Texto feito para um trabalho da disciplina História da Arte que cursei neste semestre com o professor Leonardo na Universidade Estácio de Sá de Madureira e que achei bom pra postar aqui.

Misa Satânica – Goya

Anticlerical, crítico e em um mundo em profunda transformação, Goya foi um artista revolucionário em um contexto espanhol de profunda opressão tanto cultural, quanto política e religiosa.
Em um quadro de uma monarquia absolutista mantendo pesado jugo sobre uma sociedade profundamente empobrecida pela sustentação da nobreza e uma Igreja Católica cujo domínio econômico-político e cultural era exposto claramente no poder da mais dura inquisição que a Europa conheceu, Goya conseguiu levar a cabo uma obra que revoluciona arte e dá margem à percepção da mudança do imaginário da época, que de absolutista passa pela via das revoluções Inglesa e Francesa a um mundo onde a burguesia torna-se atriz principal do poder.
Goya representa as contradições da sociedade espanhola, o peso da profunda hierarquização, do papel da igreja como dominante da cultura e do imaginário da sociedade, com profunda qualidade.
Saturno – Goya
O viés revolucionário não só expõe qual um grito de desabafo o quão era sufocante o país decadente chamado Espanha em uma Europa que a cada dia respirava mais e mais o ideal liberal de liberdade e que estava prestes a ver um de seus principais países, e uma das principais casas absolutistas, a França a cair sob o peso da revolta, mas avança, expõe também o impacto inconsciente do domínio político-cultural.
Os aspectos artísticos de sua obra levam a questão da opressão para além do impacto direto, também por ele representado, da opressão visível, mas retrata também da opressão indireta, da opressão pela visão do subalterno e vulnerável como atração circense (como em O Asilo dos Loucos), da opressão que libera demônios (Como os que atingiram Goya em seu colapso nervoso que acabou por deixá-lo surdo), da opressão que ostenta luxo enquanto oculta venalidade (como na pintura A Família Real) e a opressão de uma fé que se diverte ao ver o desespero e histeria diante dos parcos períodos de liberdade carnavalesca que a população miserável tinha às mãos ( Pintura O enterro da Sardinha).
A Familia Real – Goya
O reflexo artístico das contradições da época e da Espanha não se restringe às questões técnicas como a utilização do claro e escuro, das cores e formas de forma a revelar destaques, contradições e variações “impressionistas” , mas vão além ao optar pela reflexão do povo como parte fundamental de sua obra. A busca pela retratação do povo , presente não só nos retratos das Majas, mas também na pintura O Fuzilamento de 3 de Maio onde retrata o opressor francês de costas e o povo tendo face, é uma opção que representa bastante o ideário do autor, simpatizante do Liberalismo em uma Espanha absolutista e conservadora.
O Fuzilamento de 3 de Maio – Goya
A própria desilusão com o papel Francês (de certa forma Liberal) na opressão às revoltas populares na Espanha sob domínio de Napoleão, não escapa a Goya que foi testemunha ocular de uma tragédia que gerou 74,000 mortos só em Madri e Saragoça. As gravuras Os desastres da guerra e Isto é pior são exemplos claros de um clima de profundo desespero.
Esse desespero não vem de um niilismo determinista, mas de um humanismo que entra em choque com com uma realidade de profunda opressão, inclusive opressão vinda da origem de uma das revoluções que levaram a cabo as transformações liberais sonhadas pelo pintor.
O enterro da Sardinha – Goya 
Se o Partido Liberal se identificava com a revolução Francesa, e portanto se Goya se identificava, isto não poderia cegar-lhe ao ponto de negar a crítica ao que via.
Mesmo com a vitória da Inglaterra nas guerras napoleônicas, a restauração da monarquia absolutista na Espanha e a manutenção da opressão, dos tribunais e da inquisição que fazem Goya retirar-se da vida pública e adoecer em exílio voluntário no interior, tiram-lhe o espírito humanista e a ideia de que é possível manter um ideário de liberdade, mesmo vendo contradições, talvez até por isso.
O desespero da demolição de suas convicções pelo real apresenta a Goya um espírito de continuo relato do real, de representação artística de sue cotidiano de forma a tanto desabafar seu desespero quanto de gritar aos quatro ventos a existência da demolição dos sonhos, é uma denuncia antes de mais nada. Goya sofre, mas mantem-se vivo, mantém-se ativo e produzindo, revelando, mesmo de forma abstrata, uma realidade contraditória e opressiva, onde o povo a que ama continua sendo alvejado pela hipocrisia e opressão. Nas Pinturas Negras Goya expõe o desespero, mas não a impotência do autor.
Isto é o pior – Goya
A busca de representar a expressão do rela a partir de si, a partir dos seus sonhos, medos e desesperos torna-se ai uma forma de luta política que o impede de por fim à sua vida de desilusões e o permite manter o espírito de viver a concretude e expô-la, usando o que puder para isso, mesmo que não seja de forma direta e “natural”.
Goya termina sua vida em Bordeaux após escapar à terceira citação no tribunal da Inquisição Espanhola, e passa a pintar de forma exuberante representações das forças da Natureza, em O Gigante e a simplicidade e vivacidade da vida da população, tema que sempre lhe foi caro.
O sonho da razão produz monstros – Goya
Aos oitenta e um anos, um ano antes de sua morte, e entendendo-se como ainda um aprendiz Goya pintava litografias, como as que fez de um homem caminhando onde escreve “Ainda estou aprendendo” ao lado de sua assinatura, demostrando uma energia que superou tragédias e dramas pessoais.
As pinturas de Goya são mais que representações de tempos conturbados, mais inclusive que representações de seu espírito conturbado, mas de uma alma em profunda agitação e com uma profunda necessidade de expor o que via, sentia, defendia, amava.
Goya não era apenas revolucionário pela forma com que pintou, e só isso já o tornaria genial, mas também pela forma com que não se entregou ao desespero e expôs esta recusa em sua obra.
O Gigante – Goya
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Um comentário sobre “Goya: representando tensões conscientes e inconscientes de um mundo em transformação

  1. fiquei surpreso em encontrar um reportagem falando sobre francisco goya, grande iluminista. Minha favorita é "O sono da razao produz monstros" a respota sobre o que aconteceria se a razao voltasse a dormi.

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