A busca de consensos e de acomodações é uma arte própria de nossa política Brasileña. A própria noção de que propostas radicais tendem a ser inúteis porque jamais serão colocadas em prática é voz corrente na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Uma filha dileta desta noção é a idéia de que se você “não participa do ‘jogo’ você jamais é eleito e nunca pode fazer  nada”. E o “jogo” ai é corrupção na dura, mas com a tucanada clássica de Pindorama.
Essas noções percorrem o pensamento dos nossos amigos, irmãos, namoradas, e nas padarias de Vera Cruz se consolidam como uma idéia monolítica de política. O problema delas não é só o determinismo de que política só pode ser feita do jeito clássico desde o pré-império ou então não é política, é também incutir como radicais apenas as idéias e propostas que estão do lado gauche da vida. Ou seja, se naturaliza que “radical” é de esquerda e que passar o rodo em meio país de floresta é “normal’ e “de Deus”.
Então fica aquela coisa pululando nas colunas de jornais, de Blogs, em twitteres e feiciquibuis: “Politica é acomodar-se como sistema pra poder fazer alguma coisa”.  Radicalismos como direitos civis pra homossexuais, legalização do aborto, abrir diálogo com etnias indígenas antes de mandá-las pra pitoresca casa do caralho em nome da construção de mais uma barragem, são impedidos de serem debatidos porque “não  passam” e “temos coisas mais importantes pra fazer pelo país e pelos pobres”.
E essas “coisas mais importantes pra fazer pelo país e pelos pobres” em geral compõem radicais transformações na vida dos  pobres “reais” que são atingidos por:  barragens que os removem, assim como a seus companheiros das etnias indígenas; por uma educação que os condena, se gays e mulheres, a uma existência oprimida e por vezes cheias da deliciosa e fofa porrada diária; por estradas e estádios  das cidades sedes da Copa e Olimpíada, nos quais jamais andarão ou entrarão.
Assim se segue no baile de abandonar “radicalismos” humanistas para adotar o radical trator de um capital cujo “desenvolvimento” é em geral construído em cima de cadáveres. E vamos nos “desenvolvendo” sem saber que desenvolvimento é esse, qual o preço a respeito dele e o quão é radical este processo onde abandonamos “radicalismos” que reduziriam opressões para abraçar radicalismos que produzem tragédias no presente e no futuro. 
Tiramos pobres de suas casas e cidades parta “melhorar a vida” dos pobres que perdem suas casas e cidades, sacaram? 
Acomodamos com os ruralistas para pavimentarmos o caminho do desenvolvimento que vai “melhorar a vida” dos pobres que por vezes morrem assassinados pelos ruralistas. Abandonamos propostas “radicais” que ofenderiam a bancada da religião para que possamos avançar no desenvolvimento que vai “melhorar a vida” dos pobres cujas mulheres serão condenadas a terem filhos de estupro, por gravidez indesejada porque a fé do Brasil não permite que mulheres tenham o direito de abortarem.
Acomodamos com todo mundo, dialogamos com todo mundo para “melhorar a vida” dos pobres que são massacrados em um processo de desenvolvimento que esgota todos os avanços humanistas para manter uma máquina que não dialoga e remove, expulsa, mata e alimenta a mesma opressão do sistema que deveríamos derrubar, mas estamos ali “dialogando”, porque “politica não se faz sem acomodação e mediação”.
E seguimos na busca de consenso e conciliações enquanto morrem Guaranis, Lutadores, Sem Terra, mulheres e gays. Buscamos consenso enquanto se constroem Usinas para alimentar a industria do alumínio, se aprovam leis que legalizarão o desmate, se busca criar uma “bolsa-estupro” e por ai vai… 
Enquanto isso gays e antropólogos são espancados em São Paulo, a serpente pariu o ovo e estamos buscando o diálogo.
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