Falo em geral de política neste espaço, que pouco é , digamos, pessoal. Porém ao ver Niara de Oliveira no Twitter e em seu ótimo Pimenta com Limão comentar o desafio de 30 livros em um mês, cocei pra escrever algo. Até porque livro é um treco que eu curto até de olhar.
A vida contada em livro é engraçada, faz a gente lembrar que leu quando criança a “Enciclopédia Disney” da Abril e que cuidava da “Enciclopédia do Escoteiro Mirim” como se fosse um bichinho de estimação. Lembrar na adolescência dos  e livros do Erich Von Daniken e seus “Eram os Deuses Astronautas?” assustando a percepção de “normalidade” fazendo ver que muita coisa era escondida e que havia algo não contado no mundo. E mesmo que depois toda aquela bobagem anti-científica e meio racista tenha se mostrado isso, uma imensa bobagem, ficou a sensação de entender que havia segredos no mundo que podiam ser desvendados.
Na mesma época comecei a ler Quintana e poesia, que junto com os Gibis de Super-Herói ocupavam minhas fantasias não eróticas. Lembro de não-livros como “V de Vingança” e “Watchmen” de Alan Morre me ensinando a ser um anarquista adolescente.Os X-Men iniciaram o que depois seria o entendimento de Malcom X e Martin Luther King.  Mas o  que tomou meu espírito e alma foi ver na TV a minissérie da Maldita “O Tempo e o vento” e depois mergulhar nos livros “O Continente”, “O Retrato”, “O Arquipélago”, “Ana Terra” e “Um Certo Capitão Rodrigo” (Estes dois parte do primeiro) de Érico Veríssimo.

O Efeito de Érico Veríssimo naquele adolescente que pretendia ser cientista social só foi levemente equiparado na faculdade ao ler os clássicos Marx, Weber e Durkheim , mais Roberto da Matta e Levi Strauss desandando a noção de cultura, país, estado, e toda a segurança de conceitos aprendidos no velho e bom lar do Seu Gilson Policial Anarquista e coração mole. Érico Veríssimo me ensinou que “Nos grandes eu dou de prancha e nos pequenos eu dou de talho”.E embora um carioca da gema como eu não seja nada parecido com um gaudério entendi e calou fundo aquele Rodrigo Cambará abusado, depois seu sobrinho Toribío e a idéia de um pampa mítico.

Guimarães chegou mais tarde, na juventude que já achava que o mundo era seu e ia por ai morar em Minas e depois voltar pra ver como o Rio andava.Seu “Grande Sertão: Veredas” abalou Madureira na minha cabeça me mostrando que eu não precisava me transformar no mauriçola e falar empolado pra ver o universo. Guimarães fez a antropologia fazer sentido. A Antropologia beijou Guimarães na boca.
Quando descobri Rubem Fonseca o Rio de Janeiro pra mim era menos lindo do que 40º, o que pra mim continuava foda e maravilhoso. “A Grande Arte” me chegou aos 30 anos como um anuncio de que eu podia ver o mundo e o Rio sem frescura e com amor, com coração e com força, mas sem a suavidade falsa do falso sorriso, do falso desejo, do falso canto de sereia. Renascer carioca me fez um bem danado. E neste período minha politica mudava eu repensava a mistura de marxismo e anarquismo que tinha na cabeça, detestava a caretice Stalinista, a sede de máquina e também a falta de concretude e discussão de outros planos de existência que via no Anarquismo prático. Malatesta era o máximo e Trotski chegava chegando via “Literatura e Revolução”.
Ainda hoje passeio pelo que li em Trotski e pelo que li em Malatesta, no pouco que li do Toni Cliff, Calinicos,etc.
Quando voltei a estudar o que me libertou foi ler March Bloch, Sidney Chalhoub e seu belíssimo “Trabalho, Lar e Botequim”, “Footballmania” de Leonardo Afonso Pereira, o Grande “O Negro no Futebol Brasileiro” de Mário Filho e finalmente os dois livros que mexeram mais comigo nos últimos anos: “A Formação da Classe Operária Inglesa” de E.P. Thompson que mudou minha visão de política, teoria marxista e de História, o que é claramente uma mudança e tanto num sujeito de 37 anos e pelo lado do humor “O Guia do Mochileiro das Galáxias” de Douglas Adams, livros que me deram um equivalente literário ao meu próprio humor non sense, negro, mau humorado e sordidamente inspirado em TV Pirata e Monty Python.
É um bom passeio contando a vida em alguns livros que li, ao menso os mais importantes. Tem o Deepak Chopra em “O Retorno de Merlin” que li aos 26 anos e que me interessou pela abordagem de uma forma meio “quântica” do tempo e muitos outros mais, fora os quadrinhos que ocupariam linhas e linhas.
Chorei muito em muitos livros, ri demais em outros. Mas o mais importante é que ainda tenho, hoje, a mesma relação que tinha com a “Enciclopédia dos Escoteiros Mirim”, são meus amigos, trato-os como ouro.

PS: Uma das coisas que os livros muito mudaram na minha vida foi a percepção que eu tinha na adolescência e juventude de que tinha chegado às mesmas conclusões que os gênios por mim mesmo, quando as coisas eram sedimentadas pro muitas coisas, de conversas com amigos a leitura de livros, panfletos e outras coisas. Hoje acho um barato ter aprendido  com muita gente, livro e coisas e ter entendido um tanto de cosia que me permite ler um Thompson, não por eu ser um gênio, mas pelos gênios terem me ensinado, muitos destes apenas mecânicos, porteiros, amigos e irmãos que eu ouvi e não li.

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