Há um artificio do catolicismo popular, muito bem descrito e cantado na musica de Chico Buarque e Edu Lobo “A Permuta dos Santos”, que é o da troca de imagens de santos católicos feitas pelos fiéis entre paróquias com o fim de “provocar” os digníssimos a realizarem o “prometido” ou o “pedido” por estes mesmos fiéis nos anos anteriores.
A busca é irritar as divindades e lembrá-los que o conforto e a fé a eles não tá ali de bobeira e nem pagando pau de graça, ou seja, a rapaziada não tá batendo palma pra maluco dançar.
A sabedoria do catolicismo popular é impressionante e desmente a ideia da fé como alicerçada na omissão, na preguiça de pensar e no desvio impotente para a aceitação de tudo. A fé não impede que existam protestos nem contra o alvo da fé, quanto mais por sobre o humano que amiúde impede realizações pessoais e coletivas. A rapaziada tirando os santos de lugar também dá o recado que pode não ser tolerante com os não santos.
Nas cidades e nas mentalidades nem tão populares assim , há imagens que no entanto pululam o imaginário de parte da sociedade e de parte de sua inteligentsia  e que indicam que precisam mais do que permutas para serem transformadas em uma simples construção de igualdade.
Temos por exemplo o uso de um biologismo rastaquera para justificar o injustificável e misógino pagamento à menor da força de trabalho feminina ou o legalismo zé ruela pra defender escravismos tupiniquims por cantoras de rock.
A rapaziada saca do bolso sofismas mal sustentados em si mesmos quanto mais se lançados na arena de outras paróquias. A biologização do pagamento à menor do trabalho feminino é até bacana sob o ponto de vista da ficção, porque o baila comigo  do autor pra não dizer logo que mulher é inferior e tem  que ocupar o que lhe apetece biologicamente, com algumas vagas no mercado de trabalho especificas para elas, enfermeiras por exemplo, chega a ser fofo. 
É até fofo pensar em como se sustenta que existem mais mulheres na Medicina do que na Engenharia sem que o aspecto sócio-cultural tenha ido lá pra dar sua sambadinha, sem que tudo o que circula a ideia de gênero no âmbito social tenha sido sequer bolinado, com consentimento obviamente.
A imagem do santo da biologia foi posta em sua catedral pseudo-científica pra ser o centro das atenções de um mal dissimulado machismo sustentador da lógica própria do mercado de dividir pra conquistar. O autor, que acredito que só tenha feito seu trabalho, prefere atribuir uma culpa divina pela construção de um alicerce genético à fêmea que sustenta como um contrato ad eternum de inferioridade, inclusive no ganho por sobre a venda de sua força de trabalho, a colocar pra jogo  a redução da capacidade feminina culturalmente e socialmente como arma para economias que o capital faz. Sem contar obviamente todos os demais aspectos não decorrentes de uma vontade do capital, mas bem sacados e usados por ele.
 E claro ainda rola a cereja do bolo de indicar o que a mulher tem de fazer a partir de uma só fonte de suporte à “autoridade” de seu argumento. Todo o resto da literatura que envolve gênero e caralhinhos voadores no banheiro é a mesmíssima coisa para o digníssimo autor.
Mudar o santo da biologização de lugar não cabe nessa lógica de permuta que busca a partir da remoção de ícones, de sustentáculos divinizados de crenças, alterar a realidade dos fiéis, cuja fé aguardava a intervenção daquele a quem recorrem em momentos onde os limites do humano falham.
A imagem da santa biologia não cabe em outras paróquias que sensibilizem sua parca autonomia como sustentáculo do absurdo a serem outra coisa além de uma santa de fancaria, uma bazófia à inteligencia alheia. 
Em terreno democrático não há igreja ou capela que aceite a santa sob pena de protestos veementes dos demais santos, que em sua longa carreira de permutas no universo do pensamento mágico nunca foram pautados pela irracionalidade preconceituosa travestida de argumento.

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