Ontem a primeira mulher a presidir o país, chamada de “A Cara” pelos apoiadores mais ufanistas do longo governo Lula/Dilma, controlado pelo PT e pela coligação mais ampla desde a criação da torcida do Flamengo, disse que “Pessoas contrárias a hidrelétricas na Amazônia vivem ‘fantasia'”. Ela disse isso para defender Belo Monte, aquela mesmo, onde o povo em greve foi ameaçado, tem sido demitido, onde os índios viraram nômades nas línguas de uma claque virtual de apoio irrestrito,etc. 
No mesmo dia surge a notícia da morte de mais uma trabalhadora rural para entrar no rol dos mártires Chico Mendes, irmã Dorothy, Ze Claudio e Maria, 19 trabalhadores do MST mortos em Eldorado e reecoar nos ouvidos ogros a belíssima e triste Saga da Amazônia de Vital Farias e causando mais e mais desilusão em um mundo cada vez menos afim de algum tipo de papo, conversa e avanço. 
Sempre fantasiei muito, sempre, sempre fui utópico e sempre perdi muito mais do que venci nas lutas cotidianas, ditas políticas. E também acho que contribui com meu radicalismo agressivo, apaixonado e meio surdo pro naipe de debate político, e diria social, onde tudo se parece com discussões de colégio onde o mais macho tem a maior pica argumentativa. 
Confesso que ando cansado disso, que ando cansado de perder meu tempo criando uma rede de argumentos, linhas, versos, sons, cores, imagens e vê-las transformadas em um muro de impedimentos, em um muro de silêncio gargalhado como escárnio. Confesso que a cada vez o homem “intelectual” se parece menos com o que nasci achando que era e mais com um sujeito arrogante, grosso, tosco, tolo, burro e em geral analfabeto funcional.
Dói saber que a gente lendo pode ficar assim e dói , e isso é uma auto-crítica, perceber que minha impaciência é também uma parte disso.
Não sei não sentir, não ter raiva, não me envolver ao sangue, não ferver. Não sei não emputecer ao ver que toda a história criada, contada e argumentada pode ser apenas um alvo de uma cusparada verbal, ignorada, mijada pela arrogância de gente que por algum pedaço da História que perdi acaba de entrar num rumo de leitura do mundo que me ofende por calar o diverso e reduzi-lo a lixo. Eu, que não sei debater, prefiro ir embora, prefiro silenciar, bloquear o acesso deles a mim.E talvez me perder como arma de convencimento, mas me ganhar como leitor isolado do mundo e partilhador do que vejo, e por vezes mal e porcamente.
Acho que só sei dar aula, falar , tentar raciocinar junto. Acho que vivo sim numa fantasia onde o que eu digo pode mudar as pessoas e talvez o mundo. Acho que vivo numa fantasia onde não sei competir politicamente, sou fraco, sou um raivento tolo que ainda tenta ser humano numa disputa onde o coração foi jogado às traças.
Eu, e talvez uns outros ai que ficam se questionando como machistas quando percebem que são conservadores depois de milênios se achando a última bolacha do pacote por apoiar feminismos e a luta lgbtt, somos anacrônicos, espécimes raras e em vias de extinção. Não, não somos especiais, talvez sejamos fracos. 
Nos questionamos e urramos e doemos e somos incompetentes e temos crises e apanhamos e crescemos e temos medo de morrer e de perder o amor, não servimos. Gritamos quando todos estão frios, somos obsoletos.
Não sei ver gente sofrer e ficar calmo. Não sei ver quem oprime ou usa a opressão como arma pra seu sucesso pessoal ou de sua ideia achar graça de argumentos sobre o como foi construído sua “hegemonia”, e isso nem é o problema, o problema é que não sei mais o que fazer.
Ai vemos pessoas, inclusive muitas que outrora estavam do mesmo lado, sofrendo as mesmas dores, sofrendo as pancadas das polícias nas privatizações, defendendo uma presidente que chama gente que estuda anos a questão das hidrelétricas, engenheiros, militantes, indigenistas, antropólogos, estudantes, tudo isso e a mim, de “viventes em fantasia”. Da mesma forma quando você discute que o dinheiro da Televisão priorizando Flamengo e Corinthians é uma criação de desigualdade e inclusive a transmissão dos jogos a reforçam e vê seu argumento tratado de “Argumento fraco e choro porque seu time tem trauma do meu”. Ou quando você fala da questão do aborto e depois de linhas e linhas lê “Você só falou do direito da mulher, mas e do feto?”.
Não sei o que fazer. Não sei para onde ir além do mundo dos arquivos e jornais velhos pra falar da escravidão ou da Coluna Prestes ou da história do Futebol, me perder na academia falando do mundo que escolhi falar, da fantasia que abracei. Me declaro derrotado.
Me declaro derrotado por não saber mais falar de futebol com mais do que um circulo pequeno, porque não sei falar de política com o adverso sem enlouquecer de raiva, porque prefiro as pessoas mais simples da padaria do que os “companheiros” acadêmicos que rasgam suas cátedras ao assumir o papel do mesmo celerado a soldo de governos e partidos ou do torcedor maluco da geral perdida.
Me declaro derrotado porque me interessa menos convencer o seu Juca da Padaria a votar em A ou B ou a pensar em A ou B, do que simplesmente conviver com ele e rir dele e com ele.
Me interessa mais falar do meu futebol preferido com quem consegue ver além do gol do Deivid perdido ou da contusão do Deco do que ir pra selva dos argumentos abaixo da linha da cintura. 
Não sou durão, talvez nem seja ogro mais, talvez seja apenas um fraco, cuja sensibilidade cansou de reagir com urros e mordidas a um mundo cada vez mais imbecil. Me declaro derrotado e alheio a este mundo sem fantasia e perdido na fantasia da mulher que amo um dia me beijando quando eu passar em um concurso.
Não sei mais ver o mundo sem voar, me desculpem. Não vou fazer deste blog um lugar onde a realidade da Dilma seja a única forma possível de existência.

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