Dois discursos vem me incomodando profundamente.
Um deles começa com “Desarme-se” outro com “Não há como governar sem maioria parlamentar”. 
Nem sempre ambos são empunhados com má vontade ou desonestidade, muitas vezes são até bem intencionados, embora sirvam, ambos, frequentemente a interesses nada ingênuos.
A lógica do “desarmamento” em discursos geralmente vem acompanhados por uma ideia de que os debates são uma forma pacífica de resolver problemas e superar sistemas, machismos, racismos, homofobias e que tudo deve ser feito de acordo com a regra do  “não levar pro emocional” ou seja, de que tudo pode ser resolvido racionalmente de acordo com regras de etiqueta respeitadas nos salões, nas mesas e que tudo pode e deve ser leve o tempo todo, que tudo não pode ter a carga “negativa” da raiva, do emocional, da indignação santa, pois “somos todos amigos”.
Já o argumento de “Não há como governar sem maioria parlamentar” tem uma inquietante lógica de ocultação de História e até de governos que estão hoje em movimento sem esta maioria, e realizando transformações de forma até radical. É inclusive um argumento que perambula pelas bocas “sábias” e “responsáveis” de partidos que de “combatentes dos interesses do povo” passaram a governantes e que lá “aprenderam” que não se governa com enfrentamento e com a população. 

Começou com o PMDB no pós-ditadura, teve um período de Brizola e suas alianças com José Nader e agora aterriza nos desmemoriados petistas que apoiados na cara de pau de Blogueiros Progressistas como Eduardo Guimarães e sociólogos surpreendentemente esquecidos como Emir Sader ressuscitam esta ladainha fingindo não ter existido por vinte gloriosos anos uma experiência de governar sem maioria tanto em Porto Alegre dos Governos Olívio Dutra,Tarso Genro e Raul Pont (de 1989 a 2005) quanto no Governo do Estado do Rio grande do Sul de Olívio Dutra (de 1998 a 2002). 

Claro que existe a possibilidade dos digníssimos senhores não terem, como eu, nascido naquela época, mas a lendária criação do “modo petista de governar” baseado no orçamento participativo foi uma agradável experiencia para os socialistas que viam uma alternativa de governo sem a necessária absorção do partido pela ordem. Outros exemplos podem ser tidos atualmente e lidos para os jovens blogueiro e sociólogo como o do Governo Evo e Correa, que mesmo enfrentando dificuldades governam apoiados basicamente pela população.

Claro que é mais fácil no entanto ocultar a história do que refletir e perigosamente pensar sobre os destinos de um partido que de dos Trabalhadores hoje utiliza discurso idêntico ao do Espantalho Tucano ao tratar de grevistas federais.

A justificativa Governista é incomodamente negada pela frase do próprio Olívio Dutra em 1998: “…temos a experiência de governar sem ser maioria no Legislativo. Há dez anos governamos Porto Alegre e nunca tivemos maioria no Legislativo do município.”. 
Ambos os discursos a seu modo são uma chamada à acomodação, à ausência de enfrentamento com a ordem vigente e de buscas de superação de um sistema cada vez mais cruel com a população, cada vez mais excludente. Ao eliminar o componente de litígio da luta política pelo desarmamento do discurso e pela negação da busca de governar atuando como aliado da população na pressão cotidiana  na direção do parlamento, ambos os discursos apostam na controlada, regulada, educada, luta política sem povo, sem superação, que acomoda, pede um chá se senta com o patrão e o abraça sorrindo.
Outras faces destes discursos é a lógica da paz, que parece ser sem voz, e lembra medo, auxiliada pelo papo político tradicional que lista “realizações” cuja marca é a de ser um alivio aos mais pobres, sem no entanto alterar a estrutura que torna os pobres necessitados de “realizações” enquanto os ricos permanecem desigualmente sentados no trono de sua ostentação. 

A lista das realizações ostenta a inserção da população pobre no mercado consumidor, mas comodamente ignora as remoções de pobres de forma autoritária de suas casas para apartamentos longínquos que serviram para pagar dívidas de campanha com empreiteiras e que ganham o irônico nome de “Minha Casa, Minha Vida” enquanto derrubam casas e atropelam a vida de milhares de pessoas.

A lógica da paz e da busca de maioria parlamentar busca sociabilizar o debate político, suavizá-lo, enquanto rotulam candidaturas que discordam do coro de contentes como a de Roseno em Fortaleza e Freixo no Rio, nomeando-os “aventureiros” ou “Irresponsáveis”, enquanto ambos atuam como representantes de todo uma série de questionamentos acadêmicos e populares ao modus governandi do melhor gerente do capital da história deste País, o PT, que na busca por mais aparatos para sua sanha prefere o abraço a Maluf do que ao povo.

Os suavizadores do discursos, cúmplices de racistas, reaças, homofóbicos, elitistas e machistas em sua sanha por uma acomodação perfeita, suave, dançarina e construída no amor ao inefável, acabam por sustentar a construção de um discurso que a cada porrada em pobre brande uma migalha de transformação que “muda a vida das pessoas” enquanto negam evidências cientificas, antropológicas, históricas para levar a cado o plano de expansão do capital a qualquer preço, com a “Responsabilidade social” do pequeno afago ocultando o trator que derruba casas, florestas e chama índios de nômades. 

Estão ambos os discursos apostando em uma política cuja superação de luta de classes é a principal apostas, só falta combinar com os russos.

Na busca da paz sem voz e do esquecimento de que é possível governar com apoio da sociedade, os discursadores do “não-conflito” acabam tão mergulhados no medo que entendem que é preferível criar espantalhos e ocultar porradarias do que enfrentar problemas, resolvê-los e tentar superar um sistema opressor onde a mudança do nome das coisas não muda a necessidade clara de uma luta constante, diária e presente para além do blablablá na Confeitaria Colombo.
Por isso enquanto o mundo explode é preciso lembrar cotidianamente de que ao sermos realistas e apostarmos no impossível não esquecemos que somos guerreiros, trabalhadores que encaramos todo dia nossa batalha, uma batalha desigual, dolorosa e que não dá pra ocultar no sorriso forçado.
Enquanto o mundo explode não podemos esquecer que temos passado, temos raiva e queremos mudar o mundo.
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4 comentários sobre “A paz sem voz e a Trotskização de Olívio Dutra

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