Não sou conhecedor da obra de Ortega Y Gasset, mas a frase repetida por professores,   “O homem é o homem e a sua circunstância”, é elemento comum em minhas reflexões.
Não só pelo aspecto de óbvia referencia ao homem como não isolado, como não ele nele mesmo, alheio ao mundo, como parte de uma rede de circunstancias, de  multi significações, de um contexto, mas muito pela ideia mais simples do ser só existir em comparação com o todo a seu redor.
Sem o outro o que somos? E como entender o que não somos? Como saber do outro?
Claro que qualquer antropólogo de esquina tem lá suas respostas, já eu só tenho dúvidas, dores, amores e conversas, talvez pra boi dormir. 
Porque não sei o outro, não o entendo, talvez nem o aceite, e neste limite entre o raciocínio e o aceitar,  o entender e aceitar emocional, talvez viva o homem.
É nessa forma de choques, preços, decisões, mudanças, visões, percepções e quereres que vivemos e queimamos. Talvez em revoluções e revoluções, constantes, eternas, internas.
E o todo político disso? Quando somos nós mesmos armas de política e limites de experiencias políticas em que entendemos que amar é poder, se relacionar é poder, falar é poder, sentir é poder? Como fazer pra juntar o socialista, o anarquista, com o anti-machista quando reproduzimos o machismo na recusa à liberdade de amar?
Quando somos claros, até pra nós, ao nos posicionarmos como elementos de fomentação prática às mudanças? Sabemos se a nossa belíssima intenção é na prática um ato de reconstrução a partir da demolição de preconceitos, ações políticas danosas à nossa lógica ideológica?  Sabemos se o que fazemos é para o outro o que o vemos? ? Vemos o outro? Como o vemos?
O anti-racista quando vê um negro em sua direção à noite e se sente ameaçado é ele neste momento anti-racista, não vê no homem negro uma ameaça e se vê o que faz? Esse ver é um ver de uma ameaça independente da cor ou a cor, a pele, o fenótipo aumentam o peso da ameaça?
Ao amar  uma mulher entendemos as diferenças, os caminhos e o analisamos sob o o ponto de vista de nossa posição no mundo, na relação, nossa posição de gênero, nossas circunstâncias de gênero?
Não tenho respostas. Absolutamente nenhuma resposta. Tenho perguntas, pois o caminho que tracei me obriga a tê-las e estas dolorosas reconstruções a partir de novas circunstâncias me fazem um homem em transição permanente, temeroso de novas ações causando novas dores, amores, perdas, mas decerto compreendendo que o saber é em si transformador e que é uma arma de ação política direta.
Não um saber iluminista de púlpito, mas um ato de radical observação do real, entendimento das circunstâncias, percepção do real e de si mesmo nele. Este ato é em si perigoso, leva a mortos e feridos, leva a perdas, à distanciamentos, a medos e a “crimes”, à destruição de laços se não observado que o caminho não é só um.
“O homem é o homem e a sua circunstância”, uma frase, uma forma de ver o mundo, e talvez uma arma, espero que saibamos usá-la. 

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