Parte da academia não leva fé na luta de classes, joga pela janela, ignora finge que não vê. Acha que Marx não presta pra muita coisa, etc. 
Não são poucos, nem estão errados de per si. Eu mesmo não dou muita trela pra Foucault, acho que apesar de ter enormes contribuições, não me responde questões colocadas pela situação do negro no Brasil no período da escravidão, por exemplo, se entendermos este negro como mais que um arquétipo de pessoa, como mais que um objeto distante e assexuado, que não se relaciona com o opressor e mantém relações de reprodução de opressão, por exemplo, com seus “iguais”.
Da mesma forma tenho dificuldades de entender a utilização de Marx no plano das micro-relações, no plano da cultura também em alguns momentos e procuro respostas que vêm me agradando  em Thompson, João José Reis, Eduardo Silva, Ginzburg, entre outros. 
O fato é que existem muitos autores que explicam muita coisa sobre o mundo, cada um na sua razão, e muitos leitores que se identificam com cada um de acordo com o tipo de ferramental teórico que cabe em seu plano de pesquisa e discussão. 
Isso é o que torna bacana o mundo da academia e do pensamento, o entendimento que existem mais problemas que respostas no real e se opta (sim, se opta) por um viés de explicação deste real obedecendo a posições ideológicas, culturais, de classe, etc. Essa opção tende a ser política sim, e é clara no discurso inclusive científico dos pesquisadores, cientistas sociais, antropólogos, sociólogos.
Sob o ponto de vista que entendo como o adequado para a explicação do real não abro mão de Marx, é parte fundamental da minha percepção do mundo e parte fundamental de minha noção inclusive da cultura, com a devida vênia a Thompson que introduziu uma nova percepção do Marxismo nesta cabecita que gasta dedos aqui.
Entendo que outros não coloquem nem como cabível a noção de luta de classes, um de meus melhores amigos e pesquisador que muito respeito não leva muita fé neste conceito, outros tantos se colocam como ariscos ao conceito de luta de classes se este for um empecilho para os ganhos imediatos que os mais pobres obtiverem via ação dos governos.
Repito: São opções que não tornam anátema a negação de um conceito ou a opção por uma escola x ou y de explicação do real, isso inclusive faz rico o debate e faz o real ser tão bem explicado seja por Marx, por Foucault, por Levi-Strauss, cada um a seu jeito, cada um com sua ferramenta.
O problema é quando Marx, Engels, Foucault, Freud ou Tonico e Tinoco são usados para refletir, expandir, explicar e embasar falsamente o simples e belo preconceito de classe e cultural. Quando utilizam um discurso proto-acadêmico para justificar que greve é privilégio ou que o feminismo não tem em si a questão de classe é que a situation fica black.
O direito de greve, e de toda categoria, quando é retirado de uma delas por estar de alguma forma não alinhado com o proletariado ou com quem se considera “ter a permissão” de parar de trabalhar pra conquistar melhorias em sua vida é simplesmente entender que a divisão de classes se dá por sua posição social no plano da aparência. Ou seja, se define classe pela origem salarial e não pela posse ou não de meios de controlar economicamente a sociedade ou o sistema.
Considera-se que existem trabalhadores que por ganharem mais são impedidos de buscarem melhorias salariais ou estruturais para seu local de trabalho por não serem miseráveis, ou seja, o sujeito que estudou ao ponto de ser doutor não pode protestar e exigir reposição de um salário que não recebe reajuste há quase dez anos ou estrutura para universidades sucateadas por ser “privilegiado” pelo salário acima do da maioria das pessoas.
A crítica aí feita é pela não hierarquização entre trabalho intelectual e braçal, por exemplo, mas ataca não a estrutura social que se ergue com base nisso, mas a ponta que é o trabalhador que vende sua força de trabalho por um determinado preço e vê este valor não ser reajustado, ou seja, opta-se não por atacar uma base estrutural que hierarquiza o trabalho e oprime, mas um dos alvos da opressão, mesmo que minorada, ou seja, ao invés de atacar a exploração do capital ataca-se o trabalhador.
Esse tipo de lógica é comum em parte da elite que se identifica como “crítica” e “progressista” por tomar posicionamentos liberais com relação a gênero, raça, orientação sexual, mas mal esconde o incômodo quando a posição de classe é ameaçada por algum tipo de comportamento que defina transformação e superação do que diz combater, os tais privilégios.
Por isso também a lógica da greve ser um privilégio para determinados tipos de trabalhadores que não estão expostos à exploração” e por isso não tem razão para lutar contra o sistema, ou seja, a exploração para determinado tipo de pessoas, por ser minorada pela posição social, se extingue e por isso a questão de classe é negada, não por algum viés explicativo do real que tenha abolido a categoria, mas por uma percepção impressionista da ausência de opressão a partir dos privilégios de classe que se tem a disposição.
Por não sofrer toda a gama de opressão que um proletário não qualificado que ganham  salário mínimo sofre, um acadêmico, na visão de certa ala da academia, não é explorado, embora não controle nenhum tipo de meio de produção e  venda sua força de trabalho a preços que não obtém reajustes e sob condições nada suficientes para o exercício de sua função.
Na carona desta visão a mulher de classe média alta por vezes não sofre opressão, fora a sexista, e por ter um trabalho mais “importante” não pode abrir mão do trabalho de mulheres pobres, em geral negras, que “precisam do trabalho” para sobreviver. 
A questão de classe permeia todo o discurso, que pode ganhar aqui e ali um apanhado de autores, seja Foucault, seja Deleuze, seja Levi-Strauss, Freud, o que estiver a mão e justifique o injustificável, que por vezes é também posto como uma “percepção que supera a dicotomia de classes anacrônica defendida por Marx”.
Não é um discurso de uma pessoa ou outra, mas é muitas vezes um modus operandi de parte da classe média que ocupa a academia e entende que ações coletivas e políticas diretas não são imprescindíveis diante de mudanças que podem ser feitas no discurso, por exemplo ou em uma nova “perspectiva” diante de classes, etnias, orientação sexual, transgênero ou gênero. 
Esta forma de pensar muitas vezes é menos embasada me diferenças teóricas de pulso (é bom lembrar que parte do discurso de Levi-Strauss por exemplo tinha referência em Marx e que Foucault não uma ou duas vezes foi enfático defensor do conceito de luta de classes, embora discordasse dos marxistas em muito) e mais obedecem a uma postura ou política ou social que combate determinados tipos de ação política, muitas vezes conectada a uma certa aversão à militância, que transcende à acomodação e moderação social ou que enxerga que a estrutura do estado/sociedade não é apenas uma ilusão que pode ser transformada por um enorme abraço na lagoa.
É importante discernir que o discurso elitista é muitas vezes oculto em posturas que parecem acadêmicas e científicas ou de algum tipo de escola de pensamento específica, tentando se esconder no mito da “imparcialidade da ciência” e muitas vezes nas solicitações para que o interlocutor, tido como inepto, leia mais, o que se oculta é a ausência de vinculo entre o que se propõe científico e o que é apenas aquela defesa de privilégio clara e velha de guerra.
Por isso quando alguém atacar a luta de classes como conceito e o direito de greve for chamado de privilégio, pense bem se o autor da colocação com seus rococós, frases e autores não está apenas fazendo defesa de seus próprios privilégios de alguma forma ameaçado por trabalhadores que combatem a exploração pela via da greve. 
Da mesma forma determinadas “ironias” para com marxistas por vezes tem menos ligação com críticas científicas e mais questões partidárias sobrevoando.
O Leite de Pera que habita determinados círculos acadêmicos chama de privilégio o que é luta por considerar que não fica bem gente estudada com pé no chão.

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