Desta vez vou ser curto e se possível grosso com muitos palavrões.
Li a rodo setores da esquerda defendendo que “quem apoia o ‘motim’ das policias está sendo oportunista e equivocado porque a polícia vilipendia os trabalhadores em greve, aterroriza, e depois que terminar o ‘motim’ voltará a fazê-lo”. E não estão errados na segunda parte, mas na primeira demonstram um tal grau de imbecilidade que chega a doer. 
Se dissessem que apoio à greve deveria ser acompanhando de tratativas no sentido de mostrar pros policiais que eles, fudidos e mal pagos, são o braço armado que espancam outros fudidos e mal pagos desarmados, ok. Mas a defesa de uma negativa de apoio a qualquer greve, seja lá com argumentos de rancor ou teorias baseadas no volume das coxas e pouquíssima lógica,cês vão me desculpar, mas são balela. Nego pode ser advogado, jornalista, teórico da literatura, foda-se, tá falando merda.
Se tratarmos a lógica de dominações e ações a serviço do capital e do estado vamos ter uma longa lista aqui de ódios e máculas, porque o policial e a instituição, o médico e a instituição,o professor e a instituição são elementos díspares e em todos os casos existe uma reprodução de violência e opressão em maior ou menor nível, em nível físico ou psicológico.
O PM que mora na favela e toma no rabo diariamente pra defender o seu amor e nossas vidas também nos mete a porrada em manifestações ganhando o mesmo salário fudido. O professor que, coitado, ganha salário de fome pra formar a sociedade  também usa de seu posto pra destilar preconceitos de classe, pra levar a cabo assédio moral, e nas escolas de ensino fundamental, médio e superior. Quantas vezes o professor não usa de seu púlpito e de sua relação de poder  pra destruir auto-estima de nego fudido pra descontar o “excesso de liberdade” pós-ECA? Quantos são os professores que utilizam da auto-crítica para entender seu papel de reprodutores de preconceitos, de dominação intelectual e cultural? poucos, a maioria só usa do sagrado direito à crítica a um sistema que lhes fode, mas a auto-crítica , essa foi jogada na lata do lixo.
E o Médico? o médico é fudido também em hospitais públicos, e tão ou mais essencial que policiais, mas não se furta a lidar com a população como se aqueles “infectos pobres e pretos” fossem um transtorno. Podemos parar por aqui ou preciso citar casos? Porque nessa área é um pouco revoltante pra mim lidar com gente que se recusa a tratar um negro que sangra porque achou que era bandido e  que merecia morrer, quando era um pedreiro que cortou gravemente o braço em uma obra.
Jornalistas? putz, classe hiper explorada pelos fabricantes de realidade, mas que não se furta  repetir senso comum quando interessa a seu fígado, à sua lógica e a seu senso comum particular. E se formos continuar ninguém se salva. Porque todos estão a serviço do capital em suas diferentes atividades e não me venham com “Mas é diferente!” é diferente porrissima nenhuma. O professor que induz à classe popular a se achar imbecil em suas aulas diárias (e acreditem não é minoria!); o professor universitário que trata o aluno como sub-ser não alçado ao olimpo, pede seu apoio em greve, mas o fode se ele se insurge contra as opressões da universidade; o Gerente que orienta seguranças a baterem em pessoas em shoppings; o trabalhador da Supervia que chicoteia passageiros;  O jornalista que defende opressão a qualquer tipo de trabalhador por rancor da forma de ação de uma parte da institucionalidade onde o trabalhador atua; Todos são arma e braço do sistema capitalista e sim estão oprimindo cidadãos e trabalhadores, estão fazendo o serviço do capital.
Não é preciso nos alongar citando todas as áreas, não é mesmo?
É preciso discutir “A” e com a Policia e os Policiais, sua atuação como arma da opressão, sua característica como parte da classe trabalhadora lançada contra a mesma e não conheço melhor momento do que o atual, onde eles estão isolados como agora, isolados pela ausência de parte da esquerda que opta por lembrar das ignomínias que praticam e esquecer  a origem de classe da composição das tropas, isolados pelo aparato de midia criminalizante e pelo estado que obviamente não quer seus cães soltos. E é nessa hora, onde o diálogo e a criação de pontes é uma premissa, pontes essas que demoram anos para serem construídas, que a esquerda deveria se aproximar e de forma critica criá-las, iniciar sua construção. Mas qual o que? parte significativa dela se esconde em seus Lênins, Marx, Trotski e mandam para a volumosa casa do caralho o bom senso remoendo rancores e se portando como embaixadores de uma classe trabalhadora que mal conhecem.
Será que a esquerda entende que é santificação do Policial como trabalhador a simples lógica prática de que é um fudido que pode aprender ali que nós somos parecidos com ele, que há diálogos para serem construidos e a fada da revolução não aparece se gritarmos “pravda” cinco vezes diante do espelho? Como a gente faz com policia e exército, finge que não tá ali? Passa a lutar para que só a elite seja armada e entre pra polícia?
A Esquerda Brasileira vive na dicotomia do gueto intelectual prenhe de idealizações, pouco traquejo intelectual digno do nome e fora das cartilhas marxistas-leninistas repetidas à exaustão com seus rococós e salamaleques e uma realidade que lhe exige esforço teórico com musculatura, ação prática de percepção e movimentação com adendos, com profundidade e com ação que entenda a lógica do dia a dia, do que é feito o real, seja ele dentro de uma farda ou não.
E assim seguimos correndo atrás do nosso próprio rabo, ignorando o que deve ser criticado, o que deve ser apoiado e mais ainda o que deve ser uma chance inigualável de diálogo entre setores da classe trabalhadora, porque sem isso vamos continuar sendo mordidos por cães e esses cães ganham uma certa razão.
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