Uma das coisas estranhas de dar aula é a dúbia sensação do poder e de sua ausência. A ideia incutida de um poder sobre uma massa de estudantes que deveriam ficar em determinado tipo de código de comportamento, à disposição do “mestre”, é facilmente destruída diante de uma turma que não compartilha dessa lógica ou desses valores. 
Ao mesmo tempo a posição do professor, a lógica inserida na divisão do espaço da sala entre você (isolado, mas central) e o aluno (numeroso, coletivo,mas disperso), aprofunda a ideia do poder, e do controle de um sobre muitos.
Claro que não é bolinho, não é chá das cinco e nem todo mundo se relaciona com o poder ou com o espaço disposto para sua realização da mesma maneira ou tem treinamento para isso.
Dar aula é também uma disputa tentadora sobre o controle de um espaço, assim como é um exercício de controle ideológico do professor sobre a turma, seja ele representante de uma causa pessoal ou apenas da causa do Estado, reprodutor direto da linha ideológica inserida nos planos curriculares.
A ideia do poder está inserida na disputa do espaço, exposta nas relações,especialmente perceptível no controle sobre o som, sobre a voz e os silêncios, apresentada na relação de mérito e demérito via acréscimo ou redução de pontuação para as notas bimestrais. É uma lógica que dança em meio à sala de aula, que é supra presente, clara e é percebida pelo professor e pelo aluno.
A forma como se relacionam professor e aluno diante da situação é também compreensível na forma como o professor entende sobre o que é o aluno. O professor que entende o aluno como um ente de uma sociedade diferente da qual ele, professor, foi resultado, que vive uma escola diferente, fruto de tempos diferentes, este tende a perceber a necessidade de uma nova negociação de poder tanto espacial, quanto comportamental, usando ou não artifícios punitivos como adendos à negociação.
No entanto o professor que entende o aluno como um problema, pois deixa de ser o aluno ideal, um tipo ideal de aluno, nascido e crescido em outra época, fruto de uma outra sociedade, resultado de uma lógica de educação nascida e crescida em tempos ditatoriais ou filha dileta de uma compreensão jesuítica da relação professor/aluno onde o poder central sobre o coletivo é o professor despótico que  deve ser respeitado de per si por “condutor da luz”, este professor é o que culpa o aluno, o aparato do Estado, o universo pela adversidade do aluno real ser diferente do ideal.
Dar aula é também uma disputa tentadora entre uma realidade concreta, que com os defeitos conhecidos contempla a diversidade, e um tipo ideal de educação que é doutrinamento, que é um resultado autoritário de uma lógica de formação que mal foge da escolástica.
Não há aqui nenhuma intenção de isentar a lógica educacional da omissão do aparato estatal no dever de pensar a educação como algo maior do que estatística e que aprovação máxima não é medida de educação, que são necessárias mudanças claras na lógica do ensinar, do numero de alunos por turma, dos equipamentos disponíveis para o professor, da própria aparência das escolas e do entendimento da interdisciplinaridade, do que são as disciplinas, seu papel e como é a melhor forma de ministrá-las.
Porém, não é possível ignorar que a lógica de ensino do professor, que também é uma atribuição do aparato estatal, é hoje anacrônica, que entende o aluno como um mero receptáculo de valores externos a ele sem critica. 
Não é possível deixar de entender o aluno como mais que uma caixa de ressonância do poder central “iluminado” do professor e que reage, até pela vivência de uma realidade onde o poder não pode ser exercido de forma despótica e cujo papel da própria família foge à lógica “clássica” da família classe média papai-mamãe-filhinho-cachorro-papagaio, foge à ideia do poder patriarcal central,  que coloca à frente da molecada a família da mãe chefe, da avó chefe, que dá a eles poder sobre irmãos menores e responsabilidades, que dá a ele a percepção da possibilidade de , cada vez mais cedo, desafiar um poder que não media.
O sistema, o professor, a sociedade, ainda entendem a escola como uma forma de ação de inclusão no aluno de um espírito de civilidade que não perpassa o entendimento da realidade do aluno e de sua comunidade do que é civilidade.
A civilidade é externa ao aluno e à sua rua, sua comunidade. A civilidade é uma imposição não mediada de uma lógica de “valores’ que ao serem recusados como válidos pelos alunos por não serem seus gera a culpabilização do aluno por recusar valores que para ele não ecoam na sua vida cotidiana e em seu tempo. É a civilidade que busca “ensinar valores” e não compartilhar valores, desenvolver valores consensuais.
É a civilidade que criou a Revolta da Vacina, que ignorou o que a população entendia sobre o ato de vacinar-se , sobre o que era uma vacina, sobre o que era homens aplicando vacinas em mulheres, entre outros conflitos advindos de uma ideia de modernização autoritária, de cima pra baixo, que ignorava, como ignora, o que pensa e como é o povo ao qual ela é dirigida.
E é neste caso que a escola, que a meu ver deveria ter um papel de mediação entre a casa e a sociedade, torna-se o palco de conflitos de valores que atordoam professores, que sonham com a idade do ouro do aluno-soldado e tornam os alunos agressivos defensores do seu nicho de poder, conquistado numa batalha onde o número e a cacofonia , a algazarra, são armas entendidas, conscientes, de uma recusa à “colonização”.
Não se pretende aqui defender uma receita de bolo, até porque são as receitas que produzem e reproduzem uma lógica de educação que por mais bem intencionada que seja não atinge à simples lógica de convencer ao aluno, a seus pais e sua comunidade que a escola é o espaço de construção coletiva da sociedade que queremos. 
Se pretende no entanto defender a ideia de que uma educação de qualidade passa pelo entendimento social do que é educação, coletivo, dialogado, construído entre aluno, professor, pais, diretores, funcionários, comunidade.
O espaço de disputa de poder, legítimo e necessário, na sala de aula é representante mesmo de uma disputa de poder concreta que existe na própria ideia de escola, pois escola é também o primeiro espaço da sociedade aberto às gerações que serão os atores principais da sociedade em alguns anos.
O espaço de disputa de poder na sala de aula é também uma responsabilidade mútua de professor e aluno na construção de uma escola, é uma responsabilidade e um poder que o professor detém, mas mediado com o coletivo de alunos, em uma relação que não pode mais ser resultado da figura olímpica do mestre como detentor dos direitos de aprovação e reprovação.
É neste sentido que dar aula é um ato político. Ensinar é um ato político e é nele que o homem político que se veste de professor se revela, como algoz, como mestre ou como mediador. 
É no ensinar que o professor entende-se como parte de um sistema montado na imposição opressiva de uma ideia de realidade ou como ator de transformação.
Por não perceber isso a sala de professores muitas vezes ecoa a permanência de sua exclusão de protagonista do ato político em sua exigência conservadora de valores monolíticos. 
Por recusar-se ao papel de transformador, de ator coletivo, de mais do que um trabalhador que busca melhores salários, o professor muitas vezes se omite na transformação do sistema.
Omitir-se é um ato político.
Anúncios

Comente, mas cuidado...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s