Eu não sou uma pessoa boa, estou longe disso. Não sou leve, não sou macio, não sou light, não tenho pendores gregários  ou suavidade no discurso. Isso muitas vezes é uma trave para a ação política, isso muitas vezes é entrave para construção de redes que sustentem posições e percepções que tenho do real, do real político e da ação, isso muitas vezes é até anátema diante da necessidade política cotidiana “socialmente aceita” de mediação. 
Não nego que já pensei em alterar minha forma de ver as coisas, minha forma de entender o mundo, minha forma e fome de ler o mundo, muitas vezes pensei em mudar a mim mesmo para adequar o que sou às exigências de uma práxis política que levasse a meu entorno o acréscimo de gente de acordo com o manual prático de convivência da sociedade.
Só que das tantas coisas que tenho como características pessoais, talvez esta raiva e esta forma nada leve de ação, convívio e pensar seja a mais minha, a característica mais construída que tenho em mim, mais fomentada, formada, estruturada por uma opção de resistência. 
Nunca fui rico, tampouco paupérrimo, tive mais chances que muitos dos meus amigos mais próximos, alguns que chegaram mais longe do que jamais fui nos parâmetros de crescimento pessoal sócio econômico socialmente aceito. Não sou negro, mulher, gay ou transsexual, não moro em situação precária, vivo em uma confortável residência de classe média baixa em um bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, filho de funcionário público estadual policial (falecido) e de funcionária pública municipal merendeira de escola. Nunca passei fome, mas não fiz SOCILA também (escola de boas maneiras famosa no subúrbio).
 Se carrego privilégio, e os carrego muito, também carrego uma situação social que tardiamente percebi que não era adequada à lógica competitiva, hierarquizante e opressora da sociedade carioca (na minha opinião mais que carioca). 
Desde cedo entendi que branco e hétero tinha uma enorme carga de privilégios, mas também que um branco hétero da Zona Sul do Rio de Janeiro (desde Pereira Passos o locus privilegiado da elite e de seus serviçais que moram nos morros) valia mais que brancos héteros do subúrbio. E isso vale para todas as demais “categorias” (Mulher, negra, gay, trans) que recebiam por sobre suas características pessoais, conceitos e preconceitos inclusos, a pesada laje da condição de classe.
Esse perceber não veio com beijos, afagos e abraços, veio com a dura lição que se aprende cedo nas quebradas  onde vive quem demora de uma a três horas para chegar no centro da cidade: Na porrada. E isso valia desde a ser rejeitado na festa pela gatinha quando pronunciava “Guadalupe” ao dizer onde moro até ver um amigo negro tomando tapa na cara porque eu estava dormindo no ônibus voltando do bar de ele a meu lado “estava me assaltando” na visão do policial, só por ser negro, só por estar a meu lado. Não podemos esquecer também do clássico esfregar da superioridade de meios de subsídio de vontades e desvontades de primos, colegas de colégio e amigos ou da defesa de assassinato de bandidos (pobres em sua maioria) como meio de “manter a segurança” sendo que ao chegar em casa um dos “bandidos” era uma migo que estava estudando um pré-vestibular comunitário na favela e por ser negro foi morto e automaticamente identificado como traficante.
Já adulto o ser expulso de casa de namorada ou ver seu pai (uma das pessoas mais brilhantes que já tive a honra de conhecer) sendo olhado como um verme e cumprimentado como uma mistura de condescendência e nojo por um imbecil trajando titulo de gala e cérebro de ameba, adornaram a ideia bem clara de que neste mundo de meu Deus a minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego (Valeu Rappa!).
Muitas outras histórias cabiam neste texto, muitas, e não só no Rio e não só vendo de fora já que em Minas Gerais sofri boa parte dos dramas que uma família muito pobre do Rio sofre, mas tive a opção de deixar de vivê-los. Muitas outras história reforçariam o cerne do que quero dizer neste post: Viver é muito perigoso e a política nem sempre é mediação.
Mediar é uma arte e uma arte que tem em seu cerne a ideia de que o caminho do meio, do não-conflito, do não-rompimento é a forma mais perfeita de caminhar pra frente diante de uma conquista qualquer, só que este mediar exige muito mais que abolir os conflitos, ele exige um romper com a história que orna esses conflitos, ele exige uma posição de ignorar a lógica que circunda os conflitos, ele exige uma opção pela omissão diante do concreto formar de pessoas, classes e cultura mediante os conflitos.
Mediar é relevar, mediar é manter, mediar não supera nada.
Política a meu ver nos coloca em situações onde a opção é necessária, precisa, fundamental e uma decisão exige que a marca delas fique em nossas mentes, corações e corpos. 
Não sei ser leve, bom ou “educado” diante de situações onde a opção que se apresenta é o combate. Não sei omitir racismo, homofobia, machismo como opção de manutenção de laços políticos ou pessoais, se isso é cruel, paciência, é um dos preços que admito pagar e faz tempo. 
Tudo tem seu preço exato, ninguém vai pagar barato como já dizia Sérgio Sampaio. Eu pago os meus.
A leveza na política pressupõe acordo, a bondade na política não pode ser confundida com ser bonzinho ou  pressupõe acordo. A bondade na política pressupõe oferecer a outra face e a única outra face que tenho pra oferecer não é exatamente para tomar outro tapa.
Política pra mim é uma ferramenta de superação da estrutura de classes, é o agir dentro da luta de classes, é agir pra transformar. Política não é boa ou leve, é luta.
“A raiva dá pra parar, pra interromper, a fome não dá pra interromper, a raiva e a fome é coisa dos homi!” Aldir Blanc
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