A insistência com Belo Monte por parte do governo Dilma/Lula (Não se podem separá-los nas cagadas se os unimos nos avanços) é o tipo de coisa que seria surpreendente se não considerássemos que as mudanças pelo que passou o PT em sua história na imersão na ordem fossem um dia concretizar mais um partido que tem contas a ajustar com suas doações de campanha. 
Existem inúmeros textos sérios a respeito de Belo Monte, alguns mais ou menos técnicos, procurei lê-los todos e confesso que assumo um viés mais próximo aos levados a cabo pelo povo do Xingu Vivo e pelo povo do Revolutas, grupo do qual participei até o fim do ano passado quando abandonei a militância político-partidária e voltei a meu antigo ninho anarquista.
Ou seja, tenho uma opinião bastante formada sobre Belo Monte e sou contrário ao empreendimento de quatro costados e para isso também concorreu o primarismo da defesa do empreendimento pelas forças  governistas, em especial pela militância oficial virtual, que me lembra milícias pagas, cujo grau de irracionalidade pra frente Brasil chegou a dizer que os índios não notavam os empreendimentos na amazônia por serem “Nômades” e que o progresso não pode parar diante do “chilique oposicionista”.
Acho que não preciso mais repetir que me encontro na oposição de esquerda ao governo e por duzentos mil motivos que podem facilmente ser facilmente notados na leitura deste blog e que também procuro manter uma critica bastante dura à mesma oposição de esquerda do qual faço parte quando ela por exemplo atribui ao Governo Dilma a criação da violência contra LGBTT e mesmo uma ampliação desta, quando se sabe que as primeiras políticas sérias a respeito foram sim tomadas por este governo, inclusive as estatísticas.  
Isso não torna o Governo imune às críticas pelos não avanços e pelas opções políticas, pela  omissão diante de uma opção pela surreal politik numa aliança com o conservadorismo das cúpulas evangélicas  e apenas conservadoras, mas tem de ser contado porque não avançar é bem diferente de recuar e cheira a oportunismo o histrionismo de parte da esquerda que atribui ao governo Dilma todos os males ao mesmo tempo que só falta pedir pra trocar de povo quando lê um texto de nome “O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos“, em que o autor faz uma análise basicamente sobre o trabalho de base evangélico e que poderia ser inspirador para a retomada de um papel ativo militante de esquerda na base da sociedade, e o transforma desonestamente no endossar de alianças políticas com os conservadores chamados de “teocratas”, sem nem ter o rigor necessário pra entender a diferença entre IURD e Assembléia de Deus.
Feitas as apresentações, vamos ao que inspira o texto.
Não me espanta mais o feérico estender das fronteiras da honestidade política e do estupro às próprias bandeiras feitos pelo PT, inclusive ancorado nos exemplos históricos anteriores que pairaram sobre outros partidos de esquerda que viraram mais que partidos da ordem por conveniência para serem mais ordenadores que a ordem na defesa do “progresso” ou outro slogan muleta  à mão como o “precisamos matar a fome das pessoas”.  
A  migração do PT de novato na ordem pra leão de chácara cascudo não tem só 10 anos, mas vem desde a década de 1990 a partir da troca de objetivo estratégico das transformações estruturais para a defesa da reforma e da solidariedade do “outro mundo é possível” que  dudamendonciou de vez no “Se isso te ofende, você também é PT” das propagandas pré-eleitorais de 2002, quando a sensibilidade diante da pobreza era o valor a ser buscado em quem apoiava o partido e paulatinamente os laços diretos com as bandeiras históricas da esquerda foram trocados por este viés de gerencia do capital para “matar a fome das pessoas” com todo o real polítik possível e pitadas de hipocrisia. Até porque em política concreta nem sempre se faz qualquer coisa com boas intenções. Convenhamos que isso não foi um passeio de leiteiro e nem parou com o PT, basta ver a fofura do PSOL querendo, a meu ver erroneamente, fazer uma clivagem “solidária” na luta política enquanto pinheirinhos tão ai pra provar que o jogo é duro e precisa de mais que fofura.
Esse abandono da luta política mais, digamos, socialista pro “país rico é país sem pobreza” explica muita coisa e explica a defesa intransigente de todo e qualquer ato para manter os planos de “crescimento” feitos pelo governo e defendidos pelo PT e também às justificativas de enrustimento da comissão verdade, das medidas de combate à homofobia, das questões de gênero,etc, como fim de garantir apoio pro “Pra Frente Brasil”. 
Sendo curto e grosso: Negozinho saiu do “Vamos mudar o mundo” pro “vamos garantir comida na mesa” e ai se estabeleceu prioridades e putz, a dimensão do voto gay e das mulheres organizadas, por exemplo, não coça a máquina a ponto do povo se tocar e desacelerar pra conversar do alto do trator.
A logica de explicação da necessidade de carro, casa, máquina de lavar e geladeira é muito mais simples de explicar pra uma população que saiu de uma merda de década de 1980 perdida, pobre, sem liberdade, fudida e mal paga, depois pros anos 1990, que não foram muito diferentes, para um período onde o estado garante um minimo de dignidade via bolsa-familia, via programas de habitação, UPPs, etc, com todos os problemas de cada um e que abordei duzentas mil vezes neste mesmo espaço.  O argumento do crescimento é tentador, o argumento da ampliação de direitos nem sempre, eles mexem com valores profundos,  construído na longa noite da história. 
Comissão verdade? putz, quantas vezes se houve que “na ditadura é que era bom” e em geral remetendo ao período de crescimento mais próximo que parte da população viu que foi o “Milagre Brasileiro”? Não são poucas e talvez seja ai o link que se faz diretamente entre o hoje e o passado e inclusive se entenda positivamente a destruição de parte da Amazônia com requintes de crueldade feita pelo empreendimento gerado na ditadura e levado a cabo pelo governo mais popular da história recente  e em período democrático: Belo Monte.
Não podemos perder de vista que os dois períodos de maior crescimento econômico na história recente do país foram justamente períodos ditatoriais e de enorme intervenção do estado na economia: Vargas e Ditadura civil-militar pós-golpe de 1964. Não podemos perder de vista que a formação do Luiz Inácio, da Dilma e de parte da ala majoritária do PT é  o desenvolvimentismo JK (Lula), Vargas (Dilma que foi do PDT de Brizola até outro dia) e a referencia ao socialismo real comunista por parte importante das lideranças, mesmo os que vieram de linhagem trotkista, ou seja, em todos os lados temos uma lógica do estado impulsionador do desenvolvimento e que perder anéis pra manter os dedos são coisas que devem ser feitas e que o importante é garantir que o estômago não ronque.
Todo o resto é desimportante, rapaziada! E ai vamos ser justos, porque mesmo nos mais ferozes grupos revolucionários temos, salvo exceções, a colocação em segundo plano tanto a luta de gênero, quanto a anti-racismo, quanto a anti-homofobia e o meio ambiente.
Por isso que apesar de lamentar profundamente ver um partido que ajudei de alguma forma a construir virar um ameaçador de trabalhadores em greve com fuzis, como relata o grande Rui Sposati no twiter e no Xingu Vivo, não me surpreende o ocorrido.
Me surpreende é o definhamento de uma oposição interna no governo e  partido e mais ainda a hipocrisia desta “oposição interna” que se mantém como endossadora indireta dessas ações e largam mão do mais básico o “instinto” político de solidariedade com o republicanismo democrático que não pode ser cúmplice da proibição de cobertura de greve por um jornalista como está sendo feito com o jornalista Rui Sposati.
Me surpreende é ainda existir dentro dos movimentos apoiadores do governo quem mantém quase um discurso polianesco de disputa de algo que me parece cada vez menos com eles.
Me surpreende é a manutenção de um discurso da oposição de esquerda ao governo que mantém uma lógica que ou é moralista, ou é anti-religiosa pagando de laica, ou é  apena histriônica e chegada aos píncaros da desonestidade oportunista se valendo dos furos do governo não para formular uma crítica consciente ao mesmo, mas pra emular elitismos e demofobia travestida de “marxismo religião é o ópio do povo” e que não faz a menor questão de esconder que usa a revolta de parte da esquerda radical com o governo pra gerar sua própria matilha na competição com a matilha progressista apoiadora do trator dilmista.
Me surpreende é que estamos diante de um quadro critico para a esquerda e quando olharmos ao redor as alternativas não diferem em essência ao que temos como hegemônico.
Diante desse quadro a única coisa que me vem é Guimarães Rosa: “viver é muito perigoso”.
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