Não sou teólogo, sou historiador, mas sou Umbandista e atuei por cerca de 15 anos direto na religião, passando por, digamos, degraus de “crescimento”, talvez inclusive hierárquicos. Não entro em detalhes de propósito, exatamente para não expor demais algo que a meu ver é questão de foro íntimo e exporia terceiros.

A questão é que por diversos motivos a experiencia religiosa não é algo novo e nem sequer observado apenas com os olhos da fé, ela é lida também pelo filtro do historiador e do ex-graduando de ciências sociais sem que as diversas leituras concorram no sentido de tornarem-se guardiãs da única explicação do fenômeno. Inclusive a saída mais lógica nesse meu caminho foi o entendimento da complementaridade das percepções na construção de uma ideia de religião em mim que se conformasse com a construção de minha identidade, de minha individualidade.

Ouso dizer que toda religião, toda ela, seja de certa forma isso, um conjunto de experiencias que se conformam na construção de identidades pessoais e coletivas e sofrem também o efeito destas identidades individuais e coletivas em permanente transformação, neste dinâmico mundo chamado sociedade humana e cultura.

O pensamento mágico, a religião, neste aspecto é como o pensamento cientifico, fruto de construções, tensões e variações geradas pela existência humana envolvida nele e pela produção intelectual envolvida nestas experiencias a partir de regras presentes nesta rede de formulação de explicações do real de cada forma de pensamento.
E é aí que o aborto me surge como questão, e séria, da fé.

Evito o tema por n motivos. Um deles, e fundamental, é o fato de pessoalmente o aborto me ser complicadíssimo de aceitar, pela ideia da vida humana ali envolvida, pelo entendimento da construção da fecundação, pelo entendimento da existência do ser como algo anterior ao que estipula a ciência,etc. Outro, contraditoriamente e humanamente colocado em seguida, é o entendimento racional, político, da autonomia feminina no assunto ser superior à todas as coisas.

E nessa sinuca de bico a junção do Historiador com o Umbandista tomou uma posição, como ambos, que é o de apoio eterno à decisão da mulher e de defesa dela sobre todas as coisas e mais ainda, isso fundamenta uma lógica de entendimento da inexistência de posição alguma divina que condene o ato do aborto na religião que professo.

Jamais vi um orixá ou entidade recusando ou obrigando um parto ou uma fecundação, jamais. Já vi argumentações neste sentido, mas jamais vi entidades posicionando-se de forma a oprimir um seu filho a tomar esta ou aquela decisão, ainda mais neste aspecto que é tão dolorosamente marcante.

Óbvio que não tenho o monopólio da fundamentação religiosa do fato, mas também ouso dizer que ninguém tem e mais ainda, entendo que toda religião tem, tanto no aspecto direto da exposição do “laudo” divino sobre qualquer assunto quanto nos aspectos indiretos muito da construção de seus membros, em especial das lideranças, o elemento da reprodução, portanto há que se questionar o quanto das posições dos jogos e entidades não reproduzem a lógica do cavalo, babalorixá ou jogador.

É complicadíssimo defender o que coloco a partir de uma lógica absolutamente “empírica” dadas as particularidades do assunto e a própria natureza  não empírica da religião, mas “intuitivamente” como filho de Logun-edé Loko e Oxum Apará nunca os entendi ou percebi como defensores da vida a ponto de torná-la uma defesa intransigente que ocultasse a opção da opressão por ela. A vida em si era entendida também como a determinação do movimento sobre ela.

 A vida do bebẽ é importante sim, mas nunca se ela de alguma forma levar à perda da determinação, do movimento de uma vida consciente na direção de sua felicidade.
O entendimento da liberdade, da construção da felicidade, do superar desafios e da negociação como forma de relação entre divino e  humano sempre me foram claras e nunca me foram tão claras nas ditas religiões do amor como me foram claras nas religiões de matriz africana.

Por isso o entendimento, no caso de um dia ter sobre mim a  responsabilidade do sacerdócio, da questão de gênero e do aborto como exposta acima, como uma questão de autodeterminação da e pela mulher e que deve ser vista como religiosamente um caso de decisão específica da mulher.

E é sim papel do sacerdote ser o defensor da mulher diante do divino, inclusive pelo entendimento do divino feminino ali presente como também uma demonstração da força feminina e da autodeterminação dela.
É dever do sacerdote entender os limites de sua moral na determinação dos destinos dos que estão sob sua responsabilidade como mediador entre homens e Deuses.

Quando um mediador leva a questão religiosa como um ato de sustentação de crueldades anti-vida como as vistas  no caso de Severina, impedindo a realização de um direito constitucional, ou mesmo de um desejo pessoal, este mediador abre mão de seu papel em nome de uma convicção que lhe desautoriza como detentor de tão importante papel.

Se isto já compõe o quadro no caso de religiões onde o sacerdote assim o é por uma opção pessoal, vocacional ou não, é ainda mais forte no caso das religiões de matriz africana onde o sacerdote possui um cargo que lhe é designado ao nascimento, “herdado”, como um talento que nasce com ele e que é resultado de escolha divina, uma espécie de direito divino. 

Se para o religioso a fé é parte da vida, é preciso entender também que a vida é parte da fé, mas que esta é antes de tudo um elemento de percepção filosófica que não significa apenas o bater de um coração, mas um conjunto de fatores que incluem a liberdade. E é preciso que o religioso entenda que como humano seu papel é menos o de se colocar como um Deus que determina a partir do seu corte moral ou da reprodução automática da questão moral do seu grupo e mais aquele que media o divino com o homem, o entendimento supra-humano com o entendimento humano, ou seja, a realidade concreta não mágica com o mágico.

É, portanto, papel do mediador, do sacerdote, a introdução das transformações pelas quais a sociedade passa nas questões religiosas e entender a partir da relação com os Deuses em como isso deve garantir a felicidade e a construção de um grupo e suas individualidades, imaginários, coletividades, sem que sacrifícios sejam feitos, sem martírios e mais importante ainda, sem a destruição do humano em nome de tradições que não mais se sustentam.
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