Nos últimos dez anos (ao menos) as mudanças tecnológicas e as novas formas de economia que surgem a partir destas novas tecnologias ganharam adeptos e ideólogos que identificam nas mudanças a ocorrência da superação do sistema.
A novidade como o mote da superação da política “obsoleta” é encontrada tanto nos adventistas da “política sem rancor” como nos entusiastas do compartilhamento de arquivos como método revolucionário.
Ironias à parte sobre os movimentos, o que surpreende neles é menos a arrogância de destituírem a política cotidiana de sua importância, e inclusive de fazer parte do eixo de transformações levadas a cabo pela utilização das novas tecnologias, e mais a reprodução do evolucionismo tão caro à modernidade em seu discurso aparentemente diretamente vinculado à pós-modernidade.
A ideia do partir do slogan e  da análise do real construída por sobre a impressão superficial do concreto é tentadora inclusive pela popularidade de conceitos Drops lançados em discursos afirmativos, “conscientes” e convictos  e pela imagem de transformação que isso dá, baseado que está na fragmentação do concreto e do discurso como forma de facilitação da “comunicação”. 
A imagem do Slogan e ele próprio são considerados a própria mensagem, o todo dela, e também da ação política. É como se o “Sempre Coca-Cola” fosse o próprio ato de beber Coca-Cola. Então a política fica reduzida à superfície dela mesma, a aparência da política é para a “nova política” um fim em si.
E é aí que vemos surgir uma longa fila de teóricos que se empenham em construir uma nova economia pós-mais valia, de teóricos “open source” que partem do compartilhamento de arquivos como um ato revolucionário, como se novo também, e tomando a lógica de relacionamento com direitos autorais como um fim em si mesmo e não como uma nova variedade de capitalismo que não só não abole a mais valia como a amplia.
A transformação da política cotidiana como “velha” como se o mundo fosse transformado em um novo modelo de exploração automaticamente a partir do advento da internet é também uma redução do trabalho político cotidiano a um pastiche onde a premissa da “novidade” é superior à premissa da sustentação de uma nova discussão a partir das mudanças do mundo. O mundo precisa de um “novo” que supere o “velho” segundo a nova retórica.
A questão é que primeiro o próprio “velho” é desconsiderado, a maior parte da novilíngua da “novidade” se sustenta em uma percepção que mal esconde o nojo da politica cotidiana, seus problemas e acertos, suas rusgas e disputas, e com isso o ignora como necessidade de entender o objeto da crítica para sustentar essa mesma crítica. Então é mais fácil rotular todos os partidos, um a um, do que discutir seus programas, métodos, discussões, formas de abordar o que incomoda ao sustentador do “novo”. 
Notadamente a maioria dos partidários do “novo” iniciam sua argumentação como fim da dicotomia entre direita e esquerda retomando o dito por ideólogos do neo-liberalismo no inicio dos anos 1990 logo após a queda do muro de Berlim e dos países do bloco chamado “socialismo realmente existente”.
Do discurso que remonta o “fim da história” de Fukuyama, passamos quase que automaticamente a uma leitura pálida da história dos partidos políticos e a redução destes a um pastiche de seu discurso, praticamente montado em torno de uma colcha de retalhos de críticas mantidas por jornalistas conservadores nos jornais diários misturadas à “Deduções” a respeito de como discutem estes mesmos partidos. O PV por exemplo tem sua história resumida a seu estado recente, o PSOL aparentemente é ainda o discurso de Heloísa Helena e o Socialismo, cumpádi, é uma tolice do século XX. 
O PT e demais partidos, todos eles, são ignorados, de onde se tira que a nova política  entenda que a luta política cotidiana é tolice e que inventando um novo mundo onírico tenhamos sucesso na superação da luta de classes ou seja lá o que interessa a estes superarem.
Ai temos um novo que no fundo é uma requentada no discurso liberal de superação da história somado a um profundo desprezo pela política cotidiana, quase que todo ele sustentado pela percepção desqualificatória da política como “suja” feita pelos jornais liberais. O interessante é que isso aparece em propostas que se pretendem novas, seja a da biopolítica dos partidários da “política sem rancor”, seja dos entusiastas do Partido Pirata e seu libertarianismo open source.
A necessidade de “superação” das formas de organização partidárias presentes no discurso acabam por sustentar de forma indireta estas mesmas formas, inclusive pela opção  de participação em partidos já formados (Para a superação do velho “por dentro”) ou pela formação de novos partidos totalmente “puros e sem defeitos”, feitos pro gente nova e que não está contaminada pela obsoleta forma de ver o mundo (contém ironia). 
Com isso quase que se omite a discussão sobre a própria forma-partido e suas limitações, não se discute a propriedade da forma-partido como catalisadora das lutas modernas e do combate ao “velho” na política, se opta, contraditoriamente, pela formação de novos partidos, sob o ponto de vista da constituição de uma democracia burguesa e quase sempre estruturados para disputar a política sob o escopo da eleição de parlamentares para atuar no estado que ai está. 
Onde está o novo? Onde se aplica um novo se este se forma enquanto mais um peão no tabuleiro político estabelecido pelas revoluções Burguesas dos séculos XVII e XIX? Onde se aplica o novo se nem a confirmação de uma nova estrutura de organização política interna destes partidos  que sejam um reflexo de “novas políticas” é dada nestas novas organizações?
As criticas do “novo” portanto em geral caem em si mesmas como apenas a aparência de criticas. O desconforto que o cotidiano causa pelas formas de ação política limitadas pela cruel realidade nos formuladores do novo acaba por gerar um movimento de transformação que se mata na reprodução do que condena enquanto fac-símile.
Sob este ponto de vista os movimentos que reorganizaram a forma-partido nos anos 1980 no PT (sim no PT) ainda são a mais moderna forma de organização partidária da história recente, que mesmo que tenha se transformado na burocratização  completa atual, e no PSOL em uma burocratização em menor escala, ainda são o que contém as sementes do entendimento de uma democracia popular e partidária ampla.
O próprio “deformado” PV, nasce como uma critica muito mais sustentada e contundente às organizações presentes à época e à forma-partido nos anos 1980 que os atuais “portadores do novo”
Ao não analisar a forma-partido e manterem-se representantes de uma novidade a partir do slogan os defensores do “novo” não sustentam uma critica de fôlego que os identifique concretamente com a “novidade” presente em seu discurso. 
Como o “novo” pretende se organizar?  Como a Comuna de Paris? Como o Partido bolchevique? Como o Fora do Eixo? Como os liberais-radicais do mundo europeu e anglo-saxão?
Todas as formas acima citadas tem precedentes mais antigos (Talvez com exceção da Comuna de Paris).
E a economia? A discussão sobre a superação das relações entre capital e trabalho se dão sob que ponto de vista econômico? Entendem e discutem a questão do paradigma econômico baseado na infinitude de recursos como fator a ser rediscutido em um quadro onde se entende que recursos naturais não são infinitos e que a ecologia não é mais apenas um discurso bacana e nossa sobrevivência depende disso? Como entender a questão dos direitos autorais em um quadro de reformulação da economia pelas novas tecnologias, novos meios de exploração da mais-valia e ampliação das horas de trabalho cotidiano? E os impactos dessa nova economia sob o ponto de vista do meio ambiente?
Todas essas discussões são feitas cotidianamente nos partidos de esquerda e de centro-esquerda como o  PT e PSOL, possuem quadros que pensam os problemas, que discutem e se posicionam e cuja produção é ignorada pelos partidários do “novo” em sua sanha de uma superação do concreto pela formulação de slogans. Até o PV com sua loucura por cargos que o mantém atrelado ao PSDB tem em seus quadros quem discuta o capital, a economia e suas novas-tecnologias.

Dizer que os partidos não discutem o compartilhamento de arquivos, por exemplo, é ignorar o trabalho do professor Sérgio Amadeu , próximo ao PT, e passar ao largo do que blogueiros e organizações discutem, com muito material on line, há anos.

A novidade que vem dar a praia com seu canto de sereia parece muitas vezes ser apenas a manifestação esquizofrênica da repulsa às formas-partidos tradicionais com uma critica difusa às ideologias e um fetiche da ferramenta que torna as novas tecnologias panaceias para uma realidade que teima em exigir respostas concretas e não slogans.
E a novidade, que seria um sonho, acaba virando o mesmo pesadelo de sempre, porque no cotidiano todo mundo faz tudo sempre igual.
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Um comentário sobre “A novidade veio dar à praia

  1. É isso mesmo. Aliás, você citou o Serginho, que entende pra caramba de economia, e tem um material bem crítico sobre internet, novas mídias e coisa e tal… E eu acho que só é possível essa leitura "crítica", da defesa de uma internet livre, e do compartilhamento, justamente porque essas ideias nascem do pensamento de esquerda. Esse é meu ponto: gente que quer negar a esquerda (ou superá-la, o que pra mim não faz sentido algum), sendo que nasceu no bojo da esquerda, é uma continuidade de um pensamento de esquerda… Isso que eu acho esquizofrênico… Enfim… Acho que to viajando, preciso é fazer um post pra organizar melhor os pensamentos.

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