A política é de certa forma a arte de manutenção de relações que conduzem ao poder ou que traduzem os conflitos decorrentes dessa busca. Estas relações podem ser de cunho conflituoso ou não, podem ser fruto de litígio ou não.  E mesmo nos conflitos não existe nenhum tipo de impedimento direto entre relações pessoais, a luta de classes não define o caráter das pessoas, não as torna vilãs ou heróis só pelo lado que tomam partido. Existem comunistas canalhas e bons burgueses.
A questão é que estas relações acabam por incorrer em profunda intimidade com o “inimigo”, o burguês dono de indústria pode sim ser um cara legal, anti-homofóbico, anti-machista, anti-racista, ao mesmo tempo que o companheiro Comunista pode ser racista, homofóbico e machista. E isso, que se não é um problema em si, pode acabar sendo um sério elemento de conflito quando a “causa” nos levar a tomar atitudes que obviamente nos porão de lados opostos com a razão do afeto.
É ai que a porca torce o rabo.
Existem pontes pessoais dignas de serem feitas, mas que não cabem no plano ideológico e o impasse é um elemento a ser trabalhado pessoalmente e não pode ou deve ser levado à “causa” como um argumento a favor da superação de determinados impasses. Existem impasses que nos porão sim de lados opostos em relação inclusive a quem amamos e o teste do afeto ai não é brincadeira e nem pode ser considerado pequeno. A necessidade de uma opção não é bolinho, ela é precisa.
Claro que não se fala de abandonar os afetos, mas obviamente de entender que no campo político os afetos estão de lados contrários e que o afeto pessoal não é determinante na decisão ideológica, ou ao menos não deveria ser. 
Alguns tem amigos tucanos, verdes, petistas e que continuem a ter, mas o afeto não deve ai insinuar que a amizade pessoal é uma ponte entre campos ideológicos, porque quase nunca é e se for provavelmente o que mudou foi seu lado.
Afinidades de classe, regionais ou outras quaisquer, por vezes nos ligam e podem parecer que vão além e que superam questões ideológicas claras e ai por vezes nos vemos defendendo quem ataca de forma venal companheiros porque estes por acaso confrontam ideologicamente o foco de nosso afeto. Só que na hora do pau talvez a razão de nosso afeto acabe de alguma forma do lado de nosso inimigo.
O mundo não é justo, nunca foi, isso não quer dizer que aquele amigo, namorado ou irmão querido tucano ou verde tenha de ser nosso inimigo full time em todas as situações, mas convém manter um certo grau de olho aberto pra não confundirmos nosso afeto com nossa convicção e perceber a distância e a aproximação entre ideologia e afeto de forma bem clara, para evitarmos esperar que um Tucano nos ajuda a combater a morte de sem terra ou um Marinista de nos ajudar a combater sacanagens contra indígenas no Acre e nos decepcionarmos, porque, a gente sabe, na política o buraco é sempre mais embaixo.
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