiro. 
Na “singularização” de Macapá age-se como se capitais fossem “rincões” e em capitais maiores e “civilizadas” não houvesse uma barbárie antiga, próxima e com instituições que funcionam sim, mas pra uma elite que em geral confia no DEM, o mesmo aliado de Macapá. 
Nesse contexto de pedido de que os “setores intelectualizados que lutam em cenários onde as instituições funcionam” e os que andam de “fraldas mijadas para ampliar seu circulo de relações” deem cheques em branco para uma dupla que tem uma imensa dificuldade de comprovar que são distorções o que parece posição política (Que aliás os acompanha desde 2010), eu prefiro esperar pra ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar.
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